Investigação da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto alerta para a presença generalizada de ftalatos no quotidiano e para os riscos concretos que representam para o crescimento e bem-estar de crianças e adolescentes.

Alterações hormonais confirmadas em mais de 5.600 crianças e adolescentes
Um estudo conduzido por investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), publicado na revista European Journal of Pediatrics, revelou que a exposição a ftalatos – plastificantes amplamente utilizados em produtos de uso diário – está associada a disfunções na glândula tiroide. A análise, baseada em dados clínicos de mais de 5.600 crianças e adolescentes de diferentes países, encontrou um aumento significativo dos níveis da hormona T3 e uma diminuição da T4 total, comprometendo o equilíbrio endócrino essencial ao desenvolvimento infantil.
Ftalatos presentes em embalagens, brinquedos, cosméticos e até nos alimentos
Os ftalatos são compostos químicos utilizados para tornar o plástico, especialmente o PVC, mais maleável. Contudo, são também encontrados numa vasta gama de produtos comuns: embalagens alimentares, brinquedos, lápis de cera, massa de modelar, perfumes, vernizes, champôs, e até em tintas. Estes plastificantes penetram no corpo humano por via oral, cutânea ou respiratória, estando já associados a problemas de fertilidade, alterações hormonais e, mais recentemente, a riscos para o neurodesenvolvimento.
Investigadora defende ação política e educativa urgente
Augusta Coelho, médica e docente da FMUP, sublinha que apesar dos avanços legislativos na União Europeia, os plásticos e microplásticos continuam omnipresentes: “Vivemos rodeados de plástico. Até os sumos das crianças vêm envoltos em plástico”, afirmou à Lusa. Para a investigadora, os pediatras devem assumir um papel educativo junto das famílias, sugerindo medidas práticas como o uso de recipientes de vidro ou aço inoxidável e a não utilização de plástico no aquecimento de alimentos.
União Europeia já proíbe vários ftalatos – mas mercado global dificulta controlo
A UE tem implementado restrições rigorosas ao uso de ftalatos, como o DEHP, DNBP, DIBP e BBZP, proibindo-os em brinquedos e produtos de puericultura. Outros, como o DINP e o DIDP, estão vedados em objetos que possam ser levados à boca. No entanto, Augusta Coelho adverte que “fora da UE, muitos desses produtos continuam disponíveis e chegam ao mercado europeu”, pelo que a fiscalização e a literacia do consumidor tornam-se essenciais.
Educação ambiental deve começar nas escolas
A especialista da FMUP defende que a proteção das crianças contra os microplásticos deve ser parte integrante da educação cívica: “Acho que isto deve ser falado nas escolas. Não sabemos ainda qual será o impacto, daqui a décadas, desta exposição elevada a ftalatos.” E acrescenta: “Tal como hoje se conversa sobre segurança automóvel, é hora de motivar pais e educadores a adotarem comportamentos protetores face aos riscos químicos invisíveis.”
Relevância local: implicações para a população de Penacova
No concelho de Penacova, onde a educação ambiental tem vindo a ganhar destaque nas escolas do 1.º ciclo e no tecido associativo local, os resultados deste estudo ganham relevância acrescida. O Município de Penacova, que tem apoiado políticas de sustentabilidade e participado em campanhas de reciclagem e redução do plástico, poderá reforçar a articulação com centros de saúde, escolas e IPSS na sensibilização para este problema. De acordo com dados recentes da Direção-Geral da Saúde, a exposição ambiental a disruptores endócrinos continua a ser um desafio em meio rural, onde a perceção do risco é muitas vezes reduzida.
Conclusão: um apelo à responsabilidade intergeracional
A investigação da FMUP reforça um alerta antigo, agora sustentado por dados estatísticos robustos e publicados numa revista científica de referência. Para Augusta Coelho, não se trata apenas de uma questão médica, mas de um imperativo ético: “É tempo de pensarmos, enquanto sociedade, no que vamos oferecer às gerações futuras.”




