Ao longo das últimas duas décadas, Gonçalo Barata tem construído um percurso singular no panorama teatral português, cruzando formação, criação artística e intervenção pedagógica. Ator, encenador e professor, é reconhecido pela disciplina rigorosa que impõe ao trabalho e pela capacidade de transformar as salas de aula em verdadeiros laboratórios de criação. Nesta conversa, revisitamos o seu percurso, as influências que moldaram a sua visão e o papel que atribui ao teatro na educação e na cidadania. Falamos ainda do seu mais recente desafio — a encenação de “Obrigado, Mãe Terra!” — e do caminho que continua a traçar entre palco, escola e comunidade.

Penacova Actual — Para quem te conhece sobretudo pelo nome artístico, quem é Gonçalo Barata e o que consideras essencial no teu percurso?

Gonçalo Barata — Sou ator, encenador e pedagogo. Nunca separei a criação artística da formação humana: sempre entendi que o palco, a sala de aula e a comunidade são extensões do mesmo território. A minha ética de trabalho nasce da disciplina e da repetição — não da ideia romântica de génio. Defino-me muitas vezes como “uma formiga que labuta”. Creio profundamente que o teatro é encontro, é rigor e é responsabilidade. É uma arte que exige presença, humildade e entrega.

PA — O teu percurso académico culmina num mestrado em Teatro e Comunidade. Que impacto teve esta etapa na tua prática?

GB — O mestrado foi um momento de sistematização. Já trabalhava há anos com jovens intérpretes, mas precisava de organizar o pensamento. Na Escola Superior de Teatro e Cinema articulei três dimensões fundamentais: a técnica do intérprete, a ética da criação e o papel social do teatro. A minha investigação partiu sempre da prática: observei alunos e processos reais, testei métodos, analisei resultados. Não quis afastar-me do terreno — quis compreendê-lo melhor.

PA — Como é que essa investigação se traduz hoje em sala de aula?

GB — Traduz-se em método, clareza e responsabilidade. Não acredito num ensino onde o aluno é mero receptor. O aluno é criador de conhecimento. Trabalho a partir do corpo — respiração, neutralidade, eixo, foco — e avanço para a construção dramatúrgica. Há uma progressão: descoberta pessoal, construção coral, composição espacial e rítmica, dramaturgia criada pelos intérpretes e análise crítica do espetáculo. O espetáculo nunca é o fim: é o laboratório onde o processo ganha forma.

PA — Muitos jovens atores valorizam sobretudo emoção e espontaneidade. O que justifica a tua insistência na técnica?

GB — Porque emoção sem técnica é ruído. Não é ao público que cabe decifrar o descontrolo do ator. A técnica não aprisiona — afina. Quando se respira bem, o texto não domina. Quando se marca espaço com rigor, a cena torna-se legível. O ritmo organiza o pensamento. E quando escutamos verdadeiramente o outro em cena, nasce teatralidade. A técnica exige humildade: é treino diário, é rigor físico e mental, como num músico ou bailarino.

Encenação da peça “della tela alla vita” a partir da poesia de rupi kaur, por Gonçalo Barata no Auditório Chaves Santos – foto Lourenço Parente

PA — Quais são as tuas principais referências artísticas e pedagógicas?

GB — Stanislavski ensinou-me a procurar verdade e não efeito. Viola Spolin mostrou-me o jogo como gerador de criatividade. Gisele Barret trouxe-me a dimensão pedagógica do teatro. Ariane Mnouchkine ensinou-me o valor absoluto do coletivo. Bob Wilson revelou-me a imagem como pensamento. Adolphe Appia ensinou-me a cena como arquitetura. Acrescento ainda mestres que marcaram profundamente o meu percurso: Clovis Levi, Valentim Teplyakov, Estrela Novais, António Mercado, Nuno Pino Custódio, Francisco Beja, Armando Nascimento Rosa, Rita Wengorovius, Maria Repas, Luca Aprea, José Espada, Fabio Gorgolini, Ingrid Koudela e António Fonseca. A minha pedagogia é uma síntese viva destas influências.

Gonçalo Barata com Tito Lívio no Teatro Politeama

PA — Enquanto encenador, falas frequentemente da “dramaturgia da relação”. O que significa?

