Investigação internacional apresentada em Chicago trouxe resultados considerados transformadores para dois dos cancros mais difíceis de tratar, reforçando a esperança de milhares de doentes em todo o mundo.

Investigadores de vários países apresentaram entre 29 de maio e 2 de junho, em Chicago, nos Estados Unidos, durante a reunião anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO), dois dos resultados mais promissores dos últimos anos na área da oncologia: uma nova estratégia terapêutica para os cancros da cabeça e pescoço, cuja investigação contou com participação portuguesa, e um medicamento oral experimental que quase duplicou a sobrevivência de doentes com cancro metastático do pâncreas. Os estudos destacaram-se pela melhoria significativa dos resultados clínicos, redução de efeitos adversos e potencial para alterar os atuais padrões de tratamento.
Comprimido experimental quase duplica sobrevivência no cancro do pâncreas
O avanço que mais atenção reuniu na conferência foi a apresentação dos resultados do ensaio clínico internacional RASolute 302, que avaliou o medicamento experimental daraxonrasib em doentes com adenocarcinoma ductal pancreático metastático previamente tratados.
Os resultados revelaram uma sobrevivência global mediana de 13,2 meses nos doentes tratados com o novo fármaco, comparativamente a 6,7 meses nos que receberam quimioterapia convencional. O risco de morte foi reduzido em cerca de 60%, um resultado considerado sem precedentes para esta fase da doença.
O estudo envolveu 500 participantes da América do Norte, Europa e Ásia e demonstrou igualmente melhorias na sobrevivência livre de progressão da doença e nas taxas de resposta tumoral. Além disso, os efeitos adversos graves foram menos frequentes do que os observados com os tratamentos convencionais.
Especialistas presentes na ASCO classificaram os resultados como uma potencial mudança de paradigma para um dos tumores mais agressivos e letais da oncologia moderna. O cancro do pâncreas continua a apresentar taxas de sobrevivência muito reduzidas, sobretudo quando diagnosticado em fase metastática.
Participação portuguesa em investigação sobre cancros da cabeça e pescoço
Outro dos destaques da reunião científica incidiu sobre novas abordagens imunoterapêuticas para os cancros da cabeça e pescoço, uma área onde Portugal tem vindo a reforçar a sua participação em ensaios clínicos internacionais.
Os investigadores apresentaram resultados que demonstram melhorias significativas na sobrevivência e no controlo da doença através da combinação de imunoterapia com terapêuticas de baixa toxicidade, permitindo reduzir o impacto dos tratamentos convencionais sem comprometer a eficácia clínica.
A relevância deste avanço é particularmente importante para tumores frequentemente associados ao consumo de tabaco, álcool ou infeções por vírus do papiloma humano (HPV), que continuam a representar um importante problema de saúde pública em vários países europeus, incluindo Portugal.
Especialistas sublinham que a evolução da imunoterapia está a permitir tratamentos cada vez mais personalizados, direcionados para as características biológicas específicas de cada tumor e de cada doente.
Conferência reforça papel da inovação na luta contra o cancro
A edição de 2026 da ASCO ficou marcada pela apresentação de vários estudos considerados capazes de alterar a prática clínica nos próximos anos.
Para além dos resultados obtidos no cancro do pâncreas e nos tumores da cabeça e pescoço, a comunidade científica destacou avanços em áreas como o cancro da mama, pulmão, rim e doenças hematológicas, reforçando o impacto crescente da medicina de precisão e das terapias dirigidas.
Os especialistas consideram que os dados agora divulgados demonstram uma mudança de ciclo na oncologia moderna, com novas abordagens terapêuticas a conseguirem prolongar a vida dos doentes e melhorar simultaneamente a sua qualidade de vida.
Num contexto em que o cancro continua a ser uma das principais causas de morte em Portugal e no mundo, os resultados apresentados em Chicago representam um sinal de esperança para milhares de doentes e famílias que aguardam alternativas mais eficazes aos tratamentos atualmente disponíveis.


