Projeto que a Câmara de Coimbra pretende candidatar ao PTRR pretende aproveitar a futura ligação entre o IP3 e a A13, a modernização do eixo Coimbra–Viseu e outros investimentos estruturantes na Região Centro.

A Câmara Municipal de Coimbra está a preparar uma candidatura ao PTRR – Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência para a criação de uma nova zona empresarial na área de Souselas, no concelho de Coimbra, com pelo menos 400 hectares, anunciou esta quinta-feira, 3 de setembro, a presidente da autarquia, Ana Abrunhosa. A iniciativa, articulada com os municípios da Mealhada e de Cantanhede, poderá reforçar a atratividade empresarial de um território diretamente relacionado com as acessibilidades de Penacova e da Região de Coimbra.
O anúncio foi feito durante a cerimónia de lançamento da primeira pedra da nova unidade industrial da SRAM, em Coimbra, investimento avaliado em 57 milhões de euros e que deverá criar mais de 500 postos de trabalho.
Souselas como novo polo empresarial regional
De acordo com Ana Abrunhosa, a área identificada em Souselas já está classificada no Plano Diretor Municipal (PDM) de Coimbra para localização empresarial.
A autarquia pretende aproveitar a posição estratégica daquele território e a evolução prevista das principais infraestruturas rodoviárias e ferroviárias da região para criar condições para a instalação de novas empresas e para a expansão de atividades económicas já existentes.
A candidatura deverá ser apresentada ainda durante setembro ao presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDR Centro) e ao Governo, segundo a informação divulgada pela autarquia.
A preparação do projeto está a ser feita em articulação com os municípios da Mealhada e de Cantanhede, tendo em consideração as ligações ferroviárias e as condições logísticas existentes na zona.
A iniciativa surge num momento em que Coimbra procura responder à procura de terrenos para instalação empresarial e reforçar a sua capacidade de captar investimento.
IP3 e ligação à A13 colocam Penacova no centro da estratégia
Para os leitores de Penacova Actual, um dos aspetos mais relevantes da proposta está na importância atribuída às acessibilidades rodoviárias.
Entre os investimentos considerados estratégicos por Ana Abrunhosa está a transformação do IP3, nomeadamente o eixo entre Souselas e Penacova, bem como a futura ligação da A13 ao IP3 em Souselas.
O enquadramento não é apenas uma intenção política: em janeiro deste ano, o Governo aprovou formalmente a solução para a duplicação e requalificação do IP3 e da A13/IC3. A resolução prevê a duplicação do IP3 entre Souselas e Penacova, a construção da variante de Penacova e a continuação da A13/IC3 entre Coimbra (Ceira) e o IP3, em Souselas.
A futura ligação A13–IP3 encontra-se atualmente em fase de estudos. A Infraestruturas de Portugal lançou o concurso para o estudo prévio, com um valor base de 800 mil euros e prazo de execução de dois anos. O objetivo é definir a solução para completar a ligação da A13 ao IP3 na zona de Souselas.
Esta infraestrutura poderá assumir particular importância para Penacova, ao reforçar a ligação do concelho e do seu território empresarial aos principais eixos rodoviários nacionais.
Penacova integrada num novo corredor Coimbra–Viseu
A estratégia anunciada em Coimbra deve ser lida também à luz do processo de transformação do IP3.
A solução aprovada pelo Governo prevê que o troço entre Souselas e Penacova seja duplicado, enquanto a zona de maior complexidade orográfica no concelho de Penacova será servida por uma nova variante de Penacova, em perfil de autoestrada.
A resolução governamental estabelece ainda a duplicação do IP3 entre a Lagoa Azul e Santa Comba Dão e a ligação A13/IC3 entre Ceira e Souselas.
A variante de Penacova já avançou para a fase de estudos prévios. A Infraestruturas de Portugal prevê um novo troço com cerca de 17 quilómetros, destinado a permitir a continuidade da duplicação do IP3 numa zona onde o atual traçado apresenta fortes limitações decorrentes da orografia.
O Município de Penacova tem acompanhado este processo, considerando a modernização do IP3 uma intervenção determinante para a segurança rodoviária, mobilidade e competitividade económica do concelho.
Uma oportunidade, mas também um desafio territorial
A criação de uma área empresarial com uma dimensão mínima de 400 hectares representa uma operação territorial de grande escala.
