Celebração mantém a tradicional sequência de missa, procissão, piquenique e arraial, num lugar de culto cuja importância está documentada desde pelo menos 1721 e que também desempenhou um papel estratégico durante a Batalha do Buçaco.

A Romaria de Nossa Senhora do Mont’Alto regressa na terça-feira, 8 de setembro de 2026, à freguesia de Penacova, mantendo uma tradição religiosa e popular com mais de três séculos de memória documentada. O programa volta a juntar a missa solene e a procissão, durante a manhã, ao piquenique e ao arraial, durante a tarde, preservando uma estrutura que atravessou gerações.
Um programa que mantém a tradição
Os festejos têm início às 9h00, com a abertura da quermesse e o arranque das celebrações.
Às 10h30, realiza-se a missa solene, seguida da procissão em honra de Nossa Senhora do Mont’Alto, com acompanhamento musical da Mini Banda de Sepins.
Depois da componente religiosa, está previsto, às 12h30, o tradicional piquenique, momento de reunião de famílias e grupos de amigos no monte.
A partir das 16h00, o arraial assume o protagonismo, com animação a cargo de Arte Viva, prolongando o convívio pela tarde.
A organização mantém, assim, uma sequência que combina a dimensão religiosa da romaria com a vertente comunitária e festiva que lhe está historicamente associada.
Um santuário de montanha com raízes antigas
A Capela de Nossa Senhora do Monte Alto situa-se num monte elevado a norte da vila de Penacova, na freguesia de Penacova. O local é apresentado pelo Município como um santuário de montanha, associado a uma história que poderá ser muito anterior à atual capela.
As referências municipais apontam para possíveis origens pré-históricas do lugar, embora a construção atualmente existente remonte ao século XVIII e conserve elementos de épocas anteriores.
Não existe, contudo, nas fontes consultadas, documentação que permita fixar com rigor o momento em que começou a devoção a Nossa Senhora do Mont’Alto. O que é possível afirmar é que, no início do século XVIII, a romaria já era considerada uma tradição antiga.
1721 documenta um “voto antiquíssimo”
Uma das principais referências históricas encontra-se nas Informações Paroquiais de 1721, documento que permite recuar a existência da romaria pelo menos até ao início do século XVIII.
O registo refere que os moradores da vila do Botão e de São João de Figueira, atualmente integrado na freguesia de Lorvão, se deslocavam anualmente em procissão à Senhora do Monte Alto, cumprindo um “voto antiquíssimo”.
As ofertas eram transportadas em tabuleiros à cabeça de jovens mulheres, numa prática que o próprio documento apresenta como uma tradição antiga.
A referência é particularmente significativa porque demonstra que, em 1721, a romaria não era uma celebração recente nem exclusivamente local. O culto atraía já populações de outras localidades, revelando a dimensão regional que o Monte Alto alcançara.
A peregrinação, o farnel e a partilha
A romaria tinha também uma forte componente comunitária. A deslocação ao Monte Alto fazia-se tradicionalmente a pé, com os participantes a transportar o cesto do farnel para a merenda.
A broa de milho e o vinho integravam essa refeição, que transformava a peregrinação num dia de convívio entre familiares, vizinhos e grupos de amigos.
É neste contexto que ganha particular significado a permanência do piquenique no programa atual. Embora tenham mudado os meios de transporte e os hábitos sociais, continua presente a ideia de permanecer no monte depois da missa e da procissão para comer e conviver.
A tradição da partilha de merendas continua, aliás, associada à romaria nas referências da Junta de Freguesia de Penacova.
Cantigas e memória popular
A história do Mont’Alto não se encontra apenas nos documentos escritos. A romaria também deixou marcas na oralidade e na cultura popular, através de quadras e cantigas transmitidas entre gerações.
Entre as composições associadas à celebração encontra-se uma dedicada à Senhora do Monte Alto, reveladora da forma como a devoção religiosa se cruzava com as manifestações culturais populares.
A música continua atualmente presente na romaria, embora os grupos e os instrumentos sejam naturalmente diferentes dos de outras épocas.
As “pedras milagrosas” e as crenças do século XVIII
As Informações Paroquiais de 1721 registam ainda uma das crenças mais curiosas associadas ao Mont’Alto.
Segundo o documento, existiriam junto ao monte pedras arredondadas semelhantes a seixos que, depois de partidas, apresentariam no interior uma pequena pedra. A essa pedra era atribuída, pela crença popular da época, uma suposta capacidade para tratar a asma, sendo procurada por pessoas vindas de diferentes pontos do reino.
O relato deve ser entendido como uma crença popular registada no século XVIII, não como uma propriedade medicinal comprovada.
Ainda assim, a referência é importante para compreender a dimensão que o Mont’Alto assumia no imaginário da época: além de lugar de culto, era também destino de peregrinação associado a crenças, práticas e tradições populares.
Um monte estratégico durante a Batalha do Buçaco
A história do Monte Alto não se limita à dimensão religiosa.
A sua posição elevada e dominante sobre a paisagem envolvente conferiu-lhe também importância militar durante a Batalha do Buçaco, travada em 1810 no contexto da Terceira Invasão Francesa.
Segundo o Município de Penacova, o monte foi ocupado pelas forças anglo-lusas, precisamente devido à sua posição estratégica.
O mesmo espaço que durante séculos recebeu romeiros tornou-se, assim, parte do dispositivo militar que procurava controlar o território e as movimentações das forças francesas.
A proximidade entre a história religiosa do santuário e os acontecimentos militares de 1810 acrescenta ao Monte Alto uma dimensão patrimonial que ultrapassa a própria romaria.
Uma das romarias mais concorridas da região
A importância do Mont’Alto ultrapassava historicamente os limites da atual freguesia de Penacova.
A documentação de 1721 comprova a presença regular de habitantes de outras localidades, enquanto referências históricas posteriores destacam o carácter regional da romaria.
Uma investigação histórica publicada pelo Penacova Online, com base na obra Coimbra e Região, de Nelson Correia Borges, publicada em 1987, identifica a romaria como uma das mais concorridas da região.
A mesma referência descreve a capela como uma construção de grande simplicidade, antecedida por um alpendre com seis colunas toscanas do século XVII e rodeada por um banco corrido destinado aos romeiros.
Estes elementos ajudam a compreender que o Mont’Alto não era apenas um local de culto para a população de Penacova, mas um ponto de atração para comunidades de uma área geográfica mais vasta.
Mais de 300 anos depois, a tradição continua
A edição de 2026 mantém os principais elementos que definiram historicamente a romaria: devoção, procissão, encontro comunitário, merenda e convívio.
A forma de chegar ao monte mudou, a música do arraial acompanhou os tempos e a organização da festa foi-se adaptando. Mas a estrutura essencial permanece reconhecível.
No dia 8 de setembro, o Mont’Alto volta, assim, a ser ponto de encontro de penacovenses e visitantes para uma celebração que junta religião, memória, cultura popular e convívio.
Mais de três séculos depois da referência documental de 1721, a Romaria de Nossa Senhora do Mont’Alto continua a fazer parte da identidade de Penacova e a manter viva uma tradição que liga diferentes gerações ao mesmo lugar.









