Caudais elevados no rio Mondego e nos seus principais afluentes, como o Alva e o Ceira, agravam o risco de inundações num contexto nacional que já soma mais de 14 mil ocorrências desde o início de fevereiro

A situação hidrológica na bacia do Mondego mantém-se crítica, com a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) a registar 14.084 ocorrências em todo o país desde 1 de fevereiro, envolvendo 48.406 operacionais e 19.478 meios, maioritariamente relacionadas com quedas de árvores, movimentos de massa e inundações.
Na região Centro, o rio Mondego concentra as maiores preocupações, com especial impacto potencial nos concelhos ribeirinhos, entre os quais Penacova, onde o rio Alva conflui com o Mondego, reforçando o volume de água que segue para jusante.
APA alerta para risco de colapso dos diques
O presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), Pimenta Machado, afirmou hoje, em Coimbra, que existe um “risco claro dos diques [margens] poderem colapsar”, face às previsões de forte precipitação.
Em conferência de imprensa realizada após uma reunião de emergência com autarcas da região e responsáveis da proteção civil, o dirigente sublinhou que, “em nome da precaução”, é fundamental retirar pessoas das áreas de risco de cheia.
Segundo Pimenta Machado, está prevista para quarta-feira “uma brutalidade” de precipitação, equivalente a cerca de 20% da média anual em apenas dois dias, cenário que aumenta substancialmente a pressão sobre as infraestruturas hidráulicas.
A principal preocupação centra-se no Açude-Ponte de Coimbra, estrutura dimensionada para um caudal máximo de 2.000 metros cúbicos por segundo (m³/s). Às 20h00, o registo situava-se nos 1.802 m³/s, valor já considerado elevado.
“É fundamental perceber se temos condições para que nunca seja ultrapassado o valor dos dois mil metros cúbicos por segundo”, afirmou.
Pressão acumulada após três semanas de tempestades
O presidente da APA classificou a situação como “verdadeiramente excecional”, salientando que os elevados níveis de precipitação ocorrem após três semanas de tempestades sucessivas, que têm vindo a pressionar as infraestruturas hidráulicas.
“Muita água foi ao rio Ceira, à Ribeira de Mortágua, ao Mondego, ao rio Dão. É impressionante”, referiu.
Este contributo simultâneo dos principais afluentes do Mondego — entre os quais o rio Alva (com confluência em Penacova), o Ceira e o Dão — tem sido determinante para o aumento dos caudais que atravessam Coimbra e seguem para o Baixo Mondego.
Segundo a APA, apesar de ainda existir algum “encaixe” disponível na barragem da Aguieira, a montante de Coimbra, a margem de manobra é limitada, sendo a gestão da albufeira acompanhada em permanência.
Municípios preparam evacuações preventivas
O comandante Sub-Regional de Emergência e Proteção Civil da Região de Coimbra, Carlos Luís Tavares, recordou que têm sido atingidos “valores limite da obra hidrográfica do Mondego” e que, à luz da experiência das cheias de 2001 e 2019, os municípios optaram por preparar ou iniciar retiradas preventivas de pessoas das zonas de risco.
Segundo o responsável, os meios estão posicionados há mais de dez dias, com o objetivo de realizar eventuais evacuações de forma tranquila e organizada.
“Vamos dar as melhores condições às pessoas, de forma a que nós próprios possamos estar tranquilos e que não tenhamos ninguém em risco”, afirmou.
A bacia do Mondego encontra-se novamente em situação de alerta de cheias, o nível menos gravoso de dois patamares, sendo o mais elevado a situação de risco, embora quatro ocorrências a montante de Coimbra estejam a merecer atenção particular.
Gestão controlada tenta evitar cenário de 2001
A APA tem vindo a implementar uma gestão de cheia controlada no Baixo Mondego, estratégia que tem sido globalmente reconhecida por agricultores e autarcas como essencial para evitar ruturas nas margens, como sucedeu em 2001, com consequências catastróficas, e parcialmente em 2019, quando a cheia afetou sobretudo a margem direita.
Ainda assim, permanece o risco de os diques da margem direita ou esquerda do canal principal poderem ceder, face à pressão prolongada da água e aos cerca de dez dias consecutivos com caudais médios na ordem dos 1.500 m³/s.
Penacova sob vigilância permanente
Para o concelho de Penacova, a conjugação do caudal elevado do Mondego com o contributo direto do rio Alva, além do reforço proveniente do Ceira e do Dão, coloca o território numa posição particularmente sensível dentro da bacia hidrográfica.
A Proteção Civil mantém o apelo às populações ribeirinhas para que acompanhem as informações oficiais, evitem zonas inundáveis e estejam preparadas para cumprir eventuais ordens de evacuação.
O objetivo das autoridades, sublinhado quer pela ANEPC quer pela APA, é atravessar este episódio de severidade meteorológica sem perdas humanas e com o mínimo impacto possível nas populações e infraestruturas, num contexto já considerado por especialistas como um dos mais exigentes dos últimos anos em termos hidrológicos.












