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Caudais podem atingir 3.000 m³/s no açude-ponte; até 9 mil pessoas poderão ser retiradas da Baixa e de Santa Clara

A presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Ana Abrunhosa, admitiu que a cidade pode estar perante uma “cheia centenária” do Rio Mondego, cenário que poderá obrigar à retirada de cerca de 9.000 pessoas das zonas urbanas mais vulneráveis, nomeadamente a Baixa (freguesia de Coimbra) e o Rossio de Santa Clara (União das Freguesias de Santa Clara e Castelo Viegas).

A confirmação do cenário poderá ocorrer entre as 8h e as 9h, sendo esperado um pico de caudal pelas 15h desta sexta-feira, segundo declarou a autarca em conferência de imprensa.

Aguieira no limite máximo de retenção

O agravamento do risco está diretamente relacionado com a situação da Barragem da Aguieira, principal infraestrutura de regularização da bacia do Mondego, que atingiu cerca de 99% da sua capacidade de armazenamento, com uma cota aproximada de 124,5 metros.

O nível máximo de segurança situa-se nos 126 metros. Ultrapassado esse patamar, a barragem não consegue reter mais água, sendo obrigada a aumentar descargas para preservar a integridade estrutural.

À mesma hora, o caudal afluente rondava os 1.054 m³/s, superior ao caudal efluente, fixado em cerca de 930 m³/s, o que significa que a albufeira continuava a receber mais água do que aquela que libertava. Este desequilíbrio mantém pressão sobre o sistema hidráulico.

Caudais críticos no açude-ponte

No açude-ponte de Coimbra, a “linha vermelha” situa-se nos 2.000 m³/s. Contudo, segundo a presidente da autarquia, existe a probabilidade de o caudal atingir valores entre 2.500 e 3.000 m³/s.

Quando esses níveis são alcançados, a água começa a recuar e a espraiar, avançando para zonas urbanas. O tabuleiro inferior do açude-ponte, que liga a Baixa à margem esquerda, já se encontra encerrado por razões de segurança.

Além do Mondego, registam-se subidas significativas nos seus afluentes, nomeadamente no rio Ceira, e nas ribeiras urbanas, aumentando o risco de inundações em áreas até agora poupadas.

Evacuação preventiva pode abranger 9 mil pessoas

Nos últimos dias, cerca de 3.500 pessoas em zonas rurais do concelho já tinham recebido indicações para retirada preventiva. Com o agravamento do cenário, o município prepara-se para a eventual evacuação de até 9.000 residentes concentrados na malha urbana.

Durante a noite iniciou-se a retirada preventiva de pessoas acamadas e em situação de sem-abrigo, que estão a ser encaminhadas para lares e unidades de cuidados continuados.

Entre as zonas potencialmente afetadas encontram-se:

  • Zona ribeirinha de Torres do Mondego (UF de Torres do Mondego)

  • Ceira, Conraria e Portela do Mondego (UF de Ceira)

  • Quinta da Portela (Santo António dos Olivais)

  • Rossio de Santa Clara e cotas baixas da freguesia

  • Baixa de Coimbra

  • Ribeiras de Coselhas, Eiras, Fornos, Covões e Casais

Foi ainda definida uma nova zona de evacuação preventiva que abrange pontos de São Martinho de Árvore (UF de São Martinho de Árvore e Lamarosa), Quimbres (UF de São Silvestre) e São João do Campo (UF de São João do Campo). A Escola de São Silvestre está preparada para acolher população retirada da zona noroeste do concelho.

Infraestruturas em risco e suspensão de aulas

As pontes de Santa Clara e o viaduto do IC2 poderão ser encerrados caso os níveis no açude-ponte comprometam a segurança. Existe também risco de inundação na estação ferroviária de Coimbra-B, na zona da Casa do Sal e na Estrada Nacional 111.

Não haverá aulas esta sexta-feira no concelho. A autarquia apela à população para evitar deslocações desnecessárias e recomenda às empresas a adoção de teletrabalho sempre que possível.

A Proteção Civil continuará a emitir alertas por telemóvel, ajustando recomendações e restrições à evolução do cenário.

O que significa uma “cheia centenária”

Uma cheia centenária corresponde a um evento com 1% de probabilidade de ocorrência em cada ano, determinado por modelos estatísticos baseados em séries históricas de caudais máximos.

No caso do Mondego, mesmo após a construção da Aguieira, da barragem da Raiva e do sistema de diques do Baixo Mondego, o risco extremo não é eliminado — apenas mitigado.

Com a Aguieira praticamente cheia e a continuar a receber volumes superiores aos que descarrega, qualquer agravamento da precipitação poderá forçar aumentos adicionais no caudal libertado a jusante, pressionando Coimbra e os campos agrícolas do Baixo Mondego, incluindo concelhos como Montemor-o-Velho e Soure.

Até ao momento, não há registo de vítimas, sendo objetivo das autoridades manter o cenário circunscrito a danos materiais, através de medidas preventivas e evacuações atempadas.

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