GB — O sentido não nasce da vontade unilateral do encenador. Nasce da relação: intérpretes, texto, espaço, som, público. O encenador não é um demiurgo — é um mediador. Interessa-me trabalhar com intérpretes que assumem tarefas reais, como direção de cena, som, composição visual. A cena torna-se organismo vivo. Quando o espetáculo nasce desse processo, tem integridade própria.

“Dona Rosinha, a solteira” de Federico Garcia Lorca; Encenação Gonçalo Barata – fotos ensaio São Ludovino

PA — Em que momento a pedagogia se tornou um eixo central no teu percurso?

GB — Entre 2006 e 2010, quando comecei a ensinar regularmente, percebi que ensinar exige tanto como representar. Ao chegar a Arganil, em 2011, trabalhei com grupos muito numerosos e desenvolvi um modelo de ensino vertical: acompanhar turmas durante vários anos. Esse trabalho marcou-me profundamente. Mais tarde, na Escola Secundária D. Pedro
V, em Lisboa encontrei uma equipa fantástica, constituída por 3 colegas: Estrela Novais,Carlos Melo e Vítor Sesinando. A actriz Estrela Novais liderava a equipa e foi a criadora do Curso Profissional Intérprete/Ator/Atriz, leccionou até ao fim da sua vida, foram 32 anos na escola. A Estrela criou uma metodologia fabulosa e lançou muitos actores no mercado de trabalho (tv, cinema, rádio, teatro), aprendi muito com ela, ainda hoje trabalho como se ela estivesse presente, sou o Director de Curso, mas a casa será sempre dela. Em suma vim para a primeira divisão onde encontrei um nível de exigência total. Por esta escola passaram ainda nomes com o actor Antonino Solmer e actriz Amélia Videira. Consegui provar que o trabalho construído na província tinha força técnica e artística. Este país — que percorri de Viana do Castelo a Albufeira — ensinou-me muito. Aprendi com todas as comunidades que encontrei.

PA — Na tua dissertação abordas a relação entre teatro e cidadania. Como a defines?

GB — O teatro é um espaço onde a comunidade se vê a si própria. Quando um grupo cria, expõe fragilidades, dúvidas, forças, identidades. A cidadania não é teoria — é prática ética. O teatro educa para essa prática: escuta, cooperação, responsabilidade. Vi alunos que não falavam em público a defender ideias perante centenas de pessoas. Se isso não é cidadania, o que será?

PA — A tua experiência em televisão e cinema influencia a sua atuação no palco?

GB — Influencia profundamente. O cinema pede precisão microscópica; a televisão, adaptação rápida; o teatro, presença total. A câmara denuncia cada excesso, cada mentira. Esse rigor transporto-o para o palco e para a sala de aula. A versatilidade é uma ferramenta de rigor, não de exibicionismo.

Nas gravações da série “Madre Paula” da RTP.

PA — Também trabalhaste como ator e criador em rádio e podcasts. Que impacto tiveram essas linguagens no teu trabalho?

GB — A rádio ensinou-me a escutar o invisível. Em radionovelas como *Constança*, *Pequena Grande Revolução*, *Toda a Verdade*, *O Fim do Mundo* ou *O Bispo Negro*, a voz era tudo — intenção, corpo, espaço. Foi um treino valioso. O podcast trouxe-me liberdade e experimentação: é um laboratório onde a dramaturgia sonora respira sem filtros. Dá-me espaço para criar pensamento e narrativa de forma íntima.

PA — Foste presença assídua nas Escolíadas durante muitos anos — como aluno, professor, organizador e mais tarde como júri. Que importância teve esse percurso?

GB — Enorme! Tenho muito carinho pelo projecto no qual participo há 20 anos contando com os 4 anos como jurado. As Escolíadas foram um dos lugares fundadores do meu percurso. Como aluno e estagiário desde 1998, até 2002, aprendi o valor do coletivo. Como professor, entre 2003-2008 (Penacova) 2011 e 2016 (Arganil), percebi a força pedagógica do evento: centenas de jovens juntos, em processo criativo, num modelo onde escola e arte se unem. Mais tarde, como júri nas edições de2022, 2023, 2024 e 2025, pude observar a diversidade artística das escolas, a maturidade pedagógica dos projectos e contribuir artisticamente na avaliação das provas dando de uma forma muito verdadeira os pontos em que podem fazer crescer os espectáculos, através de críticas construtivas. As Escolíadas são um laboratório vivo de cidadania, disciplina e imaginação. Para mim as Escolíadas sempre foram 3 ou 4 escolas que se mantêm unidas numa noite, com o objectivo de a tornar mágica e única! Por outro lado a nível técnico os meios que a organização nos disponibiliza, permite-nos fazer criações impressionantes.