Para Penacova, o eventual desenvolvimento deste novo polo em Souselas poderá significar maior proximidade a um importante núcleo de concentração empresarial, mas também uma intensificação das relações económicas e logísticas entre os territórios de Coimbra, Penacova, Mealhada e Cantanhede.
A melhoria das acessibilidades poderá facilitar a circulação de mercadorias e trabalhadores, aproximando empresas instaladas em Penacova dos principais eixos nacionais.
O próprio Município de Penacova destaca atualmente a importância do IP3 e do IC6 para as ligações do concelho, que se encontra a cerca de 20 quilómetros da A1 e da A14.
Neste contexto, a concretização das intervenções previstas no IP3 e da ligação A13–IP3 poderá alterar significativamente a geografia económica da Região de Coimbra.
SRAM reforça dimensão industrial de Coimbra
O anúncio da nova zona empresarial coincidiu com o lançamento da primeira pedra da terceira unidade industrial da SRAM em Coimbra.
A nova fábrica representa um investimento de 57 milhões de euros e deverá entrar em funcionamento em meados de 2028. A empresa prevê criar mais de 500 postos de trabalho e aumentar significativamente a sua capacidade produtiva.
A escolha de Coimbra para este investimento foi também associada pela presidente da Câmara à capacidade de resposta da autarquia e à rapidez dos processos de licenciamento, fatores que, segundo a autarca, contribuíram para tornar o concelho mais competitivo face a outras localizações.
O projeto evidencia, assim, a existência de procura empresarial que a autarquia pretende aproveitar através da criação de novas áreas disponíveis para investimento.
Eiras e Pedrulha também estão no plano
A estratégia municipal para a indústria não se limita a Souselas.
Ana Abrunhosa anunciou igualmente a intenção de ampliar a Zona Industrial de Eiras, criando novas áreas para instalação e expansão de empresas.
Na Pedrulha, onde a SRAM mantém atualmente unidades industriais, a presidente da Câmara defendeu uma estratégia de revitalização da zona industrial, conjugando o regresso de atividade económica com a criação de habitação nas proximidades.
A abordagem aponta para uma tentativa de reorganizar diferentes áreas de atividade económica de Coimbra, reservando Souselas para uma expansão empresarial de grande escala.
PTRR prevê 22,6 mil milhões de euros até 2034
A candidatura de Coimbra deverá enquadrar-se no PTRR – Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência, instrumento aprovado pelo Governo em 2026.
O PTRR é distinto do PRR e foi criado na sequência dos fenómenos meteorológicos extremos que atingiram Portugal continental no início de 2026. O programa tem um horizonte de execução até 2034 e mobiliza 22,6 mil milhões de euros, combinando financiamento público nacional, fundos europeus e investimento privado.
O plano está estruturado em três grandes pilares — Recuperar, Proteger e Responder — e inclui medidas destinadas à recuperação económica, reforço da resiliência das infraestruturas e preparação do país para futuras situações de crise.
A candidatura de Coimbra terá, contudo, de ser formalmente apresentada e avaliada no âmbito dos mecanismos do programa. Não está ainda confirmado que o financiamento venha a ser aprovado, pelo que a criação da zona empresarial deve, nesta fase, ser encarada como um projeto em preparação.
O que pode significar para Penacova
A eventual concretização da zona empresarial de Souselas coloca Penacova perante uma nova realidade territorial.
O concelho poderá beneficiar da proximidade a um futuro polo empresarial de grande dimensão, sobretudo se forem concretizadas as intervenções previstas no IP3 e a ligação A13–IP3.
Para o território penacovense, a questão ultrapassa a simples melhoria das condições de circulação. A nova configuração rodoviária poderá reforçar a ligação entre Penacova, Coimbra e os restantes municípios da Região de Coimbra, tornando mais relevantes as condições existentes para acolher empresas, trabalhadores e atividades logísticas.
Ao mesmo tempo, a dimensão da operação em Souselas torna particularmente importante uma visão regional sobre ordenamento do território, mobilidade, emprego e localização empresarial, de modo a evitar uma abordagem exclusivamente municipal a uma transformação que poderá ter efeitos muito para além dos limites administrativos de Coimbra.












