Recordo ainda os meus tempos de catequese e o que aí me ensinaram serem os sete pecados mortais: soberba, avareza, luxúria, inveja, gula, ira e preguiça.
E, desde já vos digo que, para mim, o pecado mais abominável é a gula. Mas a isso já lá iremos porque, por agora, quero que exercitem a vossa imaginação e tentem descobrir quaisquer ligações entre os provérbios que a seguir vos deixo – poderia citar muitos mais! – e os acima referidos pecados capitais.
E os provérbios são: «a ambição cerra o coração»; «a ocasião faz o ladrão»; «ao rico não devas e ao pobre não peças»; «candeia que vai à frente alumia duas vezes»; «com papas e bolos se enganam os tolos»; «de rico a soberbo, não há palmo inteiro»; «grão a grão enche a galinha o papo», «homem pequenino, ou velhaco ou dançarino»; «lágrimas de herdeiros, sorrisos sorrateiros»; «muda-se de moleiro, não se muda de ladrão»; «não peças a quem pediu nem sirvas a quem serviu»; «o que é demais molesta»; «pai rico, filho nobre, neto pobre»; «quando a esmola é muita o pobre desconfia»; «quem cabritos vende e cabras não tem, dalgum lado lhe vem»; «tão ladrão é quem vai à horta, como o que fica à porta»; «tostão a tostão se faz um milhão»; «um rico avarento, não tem amigo nem parente» e, finalmente, «uns comem os figos, a outros rebentam-lhe os lábios».
Mas e a gula? Em termos populares o provérbio define-a com precisão: «Mau é ter mais olhos do que barriga». Em termos políticos e sociológicos o pecado da gula manifesta-se no desejo insaciável do ser humano de ter sempre mais do que já tem e de que precisa. E, elegi a gula como o pecado mais nefasto de todos, não por causa daqueles que gostam de comer bem e beber melhor, mas em desonra dos insaciáveis gulosos de poder e de dinheiro.
Esses gulosos de que nos falam as páginas dos jornais a cada dia que passa e os quais nem perante catástrofes naturais ou a ameaça de fome para milhões e milhões de pessoas ou a barbárie das guerras, param na sua voragem, Não conseguem ter um pingo de humanidade. Afinal, nesta economia dita global mas que apenas a uns poucos aproveita, a gula é implacável.
Por isso é bem verdade: uns comem os figos a outros, aqueles incautos que defendem quem come os figos, rebentam-lhe os lábios. Até quando?
António Correia da Silva (Sarróia)


