Esta entrevista assinala os 10 anos desde que o arquiteto Carlos Mendes iniciou o seu envolvimento na recuperação, conservação e valorização da Fonte Santa da Malhada Quente, em Monchique. A conversa mergulha na alma da obra “Banho do 29”, explorando não só o rigor histórico e científico associado a este património termal, mas também a dimensão humana, cultural e territorial do projeto. Ao longo da última década, a iniciativa tem promovido um intercâmbio cultural que liga Penacova ao Algarve, envolvendo afetos, testemunhos e perspetivas de desenvolvimento sustentável, incluindo a proposta de criação de termas e de uma unidade de água mineral natural.
Penacova Actual (PA): Carlos Mendes, é impossível dissociar este projeto da sua origem. De que forma é que a “fibra” de Penacova o preparou para o desafio hercúleo de recuperar a Fonte Santa da Malhada Quente?
Carlos Mendes (CM): O orgulho nas vivências neste belo concelho de Penacova, as minhas raízes e a ligação familiar dos meus ascendentes ao concelho são marcos que me acompanham ao longo da vida. No livro, abordo a sequência temporal da minha chegada à Fonte Santa, em Monchique, em 2016. Enquanto arquiteto, não vi apenas “pedras”; vi uma história que precisava de ser recontada.
Em fevereiro deste ano, completar-se-ão 10 anos desde que iniciei esta “caminhada” na conservação e valorização da Fonte Santa da Malhada Quente. Este ano, tal como nos anos anteriores, a 29 de junho, voltamos a celebrar a tradição cultural do “Banho do 29” na Fonte Santa. No livro “Banho do 29” estão registados textos e fotografias com vivências e testemunhos deste acontecimento ao longo dos tempos.
PA: Existe alguma particularidade acerca deste livro que queira ressalvar?
CM: Uma particularidade comum entre Monchique e Penacova é a sua forte componente cultural, nomeadamente ao nível de ilustres escritores, que me inspiraram na criação deste livro. Em 2024, entre as várias atividades culturais associadas à celebração do “Banho do 29”, proporcionámos uma tertúlia subordinada ao tema “Liberdade”, que contou com a participação de três personalidades. Para além do presidente da Junta de Freguesia de Alferce, José Manuel Gonçalves, participaram ainda um monchiquense e um penacovense — ambos escritores e advogados —, respetivamente Paulo Rosa (autor do prefácio do livro) e Luís Pais Amante.
Este livro (“Banho do 29”, à venda na plataforma Amazon e disponível para consulta na Biblioteca Municipal de Penacova, através de um exemplar por mim oferecido) não é apenas dos seus autores, mas pertence a todos os que para ele contribuíram e a todos aqueles que o lerem. Os leitores encontrarão vários narradores e tipos de linguagem, reflexo das pessoas que os escreveram.
É com especial sentimento de honra que destaco, para além das dezenas de citações e testemunhos, a participação no livro, com fotografias, textos e poemas, de monchiquenses e monchiqueiros: Glória Marreiros, Ana Rita Horta, Ana Lourenço Pinto, Clara Sousa Vicente, Nuno Campos Inácio, Eduardo Jorge Duarte, Filipe Duarte, Mário Duarte e Tiago Veríssimo; de penacovenses: Luís Pais Amante e Henrique Santos; e ainda, entre outros, Antónia Pereira (coautora do livro e autora da letra do Hino da Fonte Santa), André Pleno (autor da música do Hino da Fonte Santa), Fernando Alves (ex-jornalista da TSF), Joaquim Guerreiro (autor de As Memórias da Minha Vida) e Samuel Mendonça (diretor do jornal Folha do Domingo). Destaco igualmente a cedência de fotografias por parte dos seus autores, referenciados no livro, nomeadamente Silvério Manata, autor da fotografia de capa.

