O decano dos fotógrafos portugueses foi homenageado na Casa Municipal da Cultura de Coimbra. Em 2013, doou parte do seu espólio ao Município de Penacova, num gesto que ligou para sempre o seu nome ao concelho ribeirinho.

Fotógrafo foi homenageado aos 101 anos por amigos e admiradores do seu trabalho – Foto Diário de Coimbra

Foi uma tarde de segunda-feira marcada pela emoção e pelo reconhecimento público. Eduardo Francisco Varela Pècurto – que sempre fez questão de acentuar o nome com o acento para trás – celebrou 101 anos de vida numa homenagem promovida pelo Clube da Comunicação Social de Coimbra (CCSC) e pela Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra, na Casa Municipal da Cultura da cidade.

O evento, que teve início pelas 17:30, juntou dezenas de amigos, admiradores e figuras da cultura regional para celebrar uma carreira que se estende por mais de oito décadas. Entre discursos, canções e a apresentação do livro “Inventor de Esquecimentos” – biografia romanceada da autoria de António Canteiro, recentemente premiada pela Sociedade Portuguesa de Autores –, o nome de Penacova foi evocado com especial significado.

A doação a Penacova em 2013

A 21 de julho de 2013, integrada nas Festas do Município, Varela Pècurto tomou uma decisão que ligaria para sempre o seu nome ao concelho ribeirinho: doou parte do seu espólio fotográfico à Câmara Municipal de Penacova. O gesto foi entendido como um reconhecimento do fotógrafo à região que tantas vezes percorreu com a sua máquina.

O acervo doado inclui imagens captadas em Penacova ao longo de várias décadas, retratando paisagens, gentes, festas populares e o quotidiano às margens do Mondego. Na altura da doação, o Presidente da Câmara de Penacova classificou o espólio como “um tesouro para a memória coletiva do concelho”, destacando a sensibilidade de Varela Pècurto para fixar a identidade local.

Esta doação insere-se num gesto mais amplo do fotógrafo: ao longo da sua vida, Varela Pècurto ofereceu o seu espólio a pelo menos 21 câmaras municipais, oferecendo a cada uma as imagens captadas no seu território. Para além de Penacova, Coimbra, Évora, Figueira da Foz e Mealhada são outros concelhos que beneficiaram desta generosidade.

Um livro inteiramente dedicado a Penacova

A ligação de Varela Pècurto ao concelho não se ficou pela doação. Em 1984, o fotógrafo publicou um livro intitulado Penacova, editado pela sua própria casa Hilda, no qual reuniu um conjunto significativo de imagens do concelho. A obra constitui um documento visual único sobre a vila e as suas gentes na década de 80 do século XX.

Este trabalho junta-se a outras publicações do fotógrafo sobre a região, como “Coimbra Vista por Miguel Torga” (INATEL, 1991), e livros dedicados a Cantanhede, Ervedal (sua terra natal) e Lousã, além de coleções de postais de Coimbra, Évora, Fátima, Figueira da Foz, Porto e do Convento do Louriçal.

A aprendizagem em Évora e a chegada a Coimbra

A história de Varela Pècurto começou em Ervedal, concelho de Avis, a 27 de abril de 1925. Ainda em criança, a família mudou-se para Évora, onde frequentou o Liceu Nacional André de Gouveia e, mais tarde, o Instituto Comercial de Lisboa. Regressou a Évora para trabalhar na Fotografia Nazareth, do fotógrafo David de Freitas, onde fez uma primeira aprendizagem de dois anos, seguindo-se uma colaboração com Eduardo Nogueira.

Em 1949, concorreu ao Salão de Fotografia promovido pelo Grupo Câmara – Grupo de Amadores de Fotografia de Coimbra, com quatro imagens. Esta participação valeu-lhe um convite da Livraria Atlântida Editora para dirigir a sua recém-criada Secção Fotográfica. Casou com Gláucia Farracho em Évora, na véspera de Natal de 1948, e no início de 1950 mudou-se para Coimbra, com 24 anos.

Foi na Livraria Atlântida que privou com alguns dos maiores nomes da literatura portuguesa do século XX: Miguel Torga, Afonso Duarte, José Gomes Ferreira, Fernando Namora e Carlos de Oliveira.

O Grupo Câmara e a casa Hilda

Cerca de três anos após a chegada a Coimbra, Varela Pècurto criou, com mais três sócios, a sociedade “Ilda e Companhia Lda”, que abriu no Largo da Portagem a casa de fotografia “Hilda”. Alguns anos depois, com a saída dos restantes sócios, tornou-se único sócio-gerente, mantendo-se à frente do espaço durante cerca de 50 anos.

Paralelamente, integrou o Grupo Câmara (sócio n.º 147), tornando-se rapidamente um dos seus principais impulsionadores. Integrou a direção como secretário a partir de 1953 e foi redator do Boletim do Grupo Câmara. Teve um papel fundamental na oficialização do boletim mensal em 1951, que passou a ser composto e impresso na Tipografia Atlântida, beneficiando da ligação de Pècurto à livraria.

