Infraestruturas de Portugal registou mais de 140 acidentes com ungulados em 2025. Especialistas alertam para o crescimento das populações de javali e para os impactos na segurança rodoviária e na agricultura

As colisões rodoviárias envolvendo javalis, veados e outros ungulados aumentaram de forma significativa nas estradas sob gestão da Infraestruturas de Portugal (IP), tendo ultrapassado os 140 incidentes em 2025, segundo dados apresentados num seminário realizado na Lousã. O crescimento destes acidentes está a preocupar investigadores, gestores de infraestruturas e autarcas, sobretudo em distritos como Coimbra e Viseu, apontados como zonas críticas.

O tema foi debatido no seminário “Impacto – rumo à mitigação dos impactos dos ungulados silvestres em Portugal”, que reuniu especialistas do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), da Infraestruturas de Portugal e de centros de investigação.

Javali é a espécie mais envolvida nos acidentes

De acordo com os dados divulgados pela bióloga Graça Garcia, da Infraestruturas de Portugal, o número de colisões rodoviárias tem aumentado de forma contínua ao longo da última década e meia.

Em 2015 tinham sido registados menos de 20 acidentes. Em 2025, o número subiu para mais de 140 ocorrências. Desde 2010, foram contabilizadas 856 colisões nas estradas da IP, sendo a maioria provocada por javalis (762).

Os dados resultam de um acompanhamento contínuo realizado pela empresa gestora da rede rodoviária nacional.

Coimbra e Viseu identificados como territórios críticos

Durante o seminário, o investigador Carlos Fonseca, ligado ao projeto “Impacto”, afirmou que o crescimento das populações de ungulados tem levado a um aumento anual das colisões, com destaque para regiões onde o problema se tornou mais evidente.

Segundo o especialista, Coimbra e Viseu surgem entre os territórios onde se verifica maior pressão destas espécies sobre as estradas e os sistemas agrícolas.

Carlos Fonseca alertou ainda que muitos acidentes rodoviários associados a ungulados podem não estar totalmente identificados por espécie, o que dificulta a avaliação rigorosa do fenómeno.

Mais javalis, mais risco nas estradas

A bióloga Yolanda Vaz explicou que o aumento dos acidentes está relacionado com vários fatores:

  • expansão territorial das populações de javali;
  • aumento da abundância da espécie;
  • maior disponibilidade de alimento;
  • crescimento da informação e do registo de ocorrências.

A investigadora sublinhou, contudo, que o número real de acidentes poderá ser superior ao contabilizado pela Infraestruturas de Portugal, uma vez que existem ocorrências em estradas que não integram a rede sob gestão da empresa.

Projeto quer definir medidas de mitigação

O projeto “Impacto”, encomendado pelo Governo e operacionalizado pelo ICNF, pretende criar uma base científica para acompanhar a evolução das populações de ungulados e desenvolver estratégias de mitigação.

Entre os objetivos estão:

  • melhorar o conhecimento sobre a distribuição das espécies;
  • identificar zonas de maior risco;
  • testar medidas de redução de colisões rodoviárias;
  • avaliar os impactos na agricultura e nos ecossistemas.

O trabalho científico está a ser desenvolvido pelo Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM) da Universidade de Aveiro.

Pressão crescente sobre a agricultura

Além da segurança rodoviária, o javali está a provocar prejuízos significativos na agricultura. No painel dedicado ao equilíbrio entre turismo, conservação e produção agrícola, o presidente da Câmara da Lousã, Vítor Carvalho, defendeu a necessidade de encontrar soluções que conciliem a valorização da fauna selvagem com a proteção das explorações agrícolas familiares.

Já o secretário de Estado das Florestas, Rui Ladeira, manifestou preocupação com a redução do número de caçadores ativos, considerando que estes podem desempenhar um papel importante no controlo das populações de ungulados.

O governante referiu ainda que os prejuízos provocados pelos javalis na agricultura ascendem a mais de oito milhões de euros por ano, apenas no setor da cultura do milho.

Aviso de apoio às explorações afetadas

Segundo a informação apresentada no seminário, o Governo prevê lançar no próximo trimestre um aviso de candidaturas para apoiar e proteger culturas agrícolas afetadas por javalis e outros ungulados.

As medidas deverão incluir instrumentos de prevenção e mitigação, procurando reduzir os danos económicos nas explorações mais expostas.

Penacova também deve acompanhar a evolução do fenómeno

Embora o seminário não tenha apresentado dados específicos para o concelho de Penacova, o aumento das populações de javali em vários territórios do distrito de Coimbra torna o tema relevante para o concelho, especialmente em zonas florestais, agrícolas e junto a vias rodoviárias com atravessamento de áreas de mato e pinhal.

A evolução do fenómeno poderá justificar um acompanhamento mais próximo por parte das entidades locais, das associações agrícolas e das autoridades de proteção civil e segurança rodoviária.

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