PA: No livro e nas atividades da Fonte Santa, notamos a presença frequente de figuras da nossa terra. Como tem sido essa participação, para além da tertúlia, nomeadamente a de Luís Pais Amante?
CM: Luís Pais Amante e a sua família são pessoas por quem nutro amizade e respeito há várias décadas. Em relação à Fonte Santa, partilhámos ideias e recebi conselhos importantes para um melhor desenvolvimento sustentável deste local. O Luís e a esposa, Ana, visitaram a Fonte Santa pela primeira vez em 2024. Ambos desfrutaram das nascentes termais, conviveram durante o almoço na Fonte Santa e visitaram a exposição “Artes de Monchique”. Nesse dia, o Luís sentou-se a fruir aquele espaço e escreveu o poema que se encontra publicado no livro.

Este casal de amigos penacovenses é apenas um exemplo entre muitas dezenas de outros que visitaram o Complexo Termal de Banhos Populares da Fonte Santa da Malhada Quente. Refiro, por exemplo, que o primeiro penacovense a visitar este local foi o meu amigo Álvaro Pinheiro. Há já vários anos que Manuel Peça e a sua família participam anualmente na celebração da tradição do “Banho do 29”. Recordo ainda Ricardo Simões e esposa, presentes aquando da bênção das instalações pelo padre Tiago Veríssimo; António (Tó) Rodrigues e familiares da Casa Oliveira, que estiveram presentes em diversas ocasiões; o amigo Luís, do café/restaurante “El Sonho”; o saudoso engenheiro Ernesto Coelho e família; e Henrique Santos, que bebeu desta água aquando da recuperação de um problema de saúde, visita este local quando está de férias no Algarve e tem também um poema publicado no livro — referindo apenas alguns exemplos.
PA: Para além de penacovenses, reparámos na presença de pessoas oriundas de vários locais. Como tem sido esse convívio?
CM: Já recebemos visitas de pessoas provenientes de todos os continentes. Ao longo destes últimos 10 anos, são já centenas as pessoas que visitaram, pela primeira vez, quer a Fonte Santa, quer o concelho de Monchique. Em 2025, contámos com a participação de vários músicos, grupos de cantares, artistas, escultores e escritores, bem como da Confraria Nabos e Companhia de Carapelhos (Mira) e da Confraria Gastronómica “As Sainhas” (Vagos), em sã convivência cultural na Fonte Santa, juntamente com a Confraria do Medronho de Monchique e demais amigos. Estes momentos trazem novas dinâmicas e uma forte dimensão de fraternidade, inclusive na defesa dos produtos de cada região. Este intercâmbio dá vida à tradição e à cultura. Não se trata apenas de mais um penacovense em Monchique; é Penacova e outras regiões, gradualmente, a abraçarem este património.
PA: Para além da mística, o livro foca-se muito no rigor técnico. O que nos dizem os dados científicos sobre a eficácia destas águas?
CM: Desde a época romana que a Serra de Monchique é reconhecida pela qualidade termal e curativa das suas águas. A partir do século XVIII, começou a difundir-se a fama das nascentes existentes na Fonte Santa da Malhada Quente. É sobretudo através da tradição oral que, ao longo dos tempos, foram transmitidos conhecimentos, crenças, histórias e memórias de um povo. Trata-se também de uma forma de preservar a cultura e o legado histórico de uma comunidade.
Na Fonte Santa da Malhada Quente, quer no balneário “termal romano”, quer no balneário “Banho do 29”, é possível observar a água a brotar das emergências termais e tomar banho no tanque existente, tal como antigamente. É igualmente possível beber desta água alcalina, hipossalina, bicarbonatada sódica, alcalino-sódica, mesotermal, com pH 9.0, que brota a 28 graus. Este conceito termal é único em Monchique e no Algarve.

