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“Compreendo o que me basta, e somente não compreendo como se suporta a si um ignorante soberbo”. Lope de Vega, poeta do barroco espanhol (1562-1635).

Não é um livro de leitura fácil este que ando relendo. O livro é uma antologia da poesia espanhola, do período barroco (séculos XVI e XVII). A quadra, essa é, infelizmente, bem atual e leva-me a concluir que muitos dos problemas com que nos debatemos hoje – nos tempos ditos pós-modernos – não são mais do que refinados e requintados meios de atingir os mesmos objetivos de outros tempos. Cuidado eles andam aí, tentando o regresso ao passado! Isto é, de exploração do homem pelo homem: de ganância, de soberba, de ânsia de poder e de abuso do mesmo. E, como consequência, a denegação da dignidade da pessoa humana arrastando, na sua voragem sem limites, o ser humano para a situação de mero farrapo.

E isto fez-me lembrar uma crónica antiga de António Lobo Antunes, intitulada «Os pobrezinhos», na qual [ele] nos recorda os tempos em que as famílias abonadas tinham os «seus pobres privativos», aos quais davam roupas velhas e outros excedentes de que já não necessitavam. Famílias essas que até tinham ciúmes se esses pobres batiam a outra porta, mendigando auxílio. Digamos que, ter-se um pobre apoderado elevava o estatuto social das famílias e, ao mesmo tempo, lavava, através da prática da caridadezinha, as consciências sujas. Sim, porque dar as migalhas que não fazem falta é virtude de pouca monta, sobretudo quando as prebendas foram conseguidas tendo como face oposta o empobrecimento dos desgraçados a quem depois se dá uma esmola. E, ainda hoje, as coisas não são muito diferentes, seja lá onde for. Claro está que nuns sítios mais e noutros menos, consoante a natureza dos regimes políticos e as formas de redistribuição da riqueza produzida num determinado país.

É que, necessariamente, para haver miséria, tem de existir injustiça social, iniquidade. E as injustiças sociais, e as desigualdades de oportunidades que as perpetuam, atenuam-se não com esmolas, caridade ou compaixão confuciana, mas sim com a consagração de direitos e deveres justos para quem trabalha e para quem mais necessita. Se isto é ser socialista, então eu sou socialista.

A soberba que é tida, pela religião católica, com um dos sete pecados capitais, revela-se pela sobranceria; pelo orgulho; pela altivez e pela arrogância. E quando à soberba se junta a ignorância, aí, tudo é possível e perigoso.

 No dizer de Vega: «De quantas coisas me cansam/facilmente me defendo/ mas não me posso guardar/dos perigos que há num néscio».


António Correia da Silva (Sarróia)

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