Nova estrutura pretende transformar em política pública permanente o trabalho desenvolvido desde 2020. Os Palitos de Lorvão, património cultural imaterial oficialmente inventariado, estão entre os saberes que poderão beneficiar do novo enquadramento.

O Governo anunciou a criação da Rede Portuguesa Saber Fazer, uma nova estrutura nacional destinada a promover a salvaguarda, transmissão, valorização e desenvolvimento sustentável das artes e ofícios tradicionais. Para Penacova, a iniciativa assume particular interesse, uma vez que o concelho possui um saber-fazer artesanal oficialmente reconhecido: a manufatura tradicional dos Palitos de Lorvão.
A criação da Rede foi anunciada na segunda-feira, 21 de setembro, pela ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, durante o 5.º Fórum Cultura, realizado no Museu do Côa, em Vila Nova de Foz Côa. A iniciativa pretende dar continuidade ao trabalho desenvolvido desde 2020 pelo Programa Nacional Saber Fazer, apoiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), passando agora para um enquadramento de política pública permanente.
A nova Rede será coordenada pela Direção-Geral das Artes (DGARTES) e deverá reunir artesãos e outros profissionais do setor, entidades públicas e privadas, instituições de ensino, municípios e agentes culturais. Entre os instrumentos previstos encontram-se oficinas em rede, um repositório digital e programas de valorização, bem como iniciativas de partilha de conhecimentos, investigação e inovação.
Artes e ofícios tradicionais passam a ter programa próprio
O novo enquadramento prevê também a integração das Artes e Ofícios Tradicionais no Regime de Apoio às Artes da DGARTES através de um programa próprio, destinado a financiar projetos de salvaguarda, transmissão, documentação, investigação, mediação cultural e valorização dos saberes tradicionais.
A adesão à Rede Portuguesa Saber Fazer será condição de acesso aos novos apoios financeiros destinados ao setor, embora a inscrição na Rede, por si só, não constitua garantia de financiamento. Segundo o Governo, os primeiros pedidos de adesão poderão ser apresentados em outubro e o primeiro aviso do Programa de Apoio às Artes e Ofícios Tradicionais deverá ser lançado até ao final deste ano.
A portaria que aprova o Regulamento da Rede Portuguesa Saber Fazer encontra-se atualmente em consulta pública. A Consulta Pública n.º 403 decorre entre 21 de setembro e 1 de outubro de 2026, permitindo a recolha de contributos antes da conclusão do processo legislativo.
Penacova tem um saber-fazer inscrito no Património Cultural Imaterial

A importância desta nova política para Penacova torna-se particularmente evidente através dos Palitos de Lorvão.
A manufatura dos palitos está inscrita no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, com o n.º de inventário INPCI_2016_001, sob a denominação “Conhecimentos tradicionais, de caráter etnobotânico e artesanal, utilizados no processo de produção de palitos”. A ficha apresenta ainda como outra denominação “Manufatura de Marquesinhos (Lorvão, Figueira de Lorvão, Penacova)”.
O inventário classifica esta prática no domínio das competências no âmbito de processos e técnicas tradicionais e na categoria das atividades transformadoras. A documentação patrimonial descreve-a como uma atividade de caráter pré-industrial, marcada por uma tecnologia simples e por um processo de transmissão essencialmente oral.
O saber associado aos palitos ultrapassa, por isso, o próprio objeto produzido. Envolve conhecimentos sobre as espécies vegetais utilizadas, nomeadamente salgueiro e choupo, sobre a seleção, corte e preparação da madeira e sobre a sua posterior laminação. A transformação da madeira num palito exige uma técnica manual adquirida e aperfeiçoada tradicionalmente em contexto familiar.
Um património com expressão em várias comunidades do concelho

A ficha do Património Cultural identifica a manufatura dos palitos como uma prática existente em comunidades de três freguesias do concelho de Penacova: Lorvão, Figueira de Lorvão e Penacova.
Entre as povoações identificadas encontram-se Caneiro, Chelo, Chelinho, Lorvão, Rebordosa, São Mamede, Paradela, Roxo, Ronqueira, Golpilhal e Granja. A ficha patrimonial registava o estado de transmissão como ativo, identificando como agentes de transmissão os membros das comunidades envolvidos na seleção e preparação da madeira e na sua transformação e laminação em palitos.
A documentação do Património Cultural aponta para referências aos palitos no Mosteiro de Lorvão desde o século XVII, estando esta atividade profundamente associada à história económica e social do território. A tradição local relaciona igualmente a origem da manufatura com o Mosteiro de Lorvão, embora a documentação histórica e a tradição oral devam ser distinguidas na interpretação das origens desta atividade.
O próprio Município de Penacova descreve a manufatura como uma das expressões mais marcantes do artesanato concelhio, referindo a utilização tradicional de salgueiro e choupo e a permanência da tradição em várias localidades, apesar da redução da produção.
Uma história económica e social que o território continua a recuperar

O fabrico dos palitos não foi apenas uma atividade artesanal. Durante décadas esteve ligado ao quotidiano e à economia doméstica de numerosas famílias de Penacova.
Uma reportagem publicada pelo Penacova Actual em maio deste ano, a propósito da exposição “Das Raspas aos Luxos”, promovida pelo Grupo Etnográfico de Lorvão, recuperou precisamente essa dimensão social. A mostra reuniu cerca de 150 peças e procurou mostrar como os rendimentos obtidos pelas paliteiras contribuíam para a aquisição de vestuário, adornos e outros objetos, revelando a importância económica e simbólica que o trabalho dos palitos assumiu na vida de várias gerações de mulheres lorvanenses.
A mesma investigação do Penacova Actual recordou que o trabalho era realizado em contexto doméstico e transmitido dentro das famílias, envolvendo diferentes gerações. O fabrico dos palitos constituía, para muitas famílias, uma fonte complementar de rendimento e deixou marcas profundas na organização social das comunidades de Lorvão.
Dos palitos tradicionais à inovação contemporânea

