Chegamos ao quarto momento desta viagem poética de Daniel Gomes Alves, uma sequência de textos onde a natureza, a memória e a identidade se entrelaçam numa homenagem às raízes da região do Mondego. Em “Oliveira do Mondego II”, a oliveira assume a voz de quem atravessou séculos e testemunhou vidas, transformando-se num símbolo de resistência, pertença e continuidade. Entre a força da terra e a passagem do tempo, o poema recorda que há árvores que são muito mais do que árvores: são guardiãs da memória de um povo.

IV
Oliveira do Mondego II
Não me perguntes quem sou, pergunta-me quem vi.
Vi o teu trisavô sentar-se na minha raiz,
contando moedas que o tempo, entretanto, comeu.
Vi mulheres com lenços de nó, lavadas de giz,
jurarem amores debaixo do meu manto que arrefeceu.
O meu azeite é o sangue da terra, paciência líquida,
ouro que corre devagar para temperar a saudade.
Sou Oliveira do Mondego, alma verde e lívida,
que ignora os relógios e abraça a eternidade.
Quando mordes o fruto amargo, mordes a minha história,
o sol de agosto que guardei nas fibras da madeira.
Sou a tua árvore genealógica, arca da memória,
esperando o teu regresso na curva da ribeira.
Não temas o inverno, que o meu cerne não se abate,
tenho o mapa dos teus passos gravados em cada nó.
Sou o punho que resiste, enquanto o teu peito bate,
e a sombra que te acolhe, quando a carne se faz pó.
Daniel Gomes Alves nasceu em Coimbra e cresceu em Paredes, entre os rios Alva e Mondego. Geógrafo de afetos e investigador, cruza o rigor da gestão, proteção civil, logística e resiliência urbana com a subtileza das letras. Define-se como um colecionador de gentes que vê a História como um corpo vivo; na escrita funde o olhar analítico do gestor com o coração telúrico do poeta. A sua obra explora lugares e memórias, procurando nas pedras e nas águas o caminho de regresso às raízes.








