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Mais de 30 organizações pedem a Bruxelas que dê prioridade à natureza na futura legislação europeia de resiliência climática. Penacova já tem em curso medidas de adaptação que cruzam floresta, água, solos e prevenção de incêndios.

Mais de 30 organizações europeias pediram esta segunda-feira à Comissão Europeia que coloque as soluções baseadas na natureza no centro da futura legislação sobre resiliência climática, defendendo que florestas, rios, zonas húmidas, solos e ecossistemas devem funcionar como uma primeira linha de defesa perante ondas de calor, secas, cheias e incêndios. O apelo surge antes do discurso sobre o Estado da União, que Ursula von der Leyen fará na quarta-feira, 16 de setembro, e assume particular importância para territórios como Penacova, no distrito de Coimbra, onde a adaptação às alterações climáticas já integra as políticas municipais.

Bruxelas prepara novo quadro para a resiliência climática

A Comissão Europeia está a preparar um novo Quadro Europeu Integrado de Resiliência Climática e Gestão de Riscos, destinado a reforçar a capacidade dos Estados-membros para antecipar, prevenir e responder aos impactos cada vez mais graves das alterações climáticas.

A proposta deverá ser adotada durante o segundo semestre de 2026 e pretende estabelecer uma abordagem mais abrangente e coerente à preparação climática, envolvendo tanto os Estados como as autoridades regionais e locais.

Na consulta promovida pela Comissão Europeia, uma das principais reivindicações dos participantes foi precisamente a utilização de soluções baseadas na natureza como primeira linha de defesa, juntamente com avaliações harmonizadas dos riscos climáticos, financiamento estável para a adaptação e uma maior atenção aos impactos na saúde.

É neste contexto que mais de 30 organizações de diferentes áreas — incluindo agricultores, entidades ligadas à água, autoridades locais, profissionais de saúde, cidadãos e instituições financeiras — pedem agora a Ursula von der Leyen que essa orientação deixe de ser apenas uma recomendação política e passe a ter expressão concreta na legislação europeia.

Um verão que reforçou o alerta

O apelo surge depois de um verão marcado por temperaturas excecionais, incêndios de grandes dimensões e sucessivos episódios extremos em várias regiões europeias.

Os dados do Serviço Copernicus indicam que junho de 2026 foi o mês de junho mais quente de sempre na Europa Ocidental, enquanto o período conjunto de junho e julho foi o mais quente de que há registo para essa região. As condições prolongadamente quentes e secas favoreceram também a propagação e intensificação dos incêndios florestais.

Em Portugal, o cenário também foi particularmente exigente. O IPMA registou seis ondas de calor no primeiro semestre de 2026, num total de 59 dias em situação de onda de calor até ao início de julho. O instituto salienta ainda uma tendência para que estes episódios ocorram cada vez mais fora do período tradicional de verão.

Junho foi, em Portugal continental, o quarto junho mais quente desde 1931 e simultaneamente muito seco, com apenas 30% da precipitação normal. A onda de calor iniciada no final desse mês e prolongada até julho foi classificada pelo IPMA como um dos episódios mais relevantes registados no território continental desde 1981.

Mais de 35 mil mortes estimadas, mas número ainda provisório

Entre os argumentos utilizados pelas organizações está também o impacto das ondas de calor na mortalidade.

Estimativas divulgadas em agosto apontavam para pelo menos 35 mil mortes em excesso na Europa associadas às quatro vagas de calor consecutivas, mas o valor deve ser encarado como provisório. A estimativa abrangia apenas dados disponíveis para pouco mais de metade do continente e não incluía ainda a totalidade dos dados de agosto.

A Organização Mundial da Saúde já tinha alertado, em junho, que o calor provocou mais de 200 mil mortes na Europa e países associados ao longo dos quatro anos anteriores, considerando as ondas de calor uma crise recorrente e não acontecimentos meteorológicos excecionais.

A dimensão sanitária do problema é, por isso, uma das razões pelas quais a futura política europeia de adaptação deverá cruzar ambiente, ordenamento do território, agricultura, água, proteção civil e saúde pública.

Agricultura e solos entre as soluções defendidas

As organizações signatárias defendem que a resposta aos extremos climáticos não deve assentar exclusivamente em grandes obras de engenharia ou infraestruturas artificiais.

Entre as soluções apontadas estão a recuperação de ecossistemas, a proteção das florestas e zonas húmidas, a recuperação de rios e áreas inundáveis e práticas agrícolas capazes de melhorar a qualidade e a capacidade de retenção de água dos solos.

A agricultura biológica é apresentada como um exemplo, através de práticas como a rotação de culturas, a cobertura vegetal, a fertilização orgânica e o reforço da biodiversidade. A lógica é simples: solos mais estruturados e biologicamente ativos conseguem infiltrar e armazenar melhor a água, contribuindo simultaneamente para reduzir a erosão e aumentar a capacidade de resistência das paisagens perante períodos de seca ou precipitação intensa.

