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Uma reportagem publicada pela CNN Portugal mostra como a lampreia-marinha se tornou uma espécie invasora nos Grandes Lagos da América do Norte. Em Penacova, a realidade é oposta: a mesma espécie é nativa do Mondego, integra a identidade gastronómica do concelho e está sujeita a medidas de conservação.

Uma lampreia-marinha sexualmente madura, identificável pela crista ao longo do dorso. A. Miehls/GLFC

Uma reportagem da CNN Portugal, publicada este domingo, 23 de agosto de 2026, aborda o impacto da lampreia-marinha (Petromyzon marinus) nos Grandes Lagos, particularmente no Michigan, onde a espécie introduzida se transformou num problema ambiental com consequências para as populações de peixes nativos. O caso ganha especial interesse para Penacova porque, no rio Mondego, a lampreia é uma espécie autóctone, considerada vulnerável em Portugal e associada a uma importante tradição gastronómica e cultural do concelho.

A mesma espécie, realidades completamente diferentes

A reportagem da CNN Portugal explica como uma espécie que faz parte dos ecossistemas do Atlântico Norte chegou aos Grandes Lagos e se transformou numa ameaça para as populações piscícolas.

A lampreia-marinha conseguiu ultrapassar a barreira natural das Cataratas do Niágara através da rede de canais construída para a navegação, alcançando progressivamente os diferentes lagos. Sem os mecanismos naturais de controlo existentes na sua área de distribuição original, encontrou condições favoráveis à expansão.

Na fase adulta, a lampreia fixa-se a outros peixes através da boca e alimenta-se dos seus fluidos corporais. A proliferação da espécie provocou fortes impactos em populações de peixes dos Grandes Lagos, levando à criação de programas específicos para controlar a sua reprodução e reduzir os seus efetivos.

Segundo o U.S. Fish and Wildlife Service, os programas de controlo permitiram reduzir significativamente as populações de lampreia-marinha na maioria das zonas dos Grandes Lagos.

No Mondego, a preocupação é preservar a espécie

O cenário no rio Mondego é precisamente o inverso.

A lampreia-marinha é uma espécie nativa dos sistemas fluviais europeus. Em Portugal, está classificada como Vulnerável, sendo afetada por fatores como a alteração dos habitats, obstáculos à migração, degradação da qualidade da água e outras pressões sobre os ecossistemas fluviais.

Documentação da Agência Portuguesa do Ambiente relativa à bacia do Mondego identifica a lampreia-marinha como uma espécie migradora anádroma e com estatuto de conservação Vulnerável.

Isto significa que, enquanto no Michigan e nos restantes Grandes Lagos a gestão procura controlar uma população invasora, no Mondego o objetivo é criar condições para a recuperação de uma espécie que pertence naturalmente ao ecossistema.

Penacova tem uma ligação histórica à lampreia

A diferença entre os dois contextos assume particular relevância no concelho de Penacova.

A lampreia está profundamente associada à gastronomia e à cultura ribeirinha local. A tradição de captura e confeção deste peixe constitui uma das referências gastronómicas do concelho e contribui para a valorização turística do território.

A relação com a espécie é também institucionalizada através da Confraria da Lampreia de Penacova, criada para promover e preservar a tradição gastronómica associada à lampreia e ao Mondego.

O rio, que atravessa o concelho e constitui um dos seus principais elementos naturais, é assim simultaneamente habitat de espécies migradoras e suporte de atividades tradicionais desenvolvidas pelas comunidades ribeirinhas.

Região de Coimbra procura reforçar a população do Mondego

A conservação da lampreia não se limita ao concelho de Penacova.

Na Região de Coimbra estão a ser desenvolvidas ações de recuperação da espécie através do projeto LIFE4LAMPREY/DALIA, que envolve entidades científicas, ambientais, municípios e outros parceiros.

Em maio de 2026, a Região Metropolitana de Coimbra anunciou uma nova ação de translocação de lampreias-marinhas no âmbito do projeto. Foram libertados 32 exemplares no Louredo Natura Parque, em Vila Nova de Poiares.

Penacova integra o conjunto de municípios envolvidos neste esforço de conservação da lampreia no sistema hidrográfico do Mondego.

As ações de translocação procuram contribuir para o reforço da população e para a recuperação da espécie em zonas a montante, criando melhores condições para a sua reprodução.

Os obstáculos à migração são uma questão central

A conservação da lampreia-marinha está diretamente relacionada com a continuidade dos rios.

A espécie nasce em ambiente fluvial, passa parte do seu ciclo de vida no rio e migra posteriormente para o mar, regressando aos cursos de água para se reproduzir. A existência de obstáculos à passagem dos peixes migradores pode, por isso, comprometer o seu ciclo de vida.

Barragens e açudes, alterações dos caudais, degradação da qualidade da água e perda de habitats adequados são alguns dos fatores que podem afetar as populações.

No Mondego, esta questão assume particular importância devido à existência de várias infraestruturas hidráulicas ao longo da bacia.

Para Penacova, a conservação da lampreia está, por isso, diretamente ligada à qualidade ambiental do Mondego e à capacidade de assegurar a continuidade ecológica do rio.

Uma espécie que é problema num continente e património noutro

A história contada pela CNN Portugal demonstra que não é possível avaliar uma espécie isoladamente do ecossistema onde se encontra.

Nos Grandes Lagos, a lampreia-marinha é uma espécie introduzida que ameaça populações piscícolas nativas e que é objeto de programas de controlo.

No Mondego, é uma espécie autóctone e vulnerável, cuja recuperação é considerada necessária para preservar a biodiversidade do sistema fluvial.

Para Penacova, esta distinção tem uma importância adicional. A lampreia representa simultaneamente património natural, tradição gastronómica e memória das comunidades ligadas ao Mondego.

O desafio passa, portanto, por encontrar um equilíbrio entre a conservação da espécie e a gestão sustentável dos recursos piscícolas, garantindo que a tradição associada à lampreia possa continuar a existir sem comprometer a recuperação das suas populações.

Reportagem e fontes

O ponto de partida desta notícia é a reportagem publicada pela CNN Portugal em 23 de agosto de 2026, intitulada “De iguaria em Portugal a problema ambiental no Michigan: como as lampreias estão a destruir os Grandes Lagos”.

A CNN Portugal é, neste caso, autora da reportagem jornalística, não do estudo científico sobre a espécie. A informação científica e ambiental relativa aos Grandes Lagos é produzida e divulgada por entidades especializadas, nomeadamente a Great Lakes Fishery Commission e o U.S. Fish and Wildlife Service.

Para o enquadramento português e regional foram consideradas informações de entidades públicas e institucionais, incluindo Agência Portuguesa do Ambiente, ICNF e Região Metropolitana de Coimbra, bem como informação relacionada com o projeto LIFE4LAMPREY/DALIA.

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