Luís Reis Torgal
Tenho para mim que quando se fala em regionalização pouco se diz sobre a verdadeira Regionalização. Além de uma institucionalização administrativa por regiões (sobre a qual nunca ninguém se entendeu, mantendo-se, todavia, na mente de todos nós a ideia, periodicamente corrigida, de “províncias”), não se trata de ir às terras do interior ou do litoral — de qualquer modo fora da linha das grandes capitais referenciadas todos os dias ou, mesmo sem o serem, lá estão no centro de tudo — fazer programas ou escrever artigos, normalmente realçando o que há de mais “pitoresco ” ou de mais “folclórico”, ou mesmo relatando notícias úteis sobre o que por lá se passa, mas sim de tornar essas terras verdadeiros motores de construção e de afirmação de Desenvolvimento e de Cultura, como, de resto, lá se vai tentando fazer. Por isso entendo que, por exemplo, não se admite que as delegações da RTP das cidades de “Província” hoje se reduzam a simples ecos do que acontece no centro ou no interior, continuando sem vida própria, o que fez parte de um projecto que surgiu noutros tempos e que se desejou ser ainda mais dinâmico depois do 25 de Abril, quando verdadeiros profissionais de jornalismo as quiseram tornar mais vivas. Há já muitos anos encontrei na Guarda José Barata Feyo, que fazia parte activa desse plano e com quem tive uma conversa interessantíssima. E afinal esse foi também o projecto do curso de Jornalismo quando foi criado em Coimbra e onde Mário Mesquita e José Manuel Nobre-Correia tiveram um papel singular, sem, todavia, conseguirem levar a efeito esses objectivos.
Os programas de televisão aí estão para mostrar essa falsa regionalização, quando se vai à “Província” como se fosse — perdoem a imagem irónica que costumo utilizar — visitar um “jardim botânico” ou um “jardim zoológico” e ver o que ali acontece de “noticioso” ou de “cultural”, muitas vezes de uma forma popular ou “popularucha”, muito na moda entre os partidos de extrema direita à procura de votos. Há, no entanto, excepções que convém sempre destacar, tais como programas como “Visita Guiada”, de Paula Moura Pinheiro, e até outros de sentido mais trivial que não caem, todavia, no ridículo. Até estações televisivas dão provas disso, como sucede em muitos casos no “Porto Canal”, por exemplo com os programas de Joel Cleto, ou na novíssima estação “Conta Lá”.
Mas é de um programa desta última estação que venho falar, evocando o conceito de Cultura. Esta não se pode confundir com erudição, até porque a Cultura é mais uma vontade de saber e de interrogar-se sobre o conhecimento do que uma forma de tudo saber e dizer. Cabem nela o turismo (quando bem entendido e não como simples produtor económico), o desporto (é nas aldeias que se encontra o verdadeiro espírito desportivo, que se perdeu com o “desporto” entendido como espectáculo e indústria, onde os jogadores se “vendem” e “compram”), os museus mas também dinâmicos e originais projectos industriais, comerciais e agrícolas, as personagens populares e os seus ditados e canções (o cante é louvavelmente considerado “Património Imaterial da Humanidade”), o artesanato (recorde-se o significado que a UNESCO concedeu aos bonecos de Estremoz), mas também as artes de variada espécie e a história do quotidiano e de grandes figuras ou lugares ligados à vida do país ou que a ultrapassam… Enfim, os limites da cultura quase não existem, desde que tudo seja encarado com reflexão crítica e entendido como expressão da vontade e do pensamento dos povos ou dos indivíduos.
Falava de um programa do canal “Conta lá”, sobre o concelho de Penacova, que tive a paciência e, até certo ponto, o gosto de ver, durante mais de três horas, integrado numa série referente ao percurso da EN2, hoje na moda, mas com o interesse de uma via que percorre o país de norte a sul, de Chaves a Faro. Estiveram presentes muitos convidados, desde o Presidente da Câmara que reclamou justamente sobre o estado das estradas que circundam e partem de Penacova, até ao maratonista que tem percorrido a Nacional 2, passando pelo empresário das Caldas de Penacova, que pôs o nome da pequena vila nas mesas de cafés, de restaurantes e das casas de cada um, assim como o fizeram os fabricantes dos doces conventuais. E ainda quero realçar a presença do arquitecto que tornou possível mostrar ao país, em toda a sua dignidade, a “jóia da coroa”, o mosteiro de Lorvão, estudado academicamente por um meu colega historiador da Universidade de Coimbra e depois de um significativo, mas polémico, trabalho de recuperação e extensão arquitectónica e museológica, além de se ter recordado a sua existência ao viajante que passa pela A1 ou pelo malfadado IP3. De resto, Penacova suscitou um interesse particular desde que o turismo a descobriu no início do século XX por acção da Sociedade de Propaganda de Portugal e que durante muito tempo quase a esqueceu.
