Cumpre iniciar com uma declaração de interesses. Geograficamente afastado, apresento-me sempre como sendo do Castinçal, aldeia da União de Freguesias de São Pedro de Alva e São Paio de Mondego[1]. Desconhecedor das atuais dinâmicas comunitárias, ainda assim considero-me delas observador razoavelmente atento, tentando descodificá-las, procurando deixar daí brotar um conjunto de intuições, indicadoras de um projeto de território. Dialogar essas leituras dos sinais dos tempos, parece-me um imperativo de consciência, em fóruns mais ou menos informais, motivado apenas (para já) pelo simples ímpeto do exercício da cidadania. No tempo que nos é dado viver, parece-me que, não sem risco mas despretensiosamente, o desafio à reflexão ampla sobre o que é de todos e a todos diz respeito aumenta de relevância.
Sobre princípios
O espaço público sairá a ganhar se as propostas partidárias sujeitarem a escrutínio narrativas sobre uma ideia de freguesia projetada para um período de 20 anos. Num equilíbrio tensional, sempre complicado, precisamos da resposta ao urgente (descomplicada, tanto quanto possível), mas é inteligente que se crie a cultura do estrutural. O imediatismo ativista gera admiradores e fidelidades (ocasionais, por vezes), mas também desgaste, atenção mais ‘à árvore que à floresta’, transformação de toda a questiúncula em prioridade, com riscos e efeitos secundários. ‘Ir a jogo’ com um elenco de ideias estruturadas, estruturantes e de longo prazo deveria ser um critério de candidatura. Como tal ‘filtro’ não é possível a montante, resta responder com o voto democrático a essa ausência, que menoriza a atividade política partidária e, no limite, empobrece as pessoas e o território.
Sobre ética
Num território desta dimensão, em que todos se conhecem e se cruzam, parece perigoso e despropositado centrar o debate político-partidário na ética dos protagonistas candidatos. A comunidade (todos nós!) ganharia com um debate elevado, centrado nas ideias e descentrado das pessoas que as colocam em cena. Seria educativo e produtivo uma carta de compromisso assinada pelos dinamizadores dos projetos políticos a escrutínio, onde declarassem tolerância zero aos ‘ataques pessoais’, por via direta ou indireta, por meio das falanges arregimentadas. Veja-se a derrapagem não pouco habitual nas redes sociais! Este cuidado com a linguagem, sem privar a liberdade nem diminuir a fidelidade à verdade, daria dignidade e profundidade ao debate, sem o tornar refém de pormenores belicistas menores ou mesmo de inverdades em razão da tática ‘polítqueira’.
Sobre diferenças
É muito duvidoso que as habituais candidaturas autárquicas (e quem as apoia) se movam por questões ideológicas fundamentadas e estanques. Ao invés e em regra, os projetos que se sujeitam a escrutínio, e a sua operacionalização, movem-se e dinamizam-se pela criatividade de quem os pensa, pela capacidade de leitura da realidade dos protagonistas e pela visão de futuro que a sua sensibilidade empresta à ‘coisa pública’. Nesse sentido, as diferenças são mínimas, ainda que saudáveis e desejáveis. Facilmente um protagonista político subscreveria as propostas do seu adversário. Concordaremos, com relativo consenso, que os erros apontados àqueles são mais de omissão e (legítima) opção diferente e menos de discordância com a obra realizada ou pensada. Dada a escala de proximidade familiar do território (muito diferente da escola nacional), seria saudável que os projetos a escrutínio vencidos “se oferecessem“ aos vencedores e fossem por estes aceites, como serviço ao bem comum, que é, afinal, aquilo que importa. Manifestar esse desejo publicamente daria um sinal de adultez democrática e cívica. Nem tudo estará feito, nem tudo faltará fazer. Ninguém saberá tudo o que falta fazer, ninguém fará tudo o que falta fazer.
