Há infâncias que se medem pelos saltos dados. Outras, pelos saltos evitados. À beira do rio, entre a coragem dos mais ousados e o silêncio de quem observa, aprende-se cedo que a prudência nem sempre é medo. Este poema, o VIII de Daniel Gomes Alves, fala desse instante em que não saltar também é uma escolha — talvez a mais difícil — e de como a água guarda, em cada corrente, lições que só o tempo consegue traduzir.

VIII
O salto que não dei

Os meus primos saltavam da pedra.
Eu ficava a olhar.
A corrente é para quem não sabe nadar.

Eu sabia nadar.
Mas sabia outra coisa também:
Mas o rio não perdoa
confiança a mais.

Um primo saltava sempre.
O mais corajoso.
O mais louco.

Hoje, vejo os miúdos a saltar.
Não digo nada.
O aviso já lá está:
escrito na água que passa
e nunca volta.

 

Daniel Gomes Alves

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