Na quinta publicação desta série de poemas de Daniel Gomes Alves, a memória regressa ao lugar onde tudo começou. Em “Paredes”, o autor conduz o leitor até à aldeia que marcou a sua infância, no concelho de Penacova, onde as paisagens, o rio Alva, a serra e as recordações familiares permanecem intactos, apesar da distância e da passagem dos anos.

V Paredes

Nasci em Coimbra,
mas Paredes é minha.
Vivi lá até aos dezasseis.
Depois vim para Lisboa.
Paredes ficou à espera.

Não sei se ainda me espera.
Sei que eu ainda a espero.
Lembro o cheiro a terra molhada,
o rio Alva, a pesca com o meu avô,
o silêncio quando o vento parava,
como se o mundo soubesse ouvir.

Lembro as tardes de verão,
o sol nas paredes de pedra,
o calor a subir do chão,
e o tempo lento, sem pressa de ir.
Subia à serra e via tudo pequeno:
as casas, as ruas, o destino,
e o rio a brilhar lá em baixo,
como um fio de caminho divino.

Depois vim para Lisboa.
A cidade é grande, não espera ninguém.
Paredes é pequena, mas fica.
Fica em mim também.

Às vezes, quando o ruído aperta,
fecho os olhos e volto outra vez:
estou na margem do Alva,
o meu avô mostra-me uma boga,
o rio corre — eu não.
O tempo não corre.
Paredes espera.

 


Daniel Gomes Alves nasceu em Coimbra e cresceu em Paredes, entre os rios Alva e Mondego. Geógrafo de afetos e investigador, cruza o rigor da gestão, proteção civil, logística e resiliência urbana com a subtileza das letras. Define-se como um colecionador de gentes que vê a História como um corpo vivo; na escrita funde o olhar analítico do gestor com o coração telúrico do poeta. A sua obra explora lugares e memórias, procurando nas pedras e nas águas o caminho de regresso às raízes

Publicidade
Artigo anteriorPenacova exige ao Governo garantias para concluir escola e recuperar praias fluviais
Próximo artigoPenacova homenageia antigos autarcas e reclama respostas do Governo

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui