O Penacova Actual inicia uma nova rubrica dedicada à poesia contemporânea, abrindo espaço à criação literária de autores que encontram no território, na memória e nas pessoas a matéria-prima da sua escrita. Estreiamo-nos com Daniel Gomes Alves, autor que faz da palavra um lugar de encontro entre a geografia física e a geografia dos afetos. Em “O Mondego na palma da mão”, primeiro poema desta série, o rio surge como fio condutor de uma viagem pela identidade de Penacova, onde a paisagem, a história e a memória coletiva se fundem numa linguagem rica em imagens e simbolismo. É um convite à contemplação e ao reencontro com um território que continua a inspirar quem o vive e quem o escreve.

I
O Mondego na palma da mão

O rio dobra-se como uma palavra antiga
entre as pedras. Guarda nomes que ninguém mais chama,
pequenas lápides de água onde pousam os guarda-rios.
Há quem diga que o Mondego sabe os segredos das janelas
eu aprendi a ouvi‑lo pela encosta,
quando a tarde desfia o seu fio de luz sobre os socalcos.

As barcas passam como páginas viradas,
cada remada um pedaço de silêncio devolvido à margem.
Na curva, um velho lança a rede e recolhe memórias
peixes que brilham como moedas gastas,
um brilho pobre e honesto, suficiente para a fome do dia.

Penacova aparece então, recortada em ossos de calcário,
um bocado de céu que se agarrou à terra.
E eu fico com a mão aberta, como se pudesse segurar
toda essa corrente até que não haja mais correntes,
apenas este espelho que me responde com o rosto das árvores.

 


 

Daniel Gomes Alves nasceu em Coimbra e cresceu em Paredes, entre os rios Alva e Mondego. Geógrafo de afetos e investigador, cruza o rigor da gestão, proteção civil, logística e resiliência urbana com a subtileza das letras. Define-se como um colecionador de gentes que vê a História como um corpo vivo; na escrita funde o olhar analítico do gestor com o coração telúrico do poeta. A sua obra explora lugares e memórias, procurando nas pedras e nas águas o caminho de regresso às raízes.

 

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2 COMENTÁRIOS

  1. “O MONDEGO NA PALMA DA MÃO”

    Lindo poema e que nos diz tudo e que nos “aconselha” a visitar/revisitar o Mondego onde ele circula “entre as paredes”.

    • Muito obrigado pelo comentário, Álvaro. Fico muito contente por ter sentido essa ligação. O Mondego, especialmente aqui em Penacova, tem uma mística única ‘entre as paredes’ do vale que tentei honrar com estas palavras. Espero que o poema inspire muitos a voltarem a contemplar a nossa paisagem. Um abraço

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