No sexto poema da série de Daniel Gomes Alves, a poesia encontra um refúgio entre estantes, páginas e memórias. “Livraria do Mondego” é uma sentida homenagem a um dos espaços mais emblemáticos de Penacova para os amantes dos livros, onde a literatura parece ganhar vida e o tempo abranda ao ritmo da leitura.

VI
Livraria do Mondego
Na margem quieta do Mondego antigo,
há uma porta que range como um verso,
e abre-se devagar, sem pressa,
como se o tempo ali aprendesse a ler.
Lá dentro, o mundo cabe em estantes,
em lombadas cansadas de tantas mãos,
e cada livro é um rio contido
a correr em silêncio entre páginas.
Cheira a papel, a chuva e a memória,
a histórias que alguém esqueceu de contar,
e outras que ainda esperam leitor
para nascerem outra vez no olhar.
Há poetas escondidos nas sombras das prateleiras,
romancistas a dormir entre capas gastas,
e crianças que descobrem que o infinito
pode caber num livro aberto ao acaso.
Do lado de fora, o Mondego segue,
indiferente e eterno na sua corrente,
mas aqui dentro ele para um instante
para ouvir o rumor da linguagem.
E quando saio, levo comigo
um pouco de tinta nas mãos e no peito,
como se a livraria me tivesse escrito
e eu fosse agora mais página do que gente.
Daniel Gomes Alves nasceu em Coimbra e cresceu em Paredes, entre os rios Alva e Mondego. Geógrafo de afetos e investigador, cruza o rigor da gestão, proteção civil, logística e resiliência urbana com a subtileza das letras. Define-se como um colecionador de gentes que vê a História como um corpo vivo; na escrita funde o olhar analítico do gestor com o coração telúrico do poeta. A sua obra explora lugares e memórias, procurando nas pedras e nas águas o caminho de regresso às raízes