PA — Tens algum momento das Escolíadas que te tenha marcado de forma especial?

GB — Vários, desde o início. Da dificuldade com que comecei em Penacova 1998. Por exemplo: recebemos o convite e a associação de estudantes descartou a hipótese, era assustador. A Directora Ana Clara, também tinha recebido, chamou-me ao gabinete e disse-me “Gonçalo nós vamos participar, resolve este problema”. Não tive alternativa. Uma semana antes de subirmos ao palco fomos ver uma sessão. Ainda mais assustados ficámos. As escolas tinham tantos materiais e nós nada… Pensei na solução para os cabelos e como não havia produtos, toca de toda a gente levar farinha na cabeça e está feito. Claro está que durante o espectáculo parecia que estávamos nos Alpes, tal era a quantidade de pó no ar cada vez que nos mexíamos.

Lembro-me de uma personagem por quem tenho muito carinho o RUI. Nasceu num ensaio onde eu já estava desesperado sem encontrar soluções e o Prof. Nélson Correia que nos encenava também. Não era assim, não era assim.. até que eu respondo/propondo só se for assim… e foi,… foi um sucesso.

Em Arganil foi a escala, já dominava técnicas e criou-se uma equipa com vários departamentos. Quando por exemplo concorri a Lisboa ficaram impressionados. E até posso confessar que se não tivesse ficado com o lugar, tinham-me lançado o desafio de lá levar um espectáculo e eu aceitei. Recordo-me de quando mostrei fotos/vídeos, porque os alunos queriam saber que raio de espectáculo eu criava/falava. O Diogo Varela que entretanto se formou em Londres e é lá actor disse-me depois de ver o material: “Oh Prof. você veio da Tap para a Ryanair”, eu entendi – porque o valor monetário investido em cada produção não
tem comparação..

As nossas equipas trabalharam sempre muito. Chegámos a estar a pintar e preparar materiais às 4 da manhã. Do meu colega Júlio construir para Cena um carro; Torre Eiffel, uma Pirâmide… Das memórias com a Prof. Margarida, a Prof. Ana Gil em Penacova.

PA — Atualmente, em que projetos te encontras envolvido?

GB — Estou dedicado à encenação de *Obrigado, Mãe Terra!*, um projeto que cruza pedagogia, criação artística e consciência ecológica. É um processo colaborativo com os meus estudantes da Escola Secundária D. Pedro V, baseado no *Thanksgiving Address* dos Haudenosaunee (EUA/Canadá). Trabalhamos a relação entre arte, comunidade e responsabilidade ambiental. Este desafio foi lançado pelo teatrólogo Amílcar Martins muito respeitado no meio artístico. Continuo igualmente a ensinar diariamente e a aprofundar técnica e ética com os jovens intérpretes. Este projecto também é produzido pela Akiarabooks de Barcelona. O espectáculo foi criado a partir do livro “Obrigado, Mãe Terra!” com ilustrações de Vanina Starkoff e tradução de Catarina Sacramento. Ganhou o Segundo Prémio para os Livros Mais Bem Editados em 2022 – ESPANHA e a Menção Especial de Poesia nos Bologna Ragazzi Award 2024 – ITÁLIA. Vamos estrear esta semana dia 12 de Dezembro em Lisboa.

Gonçalo Barata com a mãe Rosário Flórido e com a “Luz dos Tremoços”.

PA — Penacova continua a ser parte essencial da tua identidade. Prevês regressar com algum projeto artístico?

GB — Penacova está sempre comigo, mas o regresso só fará sentido se houver condições para um projeto sólido, com impacto real e responsabilidade comunitária. Não volto por nostalgia — volto se puder construir. Se um dia surgir um projeto que una formação, criação coletiva e compromisso com a comunidade, estarei disponível. Até lá, sigo onde a arte me obriga a crescer.


Para conhecer melhor o percurso de Gonçalo Barata, visite o site https://www.goncalobarata.com

O ensino através da arte e a arte através do ensino

 

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