Medida deverá reforçar temporariamente os caudais do Mondego a montante da Aguieira, numa altura em que a reduzida disponibilidade de água já afeta vários concelhos da Região Centro. Em Penacova, onde o rio atravessa o concelho e sustenta atividades balneares, turísticas e de lazer, a evolução dos caudais merece particular atenção.

A Agência Portuguesa do Ambiente (APA) vai recorrer, ao longo desta semana, à água armazenada na albufeira da barragem do Caldeirão, no concelho da Guarda, para realizar descargas controladas destinadas a reforçar temporariamente o caudal do rio Mondego, numa altura em que a falta de água está a preocupar municípios situados a montante da barragem da Aguieira. A medida surge depois de vários concelhos terem alertado a APA para a redução do escoamento, associada à persistência de condições meteorológicas muito secas e quentes.
Descargas previstas para as noites de 24, 25 e 26 de agosto
Segundo informação divulgada pelo Município de Celorico da Beira, as descargas estão programadas para os dias 24, 25 e 26 de agosto, entre as 22h00 e as 05h00, estando prevista a libertação de um caudal adicional de 5 m³/s.
O objetivo é melhorar temporariamente as condições de escoamento do Mondego e assegurar o funcionamento das utilizações existentes ao longo do rio, nomeadamente o abastecimento de água às populações e o funcionamento da praia fluvial da Ponte de Juncais, no concelho de Fornos de Algodres.
A autarquia recomenda, por isso, que a população e os utilizadores do rio adotem comportamentos de precaução e não se aproximem nem permaneçam junto ao leito e às margens durante os períodos em que ocorram as descargas.
A informação disponibilizada pela APA confirma que as operações serão previamente programadas e realizadas de forma controlada, sendo acompanhadas no âmbito da monitorização dos recursos hídricos.
Situação afeta vários concelhos da Região Centro
A redução dos caudais está a ser sentida sobretudo nos concelhos de Fornos de Algodres, Celorico da Beira e Guarda, no distrito da Guarda, e em Nelas, no distrito de Viseu.
A APA atribui a situação às condições meteorológicas registadas nas últimas semanas, marcadas pela escassez de precipitação e por temperaturas elevadas.
O quadro meteorológico já vinha a revelar sinais de agravamento. O IPMA classificou junho de 2026 como muito quente e muito seco e indicou o aparecimento de seca meteorológica em várias zonas do país, incluindo áreas a sul de Coimbra.
A informação fornecida à redação refere que julho de 2026 foi o julho mais seco deste século, com apenas 0,8 mm de precipitação média. No momento da consulta, o boletim mensal de julho do IPMA não se encontrava ainda disponível nas páginas oficiais indexadas, pelo que este valor deve ser confirmado diretamente no boletim climatológico antes da publicação definitiva da notícia.
Redução da água já tem efeitos visíveis no Mondego
A escassez de água não se traduz apenas na redução dos caudais.
A APA alerta para o aparecimento de sinais de degradação da qualidade da água em zonas de menor circulação, incluindo empoçamentos e pequenas albufeiras, onde podem ocorrer fenómenos de eutrofização e proliferação de algas.
Estas condições podem afetar a qualidade da água e provocar alterações no equilíbrio dos ecossistemas aquáticos, razão pela qual a autoridade ambiental está a acompanhar simultaneamente os caudais e os parâmetros de qualidade da água.
A APA afirma ainda que continuará a fiscalizar os usos dos recursos hídricos a montante, procurando assegurar uma utilização equilibrada das disponibilidades existentes e, tanto quanto possível, repor condições adequadas aos diferentes usos do Mondego.
Penacova está a jusante da Aguieira e depende do regime do Mondego
A situação tem particular interesse para Penacova porque o rio Mondego atravessa o concelho depois da barragem da Aguieira, constituindo um dos principais elementos naturais, paisagísticos, ambientais e turísticos do território.
A própria barragem da Aguieira localiza-se nos limites dos municípios de Penacova e Mortágua, nas freguesias de Travanca do Mondego e Almaça, respetivamente. A infraestrutura integra o sistema de regularização do Mondego e desempenha funções de produção hidroelétrica, abastecimento, rega e controlo de cheias.
A gestão dos caudais a montante acaba, por isso, por ter reflexos no regime hidrológico do rio a jusante.
Em Penacova, o Mondego assume particular importância nas atividades de pesca, lazer e turismo fluvial. O município gere, inclusive, uma zona de pesca lúdica no rio Mondego e afluentes, cuja informação oficial foi atualizada em agosto de 2026.
A situação é igualmente relevante para as zonas balneares do concelho. As praias fluviais do Reconquinho, na freguesia de Penacova, e do Vimieiro, na freguesia de São Pedro de Alva, estão associadas aos rios Mondego e Alva, respetivamente. O município assinalou este ano a atribuição da Bandeira Azul ao Reconquinho e ao Vimieiro e destacou também a qualidade da água e as condições da praia fluvial do Cornicovo.
Depois das cheias, agora a preocupação é a escassez
A situação atual contrasta fortemente com o cenário vivido no início de 2026, quando a bacia do Mondego foi afetada por episódios de precipitação intensa, cheias e níveis elevados nas principais infraestruturas hidráulicas.
Em fevereiro, a barragem da Aguieira chegou a ultrapassar os 99% de armazenamento, num período em que o sistema do Mondego esteve sob forte pressão devido às elevadas afluências e aos caudais registados em Coimbra.
Em Penacova, as tempestades e cheias provocaram danos significativos nas margens do Mondego e do Alva e nas infraestruturas associadas às praias fluviais. O município obteve posteriormente cerca de 500 mil euros para intervenções de recuperação desses danos, incluindo percursos, margens, açudes, areais e equipamentos.
A mudança, em poucos meses, de uma situação de excesso de água para um quadro de escassez evidencia a forte variabilidade hidrológica da bacia do Mondego e a importância da gestão integrada dos seus recursos hídricos.
APA mantém monitorização e admite novas medidas
A autoridade ambiental garante que continuará a acompanhar permanentemente a evolução dos caudais e da qualidade da água.
A monitorização deverá igualmente abranger os diferentes usos do recurso, procurando compatibilizar o abastecimento das populações, os restantes consumos autorizados e a preservação dos ecossistemas.
A APA não exclui a adoção de novas medidas caso a situação hidrológica e meteorológica se agrave.
Para os municípios atravessados pelo Mondego, incluindo Penacova, a evolução das próximas semanas será particularmente importante, sobretudo perante a persistência de temperaturas elevadas e a ausência de precipitação significativa.
As descargas do Caldeirão constituem, neste contexto, uma medida temporária para reforçar o escoamento e não uma solução estrutural para a escassez de água na bacia hidrográfica.












