No sétimo poema desta sequência, Daniel Gomes Alves detém-se num dos lugares mais afetivos da memória penacovense: a praia fluvial. Mais do que uma paisagem de verão, o autor transforma o Alva num espaço de infância, de família e de pertença.

VII
A praia fluvial
O Mondego também descansa.
Em Penacova, aprendeu a ser praia.
Os miúdos saltam dos rochedos
como se o tempo não contasse.
As mães espalham toalhas
e vigiam de óculos escuros.
A água é fria. Sempre foi fria.
Nunca ninguém se queixou.
No Verão, o rio é manso.
Até se esquecem as cheias.
Até os pescadores dormem a sesta.
A praia fluvial de Penacova não é praia.
Não tem mar, não tem ondas, não tem sal.
Mas para quem cresceu ali,
é melhor que qualquer praia do Algarve.
Lembro-me dos domingos de agosto.
Cheiro a bronzeador.
Garrafas de Sumol abertas com os dentes.
Saltos da ponte para os mais corajosos.
Eu nunca saltei.
Tinha medo da corrente.
Daniel Gomes Alves nasceu em Coimbra e cresceu em Paredes, entre os rios Alva e Mondego. Geógrafo de afetos e investigador, cruza o rigor da gestão, proteção civil, logística e resiliência urbana com a subtileza das letras. Define-se como um colecionador de gentes que vê a História como um corpo vivo; na escrita funde o olhar analítico do gestor com o coração telúrico do poeta. A sua obra explora lugares e memórias, procurando nas pedras e nas águas o caminho de regresso às raízes.