A própria Comissão Europeia considera que as soluções baseadas na natureza podem gerar simultaneamente benefícios ambientais, sociais e económicos, contribuindo para aumentar a resiliência perante as alterações climáticas.

Penacova já tem uma estratégia municipal de adaptação climática

O debate europeu tem uma tradução particularmente concreta no concelho de Penacova, território marcado pela extensa área florestal, pelos rios Mondego e Alva, pelas praias fluviais e por uma paisagem onde a gestão do solo e da floresta assume importância decisiva.

O Município de Penacova aprovou o seu Plano Municipal de Ação Climática (PMAC) em setembro de 2024, posteriormente aprovado pela Assembleia Municipal em dezembro do mesmo ano. O documento estabelece uma estratégia para a adaptação às alterações climáticas e para a redução dos seus impactos.

O próprio Município sublinha que Penacova possui uma extensa e densa mancha florestal, relevante para o sequestro de carbono, e identifica como desafio a conciliação entre desenvolvimento económico, qualidade da paisagem, recursos naturais, água, biodiversidade e resposta às emergências climáticas.

Esta estratégia ganha particular importância perante uma realidade em que o concelho está exposto simultaneamente a riscos como incêndios rurais, períodos de calor e seca, erosão e episódios de precipitação intensa e cheias.

Do Chaínho à Região de Coimbra

Um exemplo concreto de intervenção que aproxima a realidade de Penacova das soluções agora defendidas a nível europeu encontra-se no Condomínio de Aldeia do Chaínho, na freguesia de Penacova.

A iniciativa, integrada no projeto RESIST da Região de Coimbra, abrange uma área de 5,61 hectares e prevê operações silvícolas e ações destinadas a promover a alteração da paisagem. Em 2025 foram realizadas visitas ao terreno e ações de sensibilização com proprietários, tendo em vista a intervenção e a gestão futura daquele espaço.

A lógica destas intervenções é particularmente relevante num território florestal como Penacova: a gestão da vegetação e da paisagem em torno das povoações pode contribuir para reduzir a exposição ao risco de incêndio e, simultaneamente, criar territórios mais preparados para os efeitos de um clima mais quente e irregular.

Também o programa Penacova Protegida 2026 envolveu jovens do concelho em ações de preservação da natureza e das florestas, prevenção de incêndios rurais, controlo de espécies invasoras, compostagem e proteção da fauna e da flora.

Água e cheias mostram a importância da adaptação

A relação entre alterações climáticas, água e território tornou-se particularmente evidente em Penacova no início de 2026, quando tempestades e cheias provocaram danos nas margens, percursos, açudes, areais e equipamentos associados aos rios Mondego e Alva.

O Município assegurou cerca de 500 mil euros através da iniciativa “Territórios Resilientes”, destinada à recuperação das áreas afetadas e à reposição das condições de segurança nas praias fluviais e margens dos dois rios.

O episódio demonstra a dupla pressão que os territórios podem enfrentar: períodos prolongados de calor e seca alternam com fenómenos de precipitação intensa capazes de provocar cheias e danos em infraestruturas.

É precisamente perante esta combinação de riscos que as soluções baseadas na natureza ganham relevância. A recuperação de ecossistemas, a proteção das margens, a melhoria da capacidade de retenção de água dos solos e uma gestão mais integrada da paisagem podem funcionar como complemento às infraestruturas convencionais de proteção.

O que está agora em causa em Bruxelas

A Comissão Europeia já incorporou as soluções baseadas na natureza no debate sobre a futura resiliência climática. A questão colocada pelas organizações é saber se essa prioridade ficará suficientemente refletida na futura legislação e, sobretudo, no financiamento destinado à adaptação.

O objetivo defendido pelos signatários é que a natureza deixe de ser encarada apenas como um elemento ambiental e passe a ser considerada uma verdadeira infraestrutura de proteção das populações.

A discussão deverá ganhar visibilidade esta semana, quando Ursula von der Leyen apresentar, em Estrasburgo, o Estado da União de 2026. O discurso está marcado para quarta-feira, 16 de setembro, no Parlamento Europeu, e servirá para apresentar as prioridades e principais iniciativas da Comissão para o próximo ano político.

Para territórios como Penacova, onde floresta, rios, solos agrícolas, aldeias e áreas naturais estão profundamente interligados, a futura orientação europeia poderá ter consequências concretas na forma como são financiadas e planeadas as políticas de prevenção, adaptação e recuperação perante fenómenos climáticos extremos.

Mais do que uma discussão exclusivamente europeia, está em causa uma questão que já se coloca à escala local: como preparar Penacova, a Região de Coimbra e o Centro de Portugal para um clima com mais calor, maior irregularidade da precipitação e fenómenos extremos potencialmente mais frequentes?

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