A história recente dos Palitos de Lorvão demonstra também que a preservação deste saber não passa necessariamente por manter as formas tradicionais de produção desligadas da realidade contemporânea. Em abril de 2021, os Palitos de Flor, produzidos pela artesã penacovense Maria de Fátima Conceição Lopes, venceram a fase regional do European Food Gift Challenge, na categoria de Food Gift não comestível, recebendo ainda o prémio de “Melhor Inovação em interpretação Contemporânea de Artesanato Tradicional”. O produto representou a Região de Coimbra na fase europeia do concurso.
A distinção valorizou precisamente a capacidade de conjugar tradição e contemporaneidade, tendo o concurso considerado critérios como o design, a inovação, a sustentabilidade, a ligação ao território, a originalidade e a utilização de elementos associados ao artesanato tradicional. O reconhecimento mostrou que um saber-fazer profundamente ligado à identidade de Penacova podia também ser apresentado através de uma linguagem contemporânea e integrado em novas estratégias de valorização do território.
Poucas semanas depois, em maio de 2021, o Município promoveu no Mosteiro de Lorvão demonstrações públicas da confeção dos tradicionais Palitos de Flor, com a participação do Rancho Folclórico “As Paliteiras de Chelo” e do Grupo Etnográfico de Lorvão. A iniciativa integrou uma programação cultural conjunta dos municípios de Penacova, Mealhada e Mortágua e procurou aproximar o público deste saber tradicional.
Na altura, o Município salientava igualmente o trabalho de levantamento realizado através do projeto Memórias de Penacova, que contribuiu para a inscrição da manufatura dos palitos no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial. Este percurso mostra que a salvaguarda dos Palitos de Lorvão tem vindo a combinar investigação, memória, transmissão, promoção cultural e procura de novas formas de apresentação e valorização.
Do património à transmissão do conhecimento

Penacova não parte do zero neste domínio.
Em outubro de 2023, o Município de Penacova e a DGARTES, através do Programa Nacional Saber Fazer, promoveram a iniciativa “Palitos de Lorvão: Saberes Partilhados”, integrada nos Laboratórios de Intervenção Territorial do programa.
A iniciativa procurou precisamente valorizar e promover o processo de produção artesanal dos palitos e aproximá-lo das novas gerações. O programa incluiu uma componente dirigida a alunos do Agrupamento de Escolas de Penacova e momentos de contacto com a história, a técnica e as pessoas detentoras deste conhecimento.
O programa publicado pelo Penacova Actual registou a participação de representantes do Programa Nacional Saber Fazer, da Direção-Geral do Património Cultural e do CEARTE, além do Município de Penacova, do Grupo Etnográfico de Lorvão e da artesã Fátima Lopes. Entre os temas abordados estiveram o Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, a produção manual dos palitos, a experiência de uma vida ligada a esta arte e a certificação das produções artesanais.
Uma rota que já liga artesãos, património e comunidade

O trabalho desenvolvido em Penacova encontra-se igualmente refletido na própria Rota dos Palitos de Lorvão, integrada no Programa Saber Fazer Portugal.
A rota identifica como pontos de interesse a artesã Maria de Fátima Lopes, em Ronqueira, o Centro Interpretativo do Mosteiro de Lorvão, o Grupo Etnográfico de Lorvão e o Rancho Folclórico “As Paliteiras de Chelo”, estabelecendo uma ligação entre quem preserva o saber, os espaços que contam a sua história e as possibilidades de contacto e aprendizagem.
O Programa Saber Fazer descreve a manufatura dos palitos como uma atividade característica de diversas comunidades do Município de Penacova e destaca a conjugação de dois conhecimentos tradicionais: o conhecimento das espécies vegetais e dos procedimentos de preparação das madeiras e a técnica necessária à sua transformação e laminação.
Esta realidade aproxima-se diretamente dos objetivos agora anunciados para a futura Rede Portuguesa Saber Fazer, que pretende criar uma estrutura de informação, espaços, comunidades e eventos, reforçando a cooperação entre artesãos, instituições e territórios e incentivando a partilha de conhecimentos técnicos e artísticos.
Uma oportunidade para dar continuidade ao “saber fazer” de Penacova
A futura Rede surge, assim, num território onde já existem vários dos elementos que o novo enquadramento nacional pretende articular: um património cultural imaterial oficialmente inventariado, pessoas detentoras do saber, associações locais, equipamentos de interpretação, iniciativas de transmissão às escolas e uma relação já estabelecida com o Programa Nacional Saber Fazer.
Para Penacova, e particularmente para as comunidades de Lorvão, Figueira de Lorvão e Penacova onde esta tradição se desenvolveu, a nova estrutura poderá proporcionar um enquadramento permanente para iniciativas de salvaguarda, documentação, investigação, transmissão e valorização dos Palitos de Lorvão.
Será, contudo, necessário aguardar a conclusão da consulta pública e a regulamentação definitiva da Rede para conhecer em concreto as regras de adesão e os mecanismos de apoio que serão disponibilizados.
O anúncio do Governo representa, para já, uma mudança de enquadramento: o trabalho desenvolvido desde 2020 através do Programa Saber Fazer pretende deixar de depender exclusivamente de instrumentos temporários associados ao PRR e passar a dispor de uma estrutura e de mecanismos próprios de política pública.
Em Penacova, essa mudança encontra uma realidade concreta: um saber tradicional que faz parte da identidade de várias comunidades, que está oficialmente reconhecido como património cultural imaterial e que continua a ser objeto de iniciativas de memória, transmissão e valorização.












