Médicos, enfermeiros e psicólogos alertam para carência grave de recursos humanos; Especialistas defendem reformas profundas para modernização, preventiva e retenção no Serviço Nacional de Saúde. no 46º aniversário do SNS.

Escassez de profissionais ameaça funcionamento
Quase meio século depois de ter sido criado, em 1979, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) assinala o seu 46.º aniversário num cenário de crise profunda. A avaliação é partilhada pelos bastonários das Ordens dos Médicos e dos Enfermeiros, que apontam a escassez de recursos humanos e a falta de adaptação às novas realidades sociais e tecnológicas como os principais entraves ao bom funcionamento do sistema.
Em declarações à Lusa, o bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, salientou que “o problema principal é a falta de recursos humanos, nomeadamente, de médicos, de enfermeiros, de psicólogos, de técnicos, de uma série de outras profissões”. Apesar de estarem inscritos na Ordem perto de 55 mil médicos em idade ativa, apenas pouco mais de 30 mil trabalham no setor público. Para o responsável, a dificuldade em atrair e fixar profissionais deve-se a carreiras pouco valorizadas e a um modelo de gestão hospitalar que não acompanha as exigências atuais.
Falta de adaptação à realidade atual
Carlos Cortes considera que o SNS não soube adaptar-se à medicina preventiva nem à introdução de novas tecnologias, permanecendo excessivamente centrado na resposta curativa. O bastonário alerta ainda que “um hospital hoje funciona como funcionava quando o SNS foi criado em 1979”, o que agrava a pressão sobre os serviços de urgência e contribui para o elevado consumo deste tipo de cuidados no país.
Enfermeiros exigem pacto político
Também o bastonário da Ordem dos Enfermeiros, Luís Filipe Barreira, sublinha que o SNS “dá respostas com muitas fragilidades”, em grande parte devido à instabilidade governativa. Nos últimos dez anos, sucederam-se cinco ministros da Saúde, o que, segundo afirma, inviabiliza reformas de fundo e compromete a continuidade das políticas. Defende, por isso, um pacto governativo que ultrapasse os ciclos políticos curtos.
Carência crónica de enfermeiros
A carência de enfermeiros é outro dos problemas identificados. O SNS necessitaria de mais 14 mil profissionais desta classe, havendo serviços que funcionam apenas com metade do número necessário. Apesar de, todos os anos, centenas de jovens concluírem a licenciatura, a falta de concursos e de perspetivas leva muitos a emigrar.
Utentes sem médico de família
Os dados mais recentes mostram que mais de 1,5 milhões de utentes não têm médico de família atribuído e que a resposta de muitas unidades de saúde depende do trabalho extraordinário de várias classes profissionais. Em 2024, foram pagos 465 milhões de euros em horas suplementares e registou-se um aumento do recurso a médicos prestadores de serviços, conhecidos como “tarefeiros”, com um custo próximo de 230 milhões de euros.
Défice e sustentabilidade financeira
O Conselho das Finanças Públicas calcula que o SNS tenha registado no último ano um défice de cerca de 1.377 milhões de euros, com a despesa total a atingir os 15.553 milhões, o que representa 5,5% do PIB e 12,8% da despesa pública.
Uma conquista a preservar
Apesar dos constrangimentos, os responsáveis lembram que o SNS não foi apenas uma conquista da democracia, mas também um pilar fundamental de coesão social. Contudo, alertam que só uma reforma profunda, capaz de valorizar as carreiras, modernizar a gestão e apostar na prevenção, poderá garantir a sustentabilidade de um serviço público que continua a ser essencial para milhões de portugueses.












