Recriação histórica decorre nos dias 26 e 27 de setembro na Mealhada, Luso e Bussaco. Penacova integra o território histórico da batalha e a estratégia turística Mondego-Bussaco.

A história da Batalha do Bussaco volta a ganhar vida já na próxima semana, com as comemorações do 216.º aniversário daquele confronto da Guerra Peninsular a reunirem cerca de 240 recriadores históricos, integrados em 17 grupos de Portugal, Irlanda, Espanha e Reino Unido. A iniciativa decorre nos dias 26 e 27 de setembro, com atividades na Mealhada, no Luso e na Mata Nacional do Bussaco, mas a memória daquele episódio histórico estende-se muito para além do local onde ocorreu a batalha, abrangendo também os atuais territórios de Mortágua e Penacova.
A programação integra-se na estratégia turística Mondego-Bussaco, que junta os Municípios da Mealhada, Mortágua e Penacova, numa valorização conjunta do património natural, histórico e cultural associado à região. A organização conta ainda com a colaboração do Grupo de Reconstituição Histórica de Condeixa e da Associação Napoleónica Portuguesa.
Dois dias para recordar a batalha de 1810
As comemorações começam no sábado, 26 de setembro, com a receção aos grupos de recriadores junto aos Paços do Concelho da Mealhada, seguindo-se uma oficina de gastronomia histórica na Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra, em Pampilhosa.
Durante a tarde e a noite, o programa desloca-se para o Luso, onde haverá desfile dos grupos de recriação histórica e a reconstituição do Combate do Bussaco, proporcionando ao público uma representação do ambiente vivido há mais de dois séculos.
No domingo, 27 de setembro, data em que se assinalam os 216 anos da batalha, terão lugar as cerimónias protocolares do Exército no terreiro do Obelisco, na Mata Nacional do Bussaco, seguindo-se a recriação do assalto da coluna do marechal Ney ao local.
A Batalha do Bussaco ocorreu a 27 de setembro de 1810, no contexto da Terceira Invasão Francesa. As forças luso-britânicas, comandadas por Arthur Wellesley, futuro Duque de Wellington, enfrentaram o exército francês dirigido pelo marechal André Masséna.
Uma batalha que também é história de Penacova

Embora a designação da batalha esteja associada à Serra do Bussaco, os acontecimentos militares de 1810 tiveram uma dimensão territorial muito mais ampla. O atual concelho de Penacova conserva vários lugares diretamente relacionados com a campanha militar e com a presença das forças anglo-lusas na região.
Entre esses locais encontra-se Santo António do Cântaro, na freguesia de Carvalho, integrado no território classificado como Campo Militar da Batalha do Buçaco, que se estende pelos concelhos de Mealhada, Mortágua e Penacova.
Também em Penacova, no lugar de Cerquedo, freguesia de Penacova, se encontra identificado o Posto de Comando de Wellington, local de onde o comandante das forças luso-britânicas terá observado as movimentações e o desenlace dos combates travados na região.
A importância de Penacova neste episódio histórico não se limita, por isso, à proximidade geográfica do Bussaco. O concelho fazia parte da geografia militar através da qual se movimentaram tropas, se estabeleceram posições de comando e se articulou a defesa perante o avanço francês.
A Região de Coimbra no caminho das tropas francesas

A Batalha do Bussaco deve ser enquadrada numa operação militar de dimensão muito mais ampla. Durante a Terceira Invasão Francesa, em 1810, o território da atual Região de Coimbra assumiu importância estratégica na progressão das forças do marechal Masséna em direção a Lisboa e na resposta das forças anglo-lusas comandadas por Wellington.
A geografia regional, marcada pelo Mondego, pelas serras e pelos principais corredores de ligação entre o interior e o litoral, condicionou a movimentação dos exércitos e a organização da defesa. O Bussaco constituiu um dos pontos decisivos desse dispositivo, mas os acontecimentos militares estenderam-se por uma área muito mais vasta.
A Comunidade Intermunicipal da Região de Coimbra desenvolveu um mapa-roteiro temático das Invasões Francesas, sob chancela da National Geographic, precisamente com o objetivo de valorizar este património histórico e dar a conhecer as marcas deixadas pelas invasões no território regional.
É nesta dimensão territorial que Penacova assume particular relevância, juntamente com Mealhada e Mortágua, permitindo compreender a Batalha do Bussaco não apenas como um confronto militar isolado, mas como parte de uma campanha que atravessou diferentes territórios da atual Região de Coimbra.
Mortágua guarda a memória da batalha e das suas consequências

A dimensão mortaguense da batalha pode ser conhecida no Centro de Interpretação “Mortágua na Batalha do Bussaco”, espaço dedicado à história do concelho durante a Terceira Invasão Francesa e às consequências da guerra para a população local.
O Centro procura explicar os caminhos percorridos pelas tropas até ao seu destino, os locais dos diferentes combates, a composição dos exércitos e o apoio logístico necessário a uma operação militar de grande dimensão. A exposição inclui armas, fardamentos, munições, esquemas, equipamentos multimédia e uma maquete que representa a armadilha preparada pelas tropas anglo-lusas para os franceses. Existe ainda um miniauditório onde é apresentado um vídeo sobre a Terceira Invasão Francesa e a passagem das tropas pelo concelho de Mortágua.
A documentação do Centro permite igualmente perceber a dimensão humana do conflito. Mortágua esteve diretamente envolvida nos acontecimentos entre 23 e 29 de setembro de 1810. Segundo a brochura interpretativa, várias povoações foram incendiadas ou parcialmente destruídas, enquanto muitas famílias abandonaram as suas casas, terras, animais e alimentos perante a passagem das tropas francesas.
Também o percurso das tropas ajuda a compreender a ligação entre Mortágua e o Bussaco. De acordo com a informação disponibilizada pelo Centro, as forças francesas chegaram à região atravessando o rio Criz, avançaram por várias povoações do concelho e instalaram-se na zona do Barril, junto de Mortágua, antes do confronto na Serra do Bussaco.
Esta perspetiva acrescenta uma dimensão importante à memória da batalha: para além das posições militares e dos combates, houve populações locais diretamente afetadas pela passagem dos exércitos e pela destruição provocada pela guerra.
Wellington passou por Lorvão antes da batalha
A presença de Wellington na atual Penacova encontra outra referência importante na antiga hospedaria do Mosteiro de Lorvão, na freguesia de Lorvão.
O património militar identificado pelo Turismo Militar regista a ligação do local às Invasões Francesas, permitindo integrar o Mosteiro de Lorvão na geografia histórica da campanha. O conjunto monástico acabou por escapar ao saque das tropas francesas, que passaram pelo alto das montanhas.
A passagem por Penacova ajuda a reconstruir os movimentos das forças anglo-lusas e a importância estratégica que este território assumiu nos dias que antecederam a batalha.
O Posto de Comando de Wellington fica também em Penacova

