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Maria João Amorim, do Centro de Investigação Biomédica da Universidade Católica Portuguesa, lidera projeto inovador financiado pelo Conselho Europeu de Investigação que pretende criar tratamentos capazes de travar a replicação do vírus da gripe através de um mecanismo inédito.

A investigadora Maria João Amorim, do Centro de Investigação Biomédica (CBR) da Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa, recebeu uma bolsa “Proof of Concept” (PoC) do Conselho Europeu de Investigação (ERC) para desenvolver o projeto LOFlu_TREAT, uma iniciativa que visa criar uma nova geração de antivirais contra o vírus da gripe A. O financiamento, anunciado este ano, permitirá à equipa avançar durante os próximos 18 meses com uma tecnologia inovadora que pretende reduzir a resistência aos medicamentos e abrir novas perspetivas no combate a epidemias e potenciais pandemias futuras.

Nova abordagem poderá transformar o combate à gripe

O vírus da gripe A continua a representar um dos maiores desafios globais de saúde pública. Segundo dados internacionalmente reconhecidos pelas autoridades de saúde, as epidemias sazonais provocam anualmente entre três e cinco milhões de casos graves e podem causar até 650 mil mortes em todo o mundo.

Além do impacto sazonal, este vírus possui um elevado potencial pandémico. Desde o início do século XX esteve na origem de quatro pandemias, demonstrando a necessidade contínua de desenvolver novas estratégias terapêuticas eficazes.

É neste contexto que surge o projeto LOFlu_TREAT. Ao contrário da maioria dos antivirais atualmente disponíveis, que atuam sobre enzimas virais e que podem perder eficácia devido ao aparecimento de mutações, a estratégia desenvolvida pela equipa da Universidade Católica Portuguesa pretende atuar sobre propriedades físicas de estruturas essenciais do vírus.

Segundo Maria João Amorim, esta abordagem representa uma mudança de paradigma no desenvolvimento de medicamentos antivirais, ao procurar bloquear diretamente mecanismos estruturais necessários à replicação viral.

Resultados anteriores abriram caminho ao novo financiamento

O projeto agora financiado resulta dos avanços científicos alcançados no âmbito do ERC Consolidator Grant LOFlu, anteriormente atribuído à investigadora portuguesa.

Os trabalhos desenvolvidos nessa fase permitiram demonstrar, pela primeira vez, que o endurecimento de determinadas estruturas virais consegue impedir a infeção provocada pelo vírus da gripe em células e em modelos animais.

Com base nesses resultados, a equipa pretende agora transformar o conhecimento fundamental obtido em soluções com potencial clínico e comercial.

A bolsa “Proof of Concept” do ERC destina-se precisamente a apoiar investigadores que já beneficiaram de financiamentos europeus de excelência e que procuram aproximar descobertas científicas inovadoras da aplicação prática e da transferência tecnológica.

Reduzir a resistência aos medicamentos

Um dos principais objetivos do LOFlu_TREAT passa por ultrapassar uma das limitações mais importantes dos antivirais atuais: a capacidade dos vírus desenvolverem resistência aos tratamentos.

Para responder a esse desafio, os investigadores estão a desenvolver moléculas designadas por “vRNP-clips”, concebidas para atuar sobre diferentes alvos estruturais do vírus.

A utilização combinada destas moléculas poderá dificultar significativamente a adaptação do agente infeccioso e o aparecimento de variantes resistentes.

De acordo com a equipa científica, esta estratégia poderá permitir tratamentos mais duradouros e eficazes, reduzindo a necessidade de desenvolver constantemente novas terapias para acompanhar a evolução genética dos vírus.

Potencial de aplicação a outras doenças infecciosas

Embora o foco inicial esteja centrado na gripe A, os investigadores acreditam que o impacto da descoberta poderá estender-se muito para além desta doença.

O Centro de Investigação Biomédica da Universidade Católica Portuguesa identificou estruturas semelhantes noutros agentes patogénicos de elevada relevância médica, incluindo os vírus responsáveis pela doença por vírus Ébola, pela raiva, pela infeção por VIH e pelo vírus sincicial respiratório.

Caso a tecnologia demonstre eficácia nas fases seguintes de desenvolvimento, poderá abrir caminho a uma nova plataforma terapêutica aplicável a diversas doenças infecciosas que continuam a representar desafios significativos para os sistemas de saúde em todo o mundo.

Ciência portuguesa reforça presença na investigação europeia

A atribuição desta bolsa europeia representa também um reconhecimento da qualidade da investigação biomédica desenvolvida em Portugal e do crescente papel das instituições científicas nacionais nos programas competitivos financiados pela União Europeia.

Com um financiamento de 150 mil euros e duração prevista de 18 meses, o projeto LOFlu_TREAT pretende avançar a tecnologia até uma fase de validação pré-clínica, aproximando-a de futuros ensaios em humanos e de uma eventual aplicação terapêutica.

Além do desenvolvimento de novos tratamentos, a investigação contribuirá para aprofundar o conhecimento sobre os mecanismos de replicação viral, os condensados biomoleculares e novas abordagens para a descoberta de medicamentos, reforçando a ligação entre ciência fundamental e inovação em saúde.

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