Depois de “O Mondego na palma da mão”, Daniel Gomes Alves prossegue esta viagem poética pelas paisagens interiores e pela memória afetiva. Se o primeiro poema encontrava no rio o símbolo da identidade e da continuidade, “A casa do silêncio” leva o leitor até um lugar onde as paredes, os objetos e as ausências conservam as marcas de quem por ali passou. Neste segundo momento da série, a casa transforma-se num espaço de recordação e contemplação, onde o silêncio não representa vazio, mas antes a presença discreta das histórias, dos gestos e das vidas que o tempo nunca conseguiu apagar. Com uma escrita sensível e profundamente imagética, o autor volta a celebrar a ligação entre o ser humano, a memória e o território, convidando o leitor a escutar aquilo que apenas o silêncio consegue dizer.

II
A casa do silêncio
Há uma casa no cimo da memória,
erguida de pedra, musgo e claridade.
As suas paredes guardam a história
de quem viveu com pão e dignidade.
A porta range como voz antiga,
contando segredos que ninguém ouviu;
cada janela, discreta amiga,
vigia os caminhos que o tempo abriu.
No velho lume ainda arde a ausência,
embora o fogo se tenha apagado;
permanece no ar uma presença,
um eco doce do tempo passado.
Ali, os meus avós semearam dias,
entre colheitas, silêncios e canções;
encheram a casa de pequenas alegrias
e de humildes, mas eternas, tradições.
O relógio parou, mas não a memória;
ela percorre cada corredor vazio.
Há fotografias suspensas na história
e vozes que regressam com o frio.
Quando regresso, detenho-me à entrada
e escuto o silêncio daquela habitação.
Porque sei que a casa nunca foi abandonada:
vive inteira, escondida no meu coração.
A Casa do Silêncio não é apenas lugar,
nem somente pedra antiga esquecida;
é o nome que dou ao verbo regressar,
é a raiz mais funda da minha vida.
Daniel Gomes Alves nasceu em Coimbra e cresceu em Paredes, entre os rios Alva e Mondego. Geógrafo de afetos e investigador, cruza o rigor da gestão, proteção civil, logística e resiliência urbana com a subtileza das letras. Define-se como um colecionador de gentes que vê a História como um corpo vivo; na escrita funde o olhar analítico do gestor com o coração telúrico do poeta. A sua obra explora lugares e memórias, procurando nas pedras e nas águas o caminho de regresso às raízes.








