A erva-das-pampas, espécie invasora cuja presença está documentada em 208 municípios de Portugal continental, está a avançar e coloca desafios crescentes à biodiversidade e à saúde pública. Na Região de Coimbra, a problemática já é acompanhada por instituições científicas e entidades públicas, tornando também relevante a vigilância no concelho de Penacova.

A cortadéria (Cortaderia selloana), conhecida como erva-das-pampas, está identificada em pelo menos 208 municípios portugueses, segundo um estudo publicado em 2025, e volta a estar no centro dos alertas de especialistas devido à sua rápida dispersão, aos impactos sobre os ecossistemas e ao potencial alergénico do pólen. O alerta foi divulgado esta segunda-feira, 7 de setembro de 2026, pela investigadora Hélia Marchante, da Escola Superior Agrária do Politécnico de Coimbra (ESAC-IPC), que defende uma intervenção mais rápida e coordenada para evitar que novos focos se transformem em populações difíceis de controlar.
Uma invasora que já não é uma ameaça futura
A dimensão do problema é revelada pelo estudo científico publicado em 2025 sobre a distribuição das plantas invasoras em Portugal continental.
A investigação identificou a Cortaderia selloana em 208 municípios, colocando-a entre as dez espécies de plantas invasoras com maior distribuição no território continental. O estudo admite ainda que o número real de municípios com ocorrências poderá ser superior.
A espécie é originária da América do Sul e caracteriza-se pelas grandes folhas e pelas inflorescências em forma de pluma, que explicam a sua utilização histórica como planta ornamental. A sua presença está hoje registada em diferentes tipos de espaços, desde bermas de estradas e terrenos abandonados a jardins, parques e margens de linhas de água.
Para Hélia Marchante, professora da ESAC e investigadora na área das invasoras, o principal problema já não é a falta de conhecimento científico, mas a dimensão e rapidez da resposta necessária.
A especialista considera que cada ano de atraso aumenta a dificuldade e os custos do controlo da espécie.
Uma espécie proibida pela legislação portuguesa
A presença da cortadéria em Portugal não constitui uma novidade nem uma situação sem enquadramento legal.
O Decreto-Lei n.º 92/2019, de 10 de julho, estabeleceu o regime jurídico nacional aplicável à prevenção e gestão das espécies exóticas invasoras e incluiu expressamente a Cortaderia selloana na Lista Nacional de Espécies Invasoras.
O enquadramento legal prevê medidas de prevenção, deteção precoce, controlo, contenção e, quando possível, erradicação das espécies abrangidas.
A legislação estabelece igualmente restrições à detenção, cultivo, comércio, transporte e utilização das espécies invasoras previstas na lista nacional.
A dimensão do problema levou ainda o legislador a incluir, na Lei n.º 45-A/2024, de 31 de dezembro, uma disposição específica determinando que, durante 2025, o Governo tomasse medidas para o controlo da Cortaderia selloana.
Como chegou a Portugal?
A Cortaderia selloana é originária da América do Sul, sobretudo da Argentina e do Chile. A espécie chegou à Europa entre os séculos XVIII e XIX, inicialmente valorizada pelas suas grandes e vistosas plumas, que a tornavam muito apreciada em jardins.
Em Portugal, a primeira ocorrência naturalizada documentada remonta a 1955, quando foi recolhido um exemplar em Gondomar, entre a Ribeira de Abade e Gramido, na margem do Douro. O exemplar foi depositado no Herbário do Porto.
Isto é importante: uma coisa é a introdução da planta pelo Homem; outra é a sua posterior naturalização. Inicialmente era cultivada deliberadamente. Mais tarde começou a escapar dos jardins e a reproduzir-se sem intervenção humana.
E por que razão se tornou invasora?
Aqui está a parte mais interessante da história.
Durante muito tempo, as plantas introduzidas na Europa eram sobretudo plantas femininas, escolhidas precisamente porque produziam as plumas mais bonitas. Sozinhas, estas plantas tinham uma capacidade reprodutiva muito limitada.
O problema mudou quando começaram a surgir plantas hermafroditas, capazes de fornecer o pólen necessário à fecundação das plantas femininas. Segundo a estratégia transnacional do projeto LIFE STOP Cortaderia, a entrada acidental de sementes que deram origem a indivíduos hermafroditas terá sido decisiva para a transformação da espécie numa invasora.
A partir daí, uma planta que tinha sido trazida para embelezar jardins passou a produzir sementes em enormes quantidades.
Uma única planta feminina pode produzir até cerca de um milhão de sementes, que são muito leves e podem ser transportadas pelo vento para grandes distâncias.
E as estradas ajudaram a espalhá-la
Há outro fator muito importante para perceber a atual distribuição da cortadéria em Portugal.
A espécie aproveita sobretudo solos perturbados, como terrenos abandonados, áreas onde houve movimentação de terras, bermas de estradas, linhas ferroviárias, zonas industriais e espaços onde a vegetação natural foi destruída.
As próprias vias de comunicação funcionam como corredores de dispersão. O vento transporta as sementes e o trânsito e as intervenções no solo podem contribuir para que novas áreas sejam colonizadas.
Há um exemplo muito próximo da realidade da Região de Coimbra: o Município de Arganil refere que a presença da cortadéria se tornou particularmente evidente junto à Zona Industrial da Relvinha, onde as movimentações de terras criaram condições favoráveis à instalação da espécie. A proximidade de uma estrada com tráfego intenso constitui outro fator de preocupação pela facilidade de dispersão das sementes.