Com o objetivo de reforçar o embasamento científico, envolvemos várias entidades em diferentes estudos. No passado dia 10 de outubro de 2025, a Fonte Santa da Malhada Quente esteve representada no 1.º Seminário Anual de Geotermia — Energia geotérmica em Portugal: situação atual e desafios para o futuro — realizado na Universidade da Beira Interior (UBI), através de uma comunicação e de um poster científico. O trabalho é da minha autoria e do professor Luís Ferreira Gomes (GeoBioTec, Universidade da Beira Interior, Covilhã).
No poster é referido que, na zona da Malhada Quente, existe uma ressurgência com um quimismo especial, muito semelhante ao da água das Caldas de Monchique, e naturalmente quente (28 ºC). Os dados disponíveis sobre a temperatura em profundidade apontam para valores na ordem dos 101 ºC, a uma profundidade de reservatório de cerca de 2.750 metros. Torna-se urgente a realização de uma captação profunda, uma vez que, segundo os estudos desenvolvidos, uma captação a 1.000 metros poderá permitir a obtenção de água a cerca de 58 ºC.

PA: O conteúdo humano dos ficheiros e manuscritos que compilou é vastíssimo. Que histórias de vida gostaria de imortalizar nesta entrevista?
CM: Existem relatos que são verdadeiros tesouros etnográficos. Acima de tudo, este livro é um convite a sonhar, como costumo dizer: um homem tem de ser um sonhador, viver os seus sonhos, trabalhar e lutar contra as adversidades, reerguer-se a cada desafio, acreditar sempre e nunca desistir.
Fica o convite para que cada um descubra, pelo menos uma vez na vida, o encanto que reside nestas águas e imortalize essa experiência na sua própria história. Porque a verdadeira essência da Fonte Santa não está apenas em recordá-la, mas em vivê-la.
PA: O incêndio de 2018 foi um golpe duro. Como é que o projeto se reergueu e o que podemos esperar da futura “Casa-Museu”?
CM: Agosto de 2018 foi o pior momento vivido na Fonte Santa, quando o incêndio dizimou toda a propriedade. Estava tudo negro. Não consegui conter a emoção perante o cenário dantesco. Percorria o caminho até às nascentes com um aperto no peito, as lágrimas corriam-me pelo rosto; sentia uma dor repetida que me destroçava a cada passo. Não deixava de pensar que, em menos de um ano, tinha vivido o mesmo em Penacova, onde perdi bens e pessoas amigas e conhecidas perderam a vida no incêndio. E, naquele momento, a desolação também na Fonte Santa.

Ao chegar junto das nascentes, foi num instante de interiorização e dor que nasceu uma ideia. Senti um chamamento, como se fosse a própria fonte a falar comigo. Nesse momento, decidi que iria recuperar, das cinzas, a identidade deste local. Surgiram novas ideias: recuperar o espaço, abri-lo à comunidade e possibilitar que todos voltássemos a fruir o “Banho do 29”, com a perspetiva de reconstruir a futura Casa-Museu da Fonte Santa da Malhada Quente, também ela fustigada pelo incêndio.

Antigamente, este edifício servia de albergue às pessoas que vinham de longe para usufruir das águas termais consideradas “milagrosas”. Pretende-se que o edifício seja objeto de reconstrução, funcionando não apenas como habitação, mas também como um espaço de “montra” dos produtos e da cultura local e como um espaço museológico que evidencie a identidade e as memórias deste local ao longo dos tempos. Desta forma, será valorizado e reabilitado o património existente, com uma estruturação otimizada do seu carácter funcional enquanto espaço turístico e de fruição pública.

PA: Qual é o legado que deseja deixar com esta obra para Penacova e para Monchique?
CM: Só tem futuro quem tem história, e a Fonte Santa da Malhada Quente tem história. Ao longo dos vários séculos de existência deste local, ficará marcado este período como um legado vivido por um monchiqueiro com uma peculiar paixão pelas “termas do povo e para todos”. Para monchiquenses, penacovenses — e para todos — ficou a oportunidade de fruir uma cultura termal única na Montanha Sagrada de Monchique. Outros virão, cada qual com a sua identidade, com a expectativa de que se perpetuem as memórias deste local, através da implementação de um projeto económico na área termal e/ou do engarrafamento. Que o meu exemplo possa inspirar outros a preservar e promover o nosso rico património cultural.



Excelente entrevista.