No terceiro momento desta série poética, Daniel Gomes Alves volta o olhar para uma das imagens mais emblemáticas da paisagem mediterrânica: a oliveira. Em “Oliveira do Mondego I”, o autor transforma esta árvore milenar num símbolo de sabedoria, resistência e continuidade, evocando a ligação profunda entre a terra, o rio Mondego e as gerações que moldaram este território. A oliveira, presença marcante na paisagem de Oliveira do Mondego e de muitas outras localidades do concelho de Penacova, torna-se aqui muito mais do que um elemento natural: é guardiã da memória coletiva e testemunha silenciosa da passagem do tempo. Com a delicadeza e a profundidade que caracterizam a sua escrita, o poeta convida o leitor a escutar a voz das raízes, lembrando que a identidade de um povo também se escreve na permanência das árvores, nos ciclos da natureza e nas histórias que atravessam os séculos.

III
Oliveira do Mondego I
A oliveira tem uma paciência que nos envergonha.
Enraizada no silêncio das quintas, conhece as estações
como quem sabe a contagem dos próprios ossos.
Foi plantada por mãos que já não se contam,
por dedos que lembravam do pão e do inverno, do nome dos poucos filhos.
Ao redor, as pedras alinham‑se como testemunhas.
Quando o vento passa, fala em dialetos que reconheço
palavras curtas, rijas, que sacodem as folhas como sabedoria.
Guardam‑se as conversas num anel de sombra à volta do tronco:
casamentos, contas, birras de verão, promessas de retorno.
Há uma claridade antiga na sombra da oliveira,
uma luz que envelhece devagar e não se ofende.
Se fecho os olhos, vejo as colheitas: sacos, risos, mãos enluvadas de terra.
E penso que somos todos ramos, prontos a cair ou a dar fruto,
e que, enquanto houver quem resista ao frio, a oliveira permanece
e os nomes dos que partiram ainda soam entre as folhas.
Daniel Gomes Alves nasceu em Coimbra e cresceu em Paredes, entre os rios Alva e Mondego. Geógrafo de afetos e investigador, cruza o rigor da gestão, proteção civil, logística e resiliência urbana com a subtileza das letras. Define-se como um colecionador de gentes que vê a História como um corpo vivo; na escrita funde o olhar analítico do gestor com o coração telúrico do poeta. A sua obra explora lugares e memórias, procurando nas pedras e nas águas o caminho de regresso às raízes



