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Escavações arqueológicas no antigo campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, permitiram localizar a “Frigideira”, uma cela de castigo destruída pelo regime do Estado Novo após a Segunda Guerra Mundial. A descoberta reforça os testemunhos deixados por presos políticos portugueses e integra a candidatura do espaço a Património Mundial da UNESCO.

Numa lápide evocativa erguida no interior do campo estão inscritos os nomes de 36 pessoas que ali morreram: 32 portugueses, dois guineenses e dois angolanos – Nuno Veiga/LUS

O antigo campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, voltou ao centro da memória histórica lusófona após uma equipa de arqueólogos cabo-verdianos e portugueses localizar os vestígios da chamada “Frigideira”, estrutura de tortura usada pela ditadura portuguesa para castigar presos políticos. A descoberta foi anunciada esta semana durante trabalhos arqueológicos realizados no exterior do atual Museu da Resistência, no âmbito da candidatura do local a Património Mundial da UNESCO.

A intervenção arqueológica decorre junto ao antigo campo, situado na ilha de Santiago, e permitiu identificar fundações em pedra correspondentes à cela de castigo descrita por vários antigos prisioneiros do regime salazarista. Segundo os investigadores, os testemunhos escritos deixados por presos políticos foram fundamentais para encontrar a estrutura quase 90 anos depois da sua construção.

Testemunhos dos presos ajudaram a localizar estrutura

O arqueólogo e professor da Universidade Nova de Lisboa André Teixeira explicou que as descrições deixadas por antigos detidos permitiram orientar os trabalhos de limpeza e escavação no terreno.

A “Frigideira” era uma caixa de betão exposta ao sol intenso do Tarrafal, concebida para agravar o sofrimento dos prisioneiros. De acordo com as escavações iniciais, o espaço teria cerca de sete metros por 3,5 metros, dimensões compatíveis com os relatos históricos. Em determinados períodos, chegaram ali a permanecer cerca de 20 presos, sujeitos a castigos severos, muitas vezes apenas com pão e água.

Entre os testemunhos utilizados pela equipa destacam-se os de Pedro Soares, autor da obra Tarrafal, Campo da Morte Lenta, e de Cândido Oliveira, antigo selecionador nacional de futebol português, também encarcerado naquele campo durante o Estado Novo.

Estrutura terá sido destruída para ocultar abusos

Segundo os investigadores, a “Frigideira” terá sido demolida após a Segunda Guerra Mundial, numa altura em que o regime português procurava eliminar vestígios associados à repressão política e às violações dos direitos humanos.

Ao longo das décadas, a localização exata perdeu-se, sobretudo devido à construção de novas estruturas na área envolvente. Ainda assim, a memória do espaço manteve-se viva nos relatos dos presos das diferentes fases de funcionamento do campo.

A presidente do Instituto do Património Cultural (IPC) de Cabo Verde, Ana Samira Baessa, sublinhou que a “Frigideira” permaneceu como um dos maiores símbolos de tortura associados ao sistema repressivo do Tarrafal.

Descoberta reforça candidatura a Património Mundial

A descoberta levou o ministro da Cultura e das Indústrias Criativas de Cabo Verde, Augusto Veiga, a deslocar-se ao local das escavações, considerando tratar-se de um momento “histórico” para a reposição da verdade sobre o funcionamento do campo.

Os novos achados arqueológicos deverão agora ser integrados no percurso expositivo do Museu da Resistência, através da atualização de painéis informativos e conteúdos históricos.

Segundo o IPC, a candidatura do antigo campo do Tarrafal a Património Mundial da UNESCO procura destacar a relação entre sofrimento, resistência política, liberdade e defesa dos direitos humanos.

O “Campo da Morte Lenta”

O campo de concentração do Tarrafal foi criado em 1936 pela ditadura portuguesa e funcionou em duas fases distintas: entre 1936 e 1954, recebendo sobretudo opositores portugueses ao regime, e entre 1961 e 1974, durante as guerras coloniais, acolhendo nacionalistas africanos oriundos das então colónias portuguesas.

Ao longo do seu funcionamento, mais de 500 pessoas passaram pelo conhecido “Campo da Morte Lenta”. No interior do antigo complexo existe atualmente uma lápide evocativa com os nomes de 36 mortos: 32 portugueses, dois guineenses e dois angolanos.

A redescoberta da “Frigideira” surge como um importante contributo para a preservação da memória histórica e para o aprofundamento do conhecimento sobre os mecanismos repressivos utilizados pela ditadura portuguesa.

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