Ministra do Ambiente alerta para uma situação diferente da registada nos últimos anos, apesar de as reservas nacionais estarem acima das de 2025. Dados da APA confirmam sinais de pressão na bacia hidrográfica do Mondego.

A ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, alertou esta segunda-feira, 21 de setembro, para uma maior escassez de água no Norte e Centro de Portugal, apontando as bacias hidrográficas do Lima, Vouga e Mondego como aquelas que apresentam uma situação pior do que há um ano. A declaração foi feita em Soure, no distrito de Coimbra, durante uma visita às obras de intervenção no rio Arunca, num contexto que assume particular relevância para Penacova e para a Região de Coimbra, atravessadas pelo Mondego e dependentes dos seus recursos hídricos.
Reservas nacionais estão nos 75%, mas distribuição é desigual
Segundo Maria da Graça Carvalho, as reservas de água no conjunto do país situam-se atualmente em cerca de 75%, acima dos 72% registados no mesmo período do ano passado. A ministra salientou, contudo, que a média nacional esconde uma diferença territorial importante: enquanto várias regiões do Sul apresentam uma situação mais favorável, o Norte e o Centro enfrentam maior pressão sobre as disponibilidades hídricas.
Entre as bacias identificadas pela governante como estando em pior situação do que em 2025 encontra-se precisamente a do Mondego, o que coloca a evolução dos recursos hídricos do principal rio da Região de Coimbra no centro das preocupações.
Os dados disponibilizados pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA) ajudam a enquadrar esta situação. Na atualização de 14 de setembro, a bacia do Mondego apresentava um armazenamento global de 63%, valor coincidente com a média mensal de referência indicada pela APA. No entanto, o indicador de seca hidrológica relativo a agosto classificava o Mondego em seca hidrológica moderada. O Vouga encontrava-se em seca hidrológica fraca e o Lima em seca hidrológica moderada.
APA já acompanhava o reduzido escoamento do Mondego
A situação não é nova. Em 17 de agosto, a APA emitiu uma nota específica sobre o reduzido escoamento do rio Mondego, revelando que acompanhava permanentemente a evolução da situação.
Na altura, a agência explicou que as condições meteorológicas das semanas anteriores tinham contribuído significativamente para a redução das disponibilidades hídricas. A APA destacou ainda que julho de 2026 foi, em Portugal continental, o julho mais seco deste século e o oitavo mais seco desde 1931, com uma precipitação média de apenas 0,8 milímetros, menos de 8% do valor normal para o mês.
A combinação entre precipitação muito reduzida, temperaturas elevadas e sucessivas ondas de calor levou, segundo a APA, a uma diminuição acentuada das disponibilidades de água e começou a produzir efeitos visíveis em zonas de menor circulação e pequenas albufeiras, com sinais de eutrofização e proliferação de algas.
Penacova está diretamente ligada à evolução do Mondego
Para Penacova, a questão tem uma importância particular. O concelho é atravessado pelo Mondego e integra um território onde o rio desempenha um papel relevante não apenas do ponto de vista ambiental, mas também turístico, paisagístico e económico.
A própria Câmara Municipal de Penacova identifica o Mondego e o Alva como elementos centrais da oferta de natureza e turismo ativo do concelho, destacando a utilização dos seus cursos de água e da albufeira da Aguieira para atividades como a pesca e outros usos recreativos. A Praia Fluvial do Reconquinho, na margem esquerda do Mondego, junto à vila de Penacova, constitui igualmente um dos espaços balneares associados ao rio.
Por isso, a evolução dos caudais e das reservas da bacia hidrográfica merece acompanhamento próximo também no território penacovense, embora os dados disponíveis não permitam afirmar que exista, neste momento, uma situação de restrição ao abastecimento público de água no concelho de Penacova.
O Município é atualmente a entidade gestora do serviço público de água e saneamento e dispõe de um sistema próprio constituído por sete captações, cinco pontos de recloragem, outras sete instalações de tratamento, nove estações elevatórias, 51 reservatórios e 293 quilómetros de rede de distribuição.
Aguieira e Raiva mostram a importância de acompanhar a bacia
Os dados da APA permitem também observar diferenças significativas dentro da própria bacia hidrográfica do Mondego.
Em 10 de setembro, a albufeira da Aguieira apresentava um volume armazenado de 65,39%, enquanto a albufeira da Raiva, também no sistema do Mondego, registava 87,76%. A albufeira de Fronhas, no rio Alva, apresentava então 32,72%.
Estes valores mostram por que razão uma média para toda a bacia não traduz necessariamente a realidade de cada albufeira, rio ou troço do sistema hidrográfico.
A APA tem, aliás, acompanhado de forma específica situações de menor escoamento no Mondego. Em agosto, anunciou descargas controladas a partir da albufeira do Caldeirão, destinadas a reforçar temporariamente os caudais, melhorar as condições de escoamento e contribuir para a recuperação das condições ambientais do rio.
Menos água também pode ter impacto na produção de eletricidade
A preocupação manifestada pela ministra não se limita ao abastecimento de água ou aos ecossistemas. Maria da Graça Carvalho relacionou a disponibilidade hídrica com a produção de eletricidade, lembrando que a energia hídrica constitui uma componente importante do sistema elétrico português.
Perante menores disponibilidades de água, a utilização da produção hidroelétrica terá de ser gerida com maior cautela, segundo a governante, podendo aumentar a necessidade de recurso a produção a gás, num contexto em que o combustível apresenta custos elevados.
A ministra garantiu que o Governo está a acompanhar a evolução das diferentes bacias e que a utilização da energia hídrica está a ser feita de forma prudente, procurando preservar o equilíbrio do sistema energético.
Sem previsão de chuva até ao final de setembro
Outro fator de preocupação é a perspetiva meteorológica. Segundo Maria da Graça Carvalho, não está prevista chuva até ao final de setembro, existindo ainda indicações de possíveis episódios extremos no início do próximo ano.
A governante defendeu, por isso, uma monitorização permanente dos recursos hídricos e reconheceu que a conjugação entre água, energia e fenómenos meteorológicos extremos exige uma atenção acrescida.
O cenário é particularmente relevante para a Região Centro e para a Região de Coimbra, onde a bacia do Mondego constitui uma infraestrutura natural essencial para diferentes usos, desde os ecossistemas e atividades agrícolas até ao abastecimento, produção energética, lazer e turismo.
Para Penacova, onde o Mondego marca profundamente a paisagem e a identidade do concelho, a evolução dos níveis de água e dos caudais será, assim, uma variável a acompanhar nos próximos meses.