Uma carreira de reconhecimento internacional

Varela Pècurto participou em inúmeros salões nacionais e internacionais de arte fotográfica, nos quais foi galardoado com mais de cinquenta prémios (ouro, prata e bronze) e mais de cem menções honrosas. Em 1954, foi distinguido no congresso de Barcelona da FIAP com o mais importante prémio internacional no âmbito da fotografia amadora: o Excellence da Fédération Internationale d’Art Photographique (FIAP).

Na importante revista “Plano Focal” (cujo primeiro número saiu em fevereiro de 1953, com direção de Jaime Bessa e chefia de redação de José Ernesto de Sousa), a figura de Pècurto foi assinalada como colaborador e delegado em Coimbra.

Correspondente da RTP e repórter na Crise Académica de 1969

Durante 25 anos, além de fotógrafo profissional, foi operador de câmara e correspondente da RTP – Rádio Televisão Portuguesa na região Centro, tendo também colaborado com vários jornais nacionais.

No tempo da Crise Académica de 1969, a Casa Hilda tornou-se alvo de atenção por parte da polícia política. O fotógrafo expunha na montra imagens da Coimbra ocupada pelas forças da ordem e dos estudantes na rua. “O senhor diretor pede para tirar esta ou aquela fotografia da montra”, recordou Varela Pècurto numa entrevista ao Diário de Notícias em 2019, a propósito das incursões que os “pides” faziam à sua loja.

Um dos episódios que imortalizou foi o dos guardas a cavalo que não conseguiam subir a calçada do Arco de Almedina porque o piso tinha ficado escorregadio com o sabão diluído na água derramada pelos estudantes. “Eu era comerciante e não convinha ‘tomar partido’, mas mesmo assim eles viam nas fotografias coisas que não podiam ser mostradas”, explicou.

Presidente Honorário e legado institucional

Em 2005, a Câmara Municipal de Coimbra atribuiu-lhe a Medalha de Mérito Cultural da cidade, em sessão solene. O Clube da Comunicação Social de Coimbra concedeu-lhe o Diploma de Honra e, a 12 de julho de 2018, nomeou-o Presidente Honorário, reconhecendo “toda a dedicação e amizade sempre demonstrada”.

Em 2022, a Câmara Municipal de Coimbra criou o Prémio Varela Pècurto de fotografia, destinado a promover o património local e perpetuar o seu olhar estético sobre a cidade.

O seu trabalho encontra-se representado em várias coleções públicas, incluindo o Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado e a Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

O espólio disperso mas notável

Ao longo dos anos, Varela Pècurto doou o seu espólio a várias câmaras municipais e instituições. Para a Câmara Municipal de Évora, doou em setembro de 2006 um total de 686 espécies fotográficas (negativos, provas e diapositivos) relativas ao período em que residiu na cidade.

Para a Câmara Municipal de Coimbra, doou o seu material fotográfico, constituído por 8870 imagens (negativos, diapositivos, provas e postais), 836 documentos (capas de discos, diplomas, prémios, medalhas, catálogos, revistas, jornais, álbuns de vinhetas e objetos pessoais) e 54 máquinas e acessórios fotográficos. Em 2014, a Câmara de Coimbra realizou a exposição de homenagem “Coimbra vista por Varela Pècurto”, na Sala da Cidade.

A sua coleção – “Vidas de Ferro – Coleção Fotográfica Varela Pècurto” – integra o espólio do Museu Nacional Ferroviário, no Entroncamento, sendo composta essencialmente por fotografias datadas da década de 50. Uma fotografia sua, “De Madrid a Lisboa, passando por terras do Luso” (1951-53), serviu de base a um selo dos correios portugueses emitido em 2006, no valor de 0.45 euros, alusivo aos “150 anos da inauguração do primeiro troço do caminho-de-ferro em Portugal”.

Batalha de Sombras e o reconhecimento dos pares

O trabalho de qualidade dos fotógrafos amadores, nomeadamente dos participantes em salões, foi reconhecido na exposição realizada no Museu do Neorrealismo, em Vila Franca de Xira, em 2009, intitulada “Batalha de Sombras”, na qual Pècurto esteve representado com 12 imagens e participou numa conferência.

Uma homenagem sentida e a promessa de continuar

Ontem, na Casa Municipal da Cultura, Varela Pècurto ouviu atentamente os discursos, sorriu com as histórias contadas pelos amigos e ouviu os “parabéns” que lhe foram cantados. Ao cortar o bolo de aniversário, agradeceu emocionado a todos os que o visitam e provou que, aos 101 anos, o seu espírito permanece jovem e curioso.

A ligação a Penacova, consolidada pela doação de 2013 e pelo livro de 1984, continua viva na memória dos habitantes do concelho. Muitos deles marcaram presença na homenagem, recordando as imagens que o fotógrafo lhes deixou – um património visual que, tal como o próprio Varela Pècurto, resiste ao tempo e continua a “inventar histórias”.

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