No XV poema desta série, Daniel Gomes Alves leva-nos até Paredes, numa viagem marcada pela festa em honra de São Miguel, padroeiro da aldeia. Entre a fé, a tradição, a música e as memórias de quem partiu, o poeta retrata o reencontro das gentes com a terra e a identidade de uma comunidade que mantém vivas as suas raízes.

XV
Lá no alto, entre a serra,
onde o silêncio sabe a pão,
Paredes veste-se de festa
e abre as portas do coração.
São Miguel desce à aldeia,
nas orações e no olhar,
e há uma fé antiga e cheia
que ninguém consegue apagar.
Há foguetes rasgando o céu,
há música pelas ruas,
há memórias de quem partiu
e saudades que continuam suas.
Nas janelas há flores,
nas mesas há tradição,
e regressam velhos amores
à terra do seu coração.
São Miguel, anjo guerreiro,
protege esta nossa gente,
cada casa, cada terreiro,
cada memória presente.
Protege quem vai trabalhar,
quem ficou, quem teve de partir,
e aqueles que voltam a Paredes
só para a festa poderem sentir.
Porque uma aldeia não é somente
as casas, os caminhos e o chão;
é a voz de toda a gente,
é memória, é identidade, é união.
E quando a noite se ilumina
e o sino chama à oração,
Paredes inteira se inclina
perante o seu padroeiro e guardião.
São Miguel, fica connosco,
nesta terra de tradição;
guarda Paredes no teu abraço
e cada filho no coração.
Que nunca se perca esta festa,
nem a fé que nos faz voltar;
porque enquanto houver Paredes,
haverá sempre quem a saiba amar.
Daniel Gomes Alves

