Iniciativa vai percorrer praias entre 9 e 16 de agosto para sensibilizar a população para a prevenção e diagnóstico precoce de uma doença que afeta quase 10% dos portugueses — muitas vezes sem sintomas visíveis.

Rins em risco: doença silenciosa com impacto crescente em Portugal

A Doença Renal Crónica (DRC) representa hoje um dos maiores desafios de saúde pública, afetando cerca de 850 milhões de pessoas em todo o mundo, segundo dados da Sociedade Internacional de Nefrologia. Em Portugal, estima-se que a prevalência da DRC ronde os 10% da população — uma realidade frequentemente ignorada devido à ausência de sintomas nas fases iniciais.

Para contrariar essa tendência, a campanha nacional “O Rim não Dói”, promovida pela Associação Portuguesa de Insuficientes Renais (APIR), com o apoio da Sociedade Portuguesa de Nefrologia (SPN) e de uma empresa farmacêutica, vai estar presente em cinco praias portuguesas durante o mês de agosto:

  • Figueira da Foz (9 de agosto)

  • Carcavelos (11 de agosto)

  • Sesimbra – Praia do Moinho de Baixo (12 de agosto)

  • Quarteira (15 de agosto)

  • Lagos – Porto de Mós (16 de agosto)

A iniciativa visa sensibilizar a população, especialmente os grupos de risco, para a necessidade de prevenir e diagnosticar precocemente esta patologia.

Doença de evolução silenciosa: o perigo da invisibilidade

A grande dificuldade associada à Doença Renal Crónica reside na sua evolução assintomática. Como explica Paulo Urbano, presidente da APIR, “a ausência de sintomas na fase inicial ou sintomas pouco específicos” contribui para diagnósticos tardios e maiores complicações futuras.

Muitas pessoas só descobrem que sofrem de doença renal quando a função dos rins já está severamente comprometida, obrigando à diálise ou mesmo à realização de um transplante renal. Em Portugal, 14.089 pessoas estavam a fazer diálise no final de 2024, sendo que 2.506 iniciaram este tratamento só nesse ano, segundo dados da SPN. Com uma incidência de 271,6 casos por milhão de habitantes (PMP) e uma prevalência de 2.046 PMP, Portugal está entre os países europeus com taxas mais elevadas de tratamento substitutivo da função renal.

Sintomas a que deve estar atento

Embora os sinais possam ser vagos ou confundidos com outras patologias, a presença de alguns sintomas deve motivar a realização de exames de função renal. Entre os mais frequentes estão:

  • Cansaço excessivo e dificuldade de concentração

  • Inchaço nos pés, tornozelos e mãos

  • Alterações na frequência urinária

  • Espuma na urina

  • Hipertensão arterial

  • Náuseas, vómitos e perda de apetite

  • Cãibras, comichão e fraqueza muscular

Estes sinais podem indicar um comprometimento da função renal e exigem avaliação médica urgente.

Grupos de risco e fatores associados

A DRC tem múltiplos fatores de risco, dos quais se destacam:

  • Diabetes mellitus

  • Hipertensão arterial

  • Obesidade e sedentarismo

  • Tabagismo

  • Histórico familiar de doença renal

O presidente da SPN, Edgar Almeida, reforça que, apesar da alta prevalência, a DRC “é pouco conhecida” pela população. Essa falta de conhecimento, aliada à “pouca cultura preventiva” e “dificuldade de acesso aos cuidados de saúde primários”, torna o diagnóstico precoce ainda mais difícil.

Prevenção começa nos pequenos hábitos

A campanha “O Rim não Dói” aposta numa mensagem clara: cuidar dos rins é uma tarefa quotidiana e acessível. “Pequenos hábitos diários, como beber água suficiente, manter uma alimentação equilibrada e controlar a pressão arterial fazem uma diferença enorme na prevenção da doença renal”, destaca Paulo Urbano.

Além disso, a prática regular de exercício físico, a redução do consumo de sal, a abstenção de tabaco e a monitorização regular da glicemia e da tensão arterial são fundamentais para manter os rins saudáveis.

Diagnóstico precoce: chave para evitar a progressão

A deteção atempada da Doença Renal Crónica permite não apenas evitar ou retardar a necessidade de diálise, como também reduzir a ocorrência de comorbilidades cardiovasculares, altamente associadas à DRC. Conforme indica Paulo Urbano, “com acompanhamento médico adequado e alterações alimentares, poderá ser possível evitar ou atrasar a progressão da doença para estádios mais graves”.

A escolha e planeamento antecipado de tratamentos substitutivos — como a diálise ou o transplante — também facilitam a adaptação do doente e diminuem significativamente os riscos e o impacto emocional da transição.

Uma campanha para todos, com foco na saúde pública

Mais do que uma ação informativa, a campanha “O Rim não Dói” pretende transformar comportamentos e criar uma cultura de prevenção em saúde renal. Ao escolher espaços públicos e descontraídos como as praias, os promotores pretendem alcançar públicos diversos e promover o contacto direto com especialistas de saúde.

Este esforço de proximidade é crucial para inverter uma tendência preocupante: a banalização de sintomas, a falta de rastreios regulares e a desvalorização da saúde renal, que continua a ser uma área negligenciada na saúde pública nacional.


Para mais informações sobre a campanha e a Doença Renal Crónica, consulte os sítios web da APIR (www.apir.org.pt) e da Sociedade Portuguesa de Nefrologia (www.spnefro.pt).

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