Outro testemunho material encontra-se em Cerquedo, na freguesia de Penacova, onde está identificado o Posto de Comando de Wellington.
Segundo o Turismo Militar, este foi o local utilizado como posto de comando no contexto da Guerra Peninsular, a partir do qual Wellington terá observado as diferentes movimentações e o desenlace dos ataques travados na região.
A existência destes vestígios reforça a necessidade de olhar para a Batalha do Bussaco numa escala territorial mais ampla. O episódio de 1810 não ficou circunscrito às encostas onde ocorreu o confronto principal: deixou marcas em diferentes pontos dos atuais concelhos de Mealhada, Mortágua e Penacova.
Uma Grande Rota liga os três territórios
Esta ligação histórica encontra hoje também uma expressão turística através da Grande Rota do Bussaco (GR49).
O percurso tem 56 quilómetros e apresenta uma configuração em estrela, com três ramais que partem de Mealhada, Mortágua e Penacova em direção à Mata Nacional do Bussaco. O troço Mealhada–Bussaco tem 12 quilómetros, o de Mortágua–Bussaco 21 quilómetros e o de Penacova–Bussaco 23 quilómetros.
No percurso proveniente de Mortágua, o visitante encontra aldeias e caminhos associados à passagem das tropas napoleónicas, enquanto o ramal de Penacova reforça a ligação do concelho à Mata Nacional do Bussaco e ao património natural e histórico da região.
A rota constitui, assim, uma forma de percorrer fisicamente uma paisagem que a História uniu há mais de dois séculos e que atualmente é valorizada como produto turístico comum.
Museu Militar ajuda a interpretar a batalha

Na Mata Nacional do Bussaco, o Museu Militar do Buçaco, situado em Almas do Encarnadouro, na freguesia de Luso, constitui outro ponto fundamental para compreender os acontecimentos de 1810.
Fundado em 27 de setembro de 1910, no primeiro centenário da batalha, o museu reúne peças relacionadas com a Guerra Peninsular e, em particular, com a Batalha do Buçaco. Entre o acervo encontra-se uma peça de artilharia de nove libras que participou na batalha, além de armamento, equipamentos, fardamentos, gravuras, figuras uniformizadas, medalhas e uma maquete que representa as posições das forças em combate.
Junto ao museu encontra-se ainda a Capela de Nossa Senhora da Vitória e Almas, que durante a batalha foi utilizada como hospital de sangue, tendo acolhido feridos dos dois exércitos.
O conjunto patrimonial inclui ainda outros locais associados às operações militares, como o Obelisco comemorativo da batalha e os antigos postos de comando relacionados com os generais Craufurd, Masséna e Wellington.
Uma história comum à Região de Coimbra
A Batalha do Bussaco constitui, deste modo, um dos episódios históricos que melhor evidenciam a relação entre diferentes territórios da atual Região de Coimbra.
Mealhada conserva o campo de batalha e a Mata Nacional do Bussaco; Mortágua guarda a memória da passagem das tropas e das consequências da guerra sobre as populações; e Penacova conserva locais associados à movimentação e ao comando das forças anglo-lusas.
Esta leitura conjunta está também na base da estratégia turística Mondego-Bussaco, que procura valorizar os três municípios através de uma oferta integrada de património, natureza, cultura e história.
Mais de dois séculos depois, a recriação histórica que regressa ao Bussaco nos dias 26 e 27 de setembro constitui uma oportunidade para recordar o confronto de 1810, mas também para olhar para a paisagem envolvente como um verdadeiro território de memória.
Para Penacova, esta é uma dimensão particularmente relevante: a história da Batalha do Bussaco também passa pelo concelho, pelas suas freguesias e localidades e pelos vestígios que ainda permitem reconstruir a presença de Wellington e das forças anglo-lusas na região.
Informação útil
Comemorações dos 216 anos da Batalha do Bussaco
26 e 27 de setembro de 2026
26 de setembro
11h00 — Paços do Concelho da Mealhada: desfile dos recriadores e hastear das bandeiras
15h00 — Restaurante Pedagógico da EPVL, Pampilhosa: oficina de gastronomia histórica
20h30 — Avenida Emídio Navarro, Luso: desfile dos grupos e reconstituição do Combate do Bussaco
27 de setembro
10h00 — Obelisco, Mata Nacional do Bussaco: cerimónias protocolares do Exército
12h00 — Obelisco: recriação do assalto da coluna do marechal Ney
O programa reúne cerca de 240 recriadores históricos, pertencentes a 17 grupos de Portugal, Irlanda, Espanha e Reino Unido.