ICNF tem plano de ação em preparação
É precisamente neste ponto que surge uma das principais críticas dos investigadores.
Segundo Hélia Marchante, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) tem praticamente concluído um plano de ação específico para o controlo da cortadéria, mas a investigadora questiona a demora na sua publicação e, sobretudo, na concretização das medidas previstas.
O próprio ICNF mantém atualmente uma área dedicada ao controlo e contenção de espécies exóticas invasoras, onde a erva-das-pampas surge identificada entre as espécies sob controlo. O instituto disponibiliza também um manual de boas práticas para o controlo da Cortaderia selloana, desenvolvido no âmbito do projeto LIFE STOP-Cortaderia.
A questão ganhou entretanto uma dimensão política e administrativa mais ampla. Em agosto de 2024, a Comunidade Intermunicipal da Região de Coimbra (CIM-RC) tinha já inscrito na sua agenda a discussão do plano de ação nacional para o controlo da erva-das-pampas e de outras espécies semelhantes em Portugal continental.
Região de Coimbra acompanha o problema
A proximidade da problemática à Região de Coimbra é particularmente relevante para Penacova.
A Escola Superior Agrária do Politécnico de Coimbra, através de Hélia Marchante e de outros investigadores, participa no projeto europeu LIFE COOP Cortaderia, dedicado à prevenção, deteção e controlo da espécie e à transferência de conhecimento científico e técnico entre diferentes regiões europeias.
O projeto inclui, entre outras áreas, a criação de redes de deteção precoce e resposta rápida e o desenvolvimento de metodologias para controlar populações de Cortaderia selloana.
Em junho de 2024, a própria ESAC acolheu em Coimbra uma reunião do LIFE COOP Cortaderia que juntou investigadores, ICNF, autarquias e outras entidades. O programa incluiu uma apresentação específica sobre as intervenções realizadas pelo Município de Coimbra na malha urbana para controlar a espécie.
Também os instrumentos de planeamento da Região Hidrográfica do Vouga, Mondego e Lis contemplam ações de controlo de espécies invasoras, incluindo a Cortaderia selloana, nomeadamente no concelho da Figueira da Foz.
O risco para a biodiversidade
A preocupação dos investigadores ultrapassa a dimensão estética da planta.
A cortadéria apresenta uma elevada capacidade de produção e dispersão de sementes. Documentação oficial publicada no Diário da República refere que cada pluma feminina pode produzir até 100 mil sementes, facilmente transportadas pelo vento. A espécie aproveita sobretudo terrenos degradados ou com o solo exposto para se instalar e pode posteriormente avançar para habitats naturais.
Quando forma populações densas, compete com a vegetação autóctone e pode alterar a composição dos habitats.
O risco é particularmente relevante em zonas onde existam corredores naturais de dispersão, como margens de rios, terrenos sujeitos a movimentações de solo, áreas florestais degradadas e corredores associados a infraestruturas rodoviárias.
Para um território como Penacova, onde o Mondego e a rede hidrográfica assumem importância ambiental, paisagística e turística, a deteção precoce de espécies invasoras constitui, por isso, uma componente importante da proteção dos ecossistemas locais.
Uma questão que também pode chegar à saúde pública
A cortadéria não é apenas uma questão de conservação da natureza.
O seu pólen apresenta potencial alergénico, e a época de floração tardia pode prolongar a exposição ao pólen para períodos do ano em que outras plantas já terminaram os seus ciclos de floração.
A documentação botânica disponível para Portugal aponta para uma floração que pode ocorrer entre setembro e outubro.
Os investigadores associados ao LIFE COOP Cortaderia têm, precisamente, vindo a estudar a relação entre a espécie, a saúde humana e os ambientes urbanos. O projeto realizou em 2026 iniciativas dedicadas à abordagem “One Health”, procurando relacionar saúde humana, ambiente e ecossistemas.
A preocupação é particularmente pertinente em áreas urbanas e periurbanas, onde a proximidade entre as plantas e as populações humanas é maior.
O que podem fazer os cidadãos?
Os especialistas defendem que os cidadãos devem desempenhar um papel ativo na deteção precoce.
A recomendação passa por não plantar nem adquirir cortadéria, evitar a sua propagação e comunicar novas ocorrências às entidades competentes.
Quem suspeite da presença da espécie num jardim, terreno ou espaço público deve, idealmente, procurar confirmar a identificação antes de proceder a qualquer intervenção. A remoção inadequada de plantas com sementes pode contribuir para a dispersão.
A aposta na deteção precoce é considerada decisiva: é muito mais simples controlar exemplares isolados ou pequenos núcleos do que eliminar populações já estabelecidas.
Penacova deve manter vigilância sobre as invasoras
A discussão nacional sobre a cortadéria coloca também uma questão diretamente aplicável ao concelho de Penacova: a prevenção é menos dispendiosa e mais eficaz do que tentar recuperar um território depois de uma espécie invasora se instalar.
Num município com uma forte componente florestal, agrícola, ribeirinha e turística, a vigilância sobre plantas invasoras deve envolver não apenas os serviços públicos, mas também proprietários, agricultores, gestores de terrenos, associações e população.
A experiência de outras zonas da Região Centro demonstra que o controlo destas espécies já exige intervenções específicas e coordenadas. Na Região de Coimbra, por exemplo, existem medidas de planeamento destinadas ao controlo de espécies invasoras em diferentes concelhos.
A mensagem deixada pelos investigadores da ESAC é, assim, sobretudo preventiva: identificar cedo, comunicar e intervir antes de a planta produzir novas sementes e criar novos focos de invasão.
