A plataforma Invasoras.pt lançou uma campanha nacional de ciência-cidadã para mapear a presença do “Trichi”, um pequeno inseto utilizado no controlo biológico da acácia-de-espigas, uma das plantas invasoras mais problemáticas em Portugal.

Conforme já havia sido noticiado em abril de 2025, estudos científicos confirmaram a segurança ecológica da utilização de um agente de controlo biológico — a vespa australiana Trichilogaster acaciaelongifoliae — introduzida em Portugal para combater a acácia-de-espigas. A investigação, desenvolvida por equipas da Universidade de Coimbra, concluiu que o inseto atua de forma altamente específica sobre a planta invasora, não sendo detetados efeitos adversos relevantes em espécies nativas ou nos ecossistemas analisados, reforçando a base científica que sustenta a fase atual de monitorização no terreno.

Ciência e cidadãos unidos no controlo de espécies invasoras

Agora, plataforma Invasoras.pt, que reúne investigadores da Universidade de Coimbra e da Escola Superior Agrária de Coimbra, lançou uma campanha nacional de ciência-cidadã para monitorizar a presença do inseto “Trichi” em Portugal. A iniciativa, divulgada esta semana, convida cidadãos, escolas, associações e técnicos municipais a registar observações da ação deste agente de controlo biológico sobre a acácia-de-espigas, uma espécie invasora amplamente disseminada no território nacional. O objetivo é compreender melhor a dispersão do inseto e avaliar a sua eficácia na redução da capacidade invasora da planta, através da recolha colaborativa de dados em todo o país.

Cientistas procuram “mais olhos no terreno”

Segundo a investigadora Elizabete Marchante, o inseto já se encontra presente em várias regiões, mas continua a ser necessário aumentar significativamente o número de observações para conhecer a verdadeira dimensão da sua expansão.

“Sabemos que o agente está espalhado por muitas zonas, mas precisamos de muito mais olhos no terreno para perceber onde está, onde ainda não chegou e que efeito está a ter na acácia-de-espigas”, refere a especialista.

A campanha pretende mobilizar a sociedade para um processo científico de grande relevância ambiental, permitindo aos investigadores recolher informação que seria difícil obter apenas através do trabalho de campo das equipas científicas.

O que é o “Trichi” e porque é importante?

O “Trichi” é o nome comum utilizado para designar um pequeno inseto originário da Austrália, introduzido em Portugal em 2015 no âmbito de um programa de controlo biológico da acácia-de-espigas (Acacia longifolia).

Este organismo desenvolve-se nas gemas florais da planta invasora, provocando a formação de galhas — estruturas deformadas que substituem flores e impedem a produção de sementes. Ao reduzir drasticamente a capacidade reprodutiva da acácia, o inseto contribui para limitar a sua expansão sem recurso a produtos químicos.

O projeto português é considerado uma das experiências de controlo biológico de plantas invasoras mais relevantes atualmente em curso na Europa.

Uma invasora que ameaça ecossistemas e biodiversidade

A acácia-de-espigas é reconhecida como uma das espécies exóticas invasoras mais problemáticas dos ecossistemas portugueses, sobretudo em zonas costeiras, mas também em diversas áreas do interior.

A planta forma povoamentos densos, altera as características do solo, compete com a vegetação nativa e reduz a biodiversidade local. Uma das razões para o seu sucesso invasor é a enorme produção de sementes, que podem permanecer viáveis no solo durante vários anos, originando novas invasões mesmo após ações de controlo.

Em várias regiões do Centro do país, incluindo áreas dos distritos de Coimbra e Aveiro, as acácias têm sido alvo de programas de erradicação e gestão ambiental promovidos por municípios, associações e entidades de conservação da natureza.

Como participar na campanha

Os participantes são convidados a observar exemplares de acácia-de-espigas e procurar a presença de galhas nos ramos da planta. Após a observação, devem fotografar os sinais encontrados e registar a ocorrência.

Os dados podem ser submetidos através da aplicação móvel Epicollect5 ou da plataforma BioDiversity4All/iNaturalist.

Os investigadores sublinham que mesmo a ausência de galhas constitui informação valiosa para o estudo da dispersão do inseto e da eficácia do programa de controlo biológico.

A campanha dirige-se a cidadãos interessados pela natureza, estudantes, escolas, voluntários ambientais, associações, investigadores e técnicos ligados à gestão do território.

Relevância para o território de Penacova

O concelho de Penacova possui vastas áreas florestais e zonas naturais onde várias espécies invasoras representam desafios para a conservação dos ecossistemas e para a gestão sustentável da paisagem.

A participação dos cidadãos em iniciativas de ciência-cidadã como esta poderá contribuir para um conhecimento mais detalhado da distribuição das espécies invasoras e dos mecanismos de controlo em curso, reforçando a colaboração entre comunidade científica, entidades públicas e população local.

A monitorização contínua assume particular importância num contexto em que a preservação da biodiversidade e a adaptação dos territórios às alterações ambientais se tornaram prioridades estratégicas a nível nacional e europeu.

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