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O arquiteto português Nuno Sampaio alerta que Portugal terá de redesenhar o espaço público e adaptar os edifícios às alterações climáticas, um desafio que também interpela concelhos como Penacova.

Nuno Sampaio, diretor executivo da Casa da Arquitectura – Cortesia de Casa da Arquitectura

As cidades portuguesas terão de mudar profundamente nas próximas décadas para responder ao aumento das temperaturas, às chuvas intensas e aos fenómenos meteorológicos extremos. O alerta foi deixado pelo arquiteto Nuno Sampaio, curador da XIV Bienal Ibero-Americana de Arquitetura e Urbanismo, que decorrerá em novembro, em Brasília, defendendo uma transformação da forma como são projetadas ruas, edifícios e espaços públicos. As reflexões ganham particular relevância para territórios do interior como Penacova, onde as ondas de calor, os incêndios rurais e os episódios de precipitação intensa têm vindo a aumentar os desafios da adaptação climática.

Árvores, sombra e ruas preparadas para um novo clima

Depois de participar no Congresso Mundial dos Arquitetos, realizado entre 28 de junho e 2 de julho, em Barcelona, dedicado ao tema “Arquiteturas para um Planeta em Transição”, Nuno Sampaio defende que a plantação de árvores em larga escala deve tornar-se uma prioridade das cidades.

Segundo o arquiteto, a arborização urbana não serve apenas para embelezar o espaço público. As árvores reduzem significativamente a temperatura das ruas, proporcionam sombra aos peões e diminuem o aquecimento das fachadas dos edifícios, reduzindo também a necessidade de climatização artificial.

Barcelona foi apontada como exemplo desta estratégia, depois de ter reforçado significativamente a sua cobertura arbórea ao longo dos últimos anos, integrando soluções que conciliam mobilidade, conforto térmico e sustentabilidade.

Penacova também enfrenta o desafio da adaptação

Embora o alerta tenha um alcance nacional, a realidade é facilmente reconhecida em Penacova. O concelho possui uma extensa área florestal, zonas urbanas implantadas em encostas e uma forte ligação ao rio Mondego e aos seus afluentes, características que exigem soluções equilibradas entre conservação ambiental e segurança das populações.

A criação de zonas de sombra, a preservação da vegetação autóctone e a melhoria da drenagem urbana surgem hoje como medidas cada vez mais relevantes para aumentar a resiliência do território.

Especialistas alertam igualmente para o risco crescente das chamadas “ilhas de calor” nos centros urbanos, fenómeno que poderá afetar localidades de menor dimensão sempre que predominem pavimentos impermeáveis e exista escassez de árvores.

Chuvas intensas exigem cidades mais permeáveis

A preocupação não se limita às temperaturas elevadas.

Nuno Sampaio lembra que Portugal enfrenta também episódios de precipitação cada vez mais intensa, capazes de provocar inundações repentinas e enxurradas.

Grande parte das ruas continua excessivamente impermeabilizada, dificultando a infiltração da água no solo e aumentando o risco de cheias rápidas.

O arquiteto defende que futuras intervenções urbanísticas deverão privilegiar pavimentos permeáveis, jardins de proximidade, zonas verdes e sistemas naturais de drenagem capazes de absorver parte da precipitação antes de esta sobrecarregar as redes pluviais.

Edifícios terão de responder a uma nova realidade

Outra das mudanças defendidas passa pela própria arquitetura dos edifícios.

Nuno Sampaio considera que muitos imóveis portugueses, sobretudo os construídos entre as décadas de 1960 e 1980, não estão preparados para enfrentar períodos prolongados de calor extremo.

A instalação de elementos de proteção solar, como palas e quebra-sóis, a utilização de coberturas ajardinadas, a criação de espaços exteriores utilizáveis e uma melhor eficiência energética são algumas das soluções apontadas.

O arquiteto entende igualmente que as comunidades energéticas locais e a produção descentralizada de energia terão um papel crescente na adaptação das cidades às alterações climáticas.

Debate internacional olha para o futuro das cidades

Estas questões estarão entre os principais temas da XIV Bienal Ibero-Americana de Arquitetura e Urbanismo, que decorrerá em Brasília sob o lema “Cuidar la Vida”.

A iniciativa reunirá arquitetos, urbanistas e investigadores de vários países ibero-americanos para discutir quatro grandes desafios contemporâneos: habitação, água, vegetação e comunidades, procurando apresentar soluções para cidades mais resilientes e adaptadas às novas condições climáticas.

Num território como Penacova, onde a qualidade ambiental constitui um dos principais ativos do concelho, muitas destas reflexões poderão ganhar expressão prática nos próximos anos, quer através da requalificação do espaço público, quer na conceção de novos equipamentos e habitações preparados para um clima em rápida transformação.

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