Sobre propostas
As diferenças de perspetiva sobre a realidade social, humana e geográfica são saudáveis e necessárias, como atrás se disse. Na realidade de uma freguesia como esta, todas as obras de infraestrutura de considerável dimensão carecem de financiamento nacional e/ou europeu. Pessoalmente, cansam-me as “feiras de ofertas”, como se a avaliação das propostas dependesse do ‘quem dá mais’. E duvido demasiado da virtuosidade da obsessão infraestrutural, despreocupada das pessoas e da dinâmica que terá de dar vida aos espaços edificados. Vamos ter sempre de atender ao pormenor, resolver problemas de urgência e fazer ‘consertos’ de manutenção. Gostaria de ver mais. Creio que precisamos de mais. Carecemos da tal visão de conjunto, de quem pense muito para lá do horizonte de uma legislatura e mais além do seu ‘quintal partidário’, abandonando a visão de que ele detém o exclusivo das boas produções. Seria benéfico a apresentação, por parte de cada lista concorrente, de uma equipa criativa e técnica, que estude candidaturas a fundos, que investigue boas práticas nacionais e estrangeiras, que sonhe e atraia parcerias estratégicas para o território. Diria que quem ganhar deve convidar a sociedade civil para engrandecer este aspeto.
Sobre o pós-eleições
Num território desta dimensão, pergunto-me como será o período pós-eleições. Vamos continuar a viver no mesmo local, a frequentar os mesmos espaços e momentos. Já tivemos tempo de aprender, que não valem a pena querelas personalizadas, que abdicam da discussão de ideias. E constrangem o futuro coletivo. O diálogo sobre a construção do espaço público não pode acontecer (apenas) com hiatos de quatro anos. É limitador e empobrecedor que as estruturas partidárias, por exemplo, capturem associações e outras instituições e estas se alimentem das tensões entre os diversos dirigentes. Todas vão necessitar de convocar lideranças do seio desta comunidade concreta e uma paz social adulta, educada e ética favorecerá a dinâmica e o enriquecimento da mesma. Deste ato eleitoral poderia resultar o desafio de reconfigurar as assembleias de freguesia, como fórum de diálogo e construção conjunta do espaço público. Promovendo a participação da comunidade, suscitando debates estruturados e acolhendo os contributos das várias sensibilidades. Está mais que visto que o mero edital divulgador está longe de surtir efeito e não há razão para ter medo de fazer diferente.
Sobre contributos pessoais
Considero, por fim, apesar de quanto se disse atrás, outro imperativo de consciência propor algumas ideias e, com elas, provocar algum diálogo. Sem pretensões de exaustividade, com consciência da parcialidade e de que nada é absoluto, concluo com um breve elenco.
Criação da comissão social de freguesia, como lugar concertado de observatório, encaminhamento e solucionamento das questões sociais urgentes e emergentes, colocando em diálogo um grupo de parceiros amplo, representativo da geografia e da comunidade da união de freguesias. Aqui seria imperiosa a atenção a problemas antigos e novos, como as dependências e as questões de género. Sim, o álcool também, apesar de socialmente legitimado. E sim, a violência de género, em amplas formas, também é socialmente silenciada ou legitimada. Perigosamente.
Criação da comissão de proteção e promoção da pessoa mais velha, para sinalizar, pensar e solucionar questões de envelhecimento ativo, de isolamento social e solidão existencial.
Instauração regular de uma assembleia de freguesia jovem, como forma de educação para uma cultura política democrática.
Oferta e dinamização de um programa cultural regular, como dimensão formativa essencial para o futuro de uma comunidade que pensa pela sua cabeça, com espírito crítico e criativo, e onde a liberdade, a igualdade e a fraternidade sejam valores alicerçantes. Adianto, neste aspeto a criação de um produto cultural estruturado ligado ao feriado da implantação da República, centrado na figura de António José de Almeida. Quantas freguesias (não) têm uma figura deste relevo!!! Temos obrigação de fazer muito mais que uma estátua!
Geminação com territórios da diáspora da freguesia, onde a população emigrante faz grande parte da sua vida, com vantagens económicas (não apenas financeiras) para o desenvolvimento do nosso território. Já agora, o mesmo para os territórios da nossa comunidade imigrante, como elemento importante para a sua integração e para a construção (antecipada) do território multicultural que inevitavelmente vamos ser no futuro.
Grato a quem decide e assume dar de si aos outros no empenhamento político, fico ao dispor.
[1] Um dos limites deste texto – assumido – é o conhecimento muito menor, da minha parte, da outrora freguesia de São Paio de Mondego.

Luís Francisco Cordeiro, licenciado em filosofia e mestre em


