Investigação de Soraia Oliveira, docente do Instituto Superior Miguel Torga, analisou 248 profissionais portugueses e identifica a identidade profissional como fator decisivo para manter o envolvimento no trabalho.

Um estudo desenvolvido por investigadores ligados ao Instituto Superior Miguel Torga (ISMT), em Coimbra, concluiu que o sentimento de pertença e a identidade profissional desempenham um papel importante na forma como bombeiros e polícias portugueses lidam com as exigências emocionais das suas funções. A investigação analisou 248 profissionais — 100 bombeiros e 148 polícias — e verificou níveis superiores de identidade profissional e envolvimento no trabalho entre os bombeiros. Os resultados são particularmente relevantes para uma região como a de Coimbra e para concelhos como Penacova, onde os Bombeiros Voluntários e a GNR asseguram diariamente missões de socorro, emergência e segurança.
Identidade profissional é elemento central
O trabalho, intitulado Emotional Labor, Occupational Identity, and Work Engagement among Portuguese First Responders, foi publicado no Journal of Work and Organizational Psychology e tem como autores Soraia Alexandra de Sousa Oliveira, Carla M. Santos de Carvalho, Ana L. Sousa Pinto e Sonia M. Guedes Gondim. O artigo foi recebido em julho de 2024 e aceite para publicação em dezembro desse ano.
Os investigadores procuraram perceber de que forma as exigências emocionais associadas às profissões de emergência influenciam a identidade profissional e o envolvimento no trabalho. Os resultados apontam para a identidade ocupacional como um mecanismo importante na ligação entre aquilo que os profissionais vivem e sentem durante o serviço e a capacidade de manterem o envolvimento com a profissão.
Segundo os dados apresentados, o envolvimento profissional atingiu uma média de 4,7 pontos, numa escala de seis, entre os bombeiros, contra 3,9 entre os polícias. O estudo concluiu igualmente que os bombeiros apresentam uma identidade profissional mais forte e estão mais expostos a exigências relacionadas com a expressão de emoções positivas.
Bombeiros e polícias enfrentam exigências emocionais diferentes
A investigação mostra diferenças entre as duas profissões. No caso dos bombeiros, a expressão de emoções positivas — nomeadamente transmitir calma, conforto e apoio às pessoas socorridas — aparece associada a uma identidade profissional mais forte e, através dela, a níveis superiores de envolvimento no trabalho.
Esta realidade assume particular importância no voluntariado, uma vez que muitos bombeiros conciliam a atividade de socorro com outras profissões e responsabilidades familiares. O próprio estudo assinala que esta acumulação pode representar uma pressão adicional.
Entre os polícias, o trabalho emocional surge mais associado à necessidade de controlar e conter emoções, perante situações que podem envolver crime, vítimas e confronto. A investigação verificou que estratégias como esconder ou simular determinadas emoções estão associadas a níveis inferiores de identidade profissional e de envolvimento no trabalho.
Uma realidade próxima de Penacova
Os resultados têm uma dimensão concreta no território de Penacova. O concelho dispõe dos Bombeiros Voluntários de Penacova e do Posto Territorial de Penacova da GNR, estruturas que integram a resposta local de proteção e segurança.
A importância destes profissionais torna-se particularmente visível em situações de incêndio rural, acidentes, desaparecimentos, ocorrências rodoviárias ou outras emergências. Em junho de 2026, por exemplo, a GNR registou uma operação de busca no concelho de Penacova que envolveu o Posto Territorial local, meios da Unidade de Emergência de Proteção e Socorro e o apoio dos Bombeiros Voluntários de Penacova.
O próprio Município de Penacova tem reconhecido a especificidade da missão dos bombeiros. Em junho deste ano foi aprovado um regulamento municipal de benefícios sociais para os Bombeiros Voluntários de Penacova, com medidas que incluem bolsas de estudo, apoio ao arrendamento e reembolso de determinadas despesas, estando a entrada em vigor prevista para janeiro de 2027.
Formação emocional ao lado da preparação operacional
Para os autores, os resultados reforçam a necessidade de não limitar a preparação destes profissionais à componente física e técnica. O estudo aponta para a importância de formação específica em resiliência e inteligência emocional, bem como de estratégias de gestão do stress, incluindo exercício físico e mindfulness.
Outra recomendação passa por processos de seleção que considerem as exigências emocionais das diferentes funções e pela criação, dentro das organizações, de mecanismos de apoio que permitam aos profissionais procurar ajuda sem que isso seja encarado como sinal de fraqueza.
A investigação alerta ainda para os riscos associados à exposição repetida à morte, ao sofrimento, à violência, ao perigo e à possibilidade de colocar a própria vida em risco. Neste contexto, a identidade profissional surge não como substituto do apoio psicológico ou organizacional, mas como um dos fatores que podem contribuir para manter o envolvimento com uma profissão particularmente exigente.
Investigação com continuidade em Coimbra
O trabalho integra uma linha de investigação desenvolvida por Soraia Oliveira em torno das emoções no trabalho, da regulação emocional, do stress e da identidade profissional. A docente do ISMT concluiu, em junho de 2026, o doutoramento em Psicologia na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, com uma investigação dedicada à regulação emocional de profissionais de emergência através de realidade virtual.
A investigação agora divulgada reforça, assim, uma questão com particular relevância para os territórios onde bombeiros e forças de segurança constituem uma presença permanente: cuidar de quem cuida e protege a população passa também por reconhecer e acompanhar as exigências emocionais inerentes ao exercício dessas profissões.