Não falei de nomes propositadamente, pois não é isso que está em causa, mas sim o significado da sua presença, que passou pela figura popular e conhecida da tremoceira que canta as canções populares da terra, até à jovem e simpática guia do museu de Lorvão ou à paliteira que, além de palitos (símbolo da cultura artesanal de Lorvão e sustento de famílias ao longo de tempos de miséria), faz verdadeiras esculturas com a madeira, não do loureiro (de onde deriva o nome da vila monástica, como de outras terras do país, como Loures ou Lourinhã), mas do salgueiro, ou o regente do coro polifónico, chamado Divo Canto, que é, com o órgão de Lorvão, uma das manifestações artísticas mais belas que ouvimos periodicamente em concertos. Também não está em causa quem e porque se guardaram no silêncio certas figuras históricas de Penacova, que têm sido estudadas documentalmente em livros e sítios (prefiro esse nome ao anglicismo site), mas sim o próprio silêncio.
Talvez se tenha referido Vitorino Nemésio, que adorava os moinhos e a que foi dado o seu nome a um na serra do Carvalho, onde existe, na Portela da Oliveira, um pequeno mas digno museu, de que foi alma a figura esquecida (talvez pelo seu fim trágico) do humilde Senhor Abílio, e, de passagem, o arquitecto Raul Lino, o criador da pérgola de onde se avista o vale profundo do Mondego… Mas esqueceram-se completamente António José de Almeida (a não ser em rápidas fotografias do seu busto), um dos mais importantes políticos e Presidentes da República Portuguesa, natural de Vale da Vinha (São Pedro de Alva), cuja casa foi comprada pelo Município há anos e ali permanece sem vida; José Barbosa Santos Leite, que fez o primeiro voo militar em 17 de Julho de 1916, a partir da então base de Vila Nova da Rainha (onde se ergueu um monumento, inaugurado em 2016, ano do Centenário), natural de Telhado; o pintor e mestre Martins da Costa, que deu o nome à chamada Casa das Artes e onde tem um memorial, mas de que se espera há muito tempo alguns dos seus quadros para dar a conhecer a sua interessante obra; Augusto Simões de Castro, autor do Guia Histórico do Viajante no Buçaco, lembrado no “Penedo do Castro”, de que se avista uma das mais belas paisagens da Beira; Emídio da Silva, da Sociedade de Propaganda de Portugal, nome de um outro Mirante sobre o Mondego…. E se quiséssemos passar das personagens a locais até hoje nunca aproveitados, recordaríamos a oficina do ferrador, em Figueira de Lorvão, caso único de sobrevivência, que contém ou continha todos os instrumentos de uma das figuras mais importantes há alguns anos, como tratador de bois, cavalo ou burros, sem os quais não se trabalhava no campo ou nos moinhos, nem ninguém se podia deslocar com o mínimo de comodidade (não foi por acaso que a revista JN História dedicou grande parte do seu último número ao cavalo).
É como se a História fosse uma memória do Passado morto, a que não vale a pena voltar, e não a “ciência dos homens no tempo”, como lhe chamou Marc Bloch (que a procurou revolucionar e que em breve será em França o primeiro historiador a entrar no Pantheon).
Enfim, é com mágoa que assistimos, uma vez mais e um pouco, à cultura como uma “passagem de modelos” e não a uma afirmação crítica com vida, que também recolhe no Passado uma afirmação no Presente. Voltando a Bloch, medievalista, teórico da História e que se interrogou sobre a rápida e estranha queda da França às mãos das tropas de Hitler, recordo outra sua afirmação, contra o “presentismo”, que não é só de agora e já existia no seu tempo (ele que foi em 1944 uma das vítimas do “presente nazi”): “Aquele que queira ater-se ao presente, ao actual, não compreenderá o actual”.
Professor catedrático aposentado da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Luís Reis Torgal foi fundador do Centro de Estudos Interdisciplinares da Universidade de Coimbra – CEIS20. É Sócio Honorário da Academia Portuguesa da História. Foi professor convidado de várias universidades, escolas superiores e instituições de cultura e é doutor honoris causa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tem-se dedicado a diversos temas desde o século XVII ao século XX, especialmente no âmbito da História Política e das Ideias, da História da Universidade, da História da História e da Teoria da História. Recebeu vários prémios, tendo-lhe sido concedida, em 2009, a medalha de Mérito do Município de Penacova e em 2016, a medalha de Mérito em Ciência pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.











