Nova série da RTP recupera um dos casos criminais mais marcantes da história portuguesa, enquanto Penacova acolhe também uma produção cinematográfica centrada na mesma figura histórica.

Leonor Teles / DR

A realizadora Leonor Teles concluiu esta semana, em Odivelas, a rodagem do episódio que marca a sua estreia na ficção para televisão. Integrado na série Psicopatas Portugueses, o projeto deverá estrear-se na RTP em 2027 e parte da figura histórica de Luiza de Jesus, última mulher executada em Portugal, para construir uma narrativa ambientada em 2099. A nova adaptação cruza memória histórica, crítica social e ficção distópica, recuperando um caso ligado à região de Coimbra e que volta agora a ganhar expressão também em Penacova.

Um dos casos mais sombrios da história criminal portuguesa

O episódio centra-se em Luiza de Jesus (1748-1772), associada ao homicídio de 33 bebés abandonados na roda dos expostos da Santa Casa da Misericórdia de Coimbra. A figura ficou inscrita na história judicial portuguesa como a última mulher condenada à morte e executada no país.

Em vez de reconstituir os factos em moldes históricos, Leonor Teles opta por deslocar a ação para o final do século XXI. A personagem surge como uma jovem estafeta, interpretada por Joana Ribeiro, inserida numa sociedade marcada por desigualdade social, precariedade e crescente isolamento humano.

Segundo a realizadora, a intenção não foi explorar apenas a dimensão criminal do caso, mas antes procurar compreender que circunstâncias sociais, económicas e humanas podem conduzir a trajetórias de violência extrema.

Um retrato de 2099 para falar do presente

Atriz Joana Ribeiro – Foto DR

A narrativa decorre em 2099 e aborda temas como fertilidade, exclusão social e divisão entre grupos com acesso privilegiado a melhores condições de vida e uma população mais vulnerável.

Joana Ribeiro sublinha que a proposta não pretende reproduzir documentalmente os crimes do século XVIII. O objetivo passa antes por utilizar a história como instrumento de reflexão contemporânea.

A atriz considera que existem paralelos entre o Portugal de 1772 — marcado por pobreza estrutural, fragilidade social e desigualdade de género — e um futuro imaginado onde persistem clivagens profundas. Essa ponte temporal funciona, assim, como um alerta sobre as consequências da exclusão e da fragmentação comunitária.

Leonor Teles entra num novo formato

Reconhecida internacionalmente pelo Urso de Ouro atribuído à curta-metragem Balada de Um Batráquio, Leonor Teles entra agora num território inédito da sua carreira.

Depois das longas-metragens Terra Franca e Baan, a realizadora enfrenta pela primeira vez o formato seriado e a direção de atores profissionais em contexto televisivo. A mudança representa também uma nova exigência de produção, com maior disciplina logística e menor margem para improvisação do que no cinema de autor.

Quatro episódios, quatro casos criminais portugueses

Produzida pela Promenade Films, Psicopatas Portugueses é uma coprodução entre Portugal e Luxemburgo, inspirada nos livros de Joana Amaral Dias.

A série será composta por quatro episódios independentes, realizados por Leonor Teles, Justin Amorim, Ana Correia e pela dupla Marco Leão e André Santos.

Além de Joana Ribeiro, o elenco principal integra Duarte Gomes, Albano Jerónimo e Elmano Sancho. Participam ainda Sandra Faleiro, São José Correia, André Leitão, João Vicente, Leonor Silveira, João Lagarto, Vítor Silva Costa, Jani Zhao, Ângelo Rodrigues e Tomás Taborda.

As filmagens decorrem até meados de junho. Cada episódio tem um orçamento próximo dos 300 mil euros e envolve cerca de 50 atores, além de uma equipa alargada de argumentistas e técnicos.

Penacova acolheu rodagem de longa-metragem sobre Luiza de Jesus

A revisitação contemporânea desta figura histórica não se limita à série televisiva agora concluída por Leonor Teles.

Entre 25 de março e 10 de abril, o concelho de Penacova recebeu a rodagem da longa-metragem O Meu Nome é Luiza de Jesus, realizada por Frederico Serra, numa produção luso-espanhola que também parte do caso de Luiza de Jesus.

As filmagens decorreram em vários locais emblemáticos do concelho, entre os quais o Mosteiro do Lorvão, o Vimieiro e a zona ribeirinha do Mondego, reforçando a ligação do território à memória histórica da personagem.

A produção envolveu também a comunidade local, com participação de figurantes, associações e cidadãos de Penacova. Na ocasião, o Município destacou o impacto positivo deste tipo de iniciativas na valorização patrimonial, dinamização económica e projeção externa do concelho.

Uma figura histórica que volta ao centro do debate cultural

A coincidência temporal entre a série da RTP e a rodagem cinematográfica em Penacova mostra como a figura de Luiza de Jesus regressou ao centro do debate cultural português.

Mais de dois séculos após os acontecimentos de 1772, a personagem continua a suscitar novas leituras históricas, sociais e artísticas. Para Penacova e para a região de Coimbra, esta renovada atenção representa também uma oportunidade de valorização territorial através do cinema, da televisão e da memória histórica.

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