Estreia do ciclo “Capela Com Ventos de Cultura” alia cinema e património num novo conceito cultural descentralizado.
Cinema oriental inaugura ciclo cultural em espaço sagrado
No passado sábado, 5 de julho, a pequena capela de São José, situada em São Miguel de Poiares, acolheu a projeção do filme O Clã das Adagas Voadoras, do realizador chinês Zhang Yimou, marcando o arranque do projeto “Capela Com Ventos de Cultura”. Esta foi a primeira atividade cultural organizada naquele espaço, numa parceria entre o futuro alojamento local “ComVento em São Miguel” e o grupo Cinéfilos de Poiares, que promove sessões mensais de cinema com o apoio da Câmara Municipal de Vila Nova de Poiares.
A sessão inaugural decorreu com lotação esgotada, transformando o ambiente austero e intimista da capela num verdadeiro palco cinematográfico. A acústica do espaço, bem como a sua configuração arquitetónica, favoreceram uma experiência sensorial distinta, sublinhada pela riqueza estética do filme projetado, um dos marcos do cinema wuxia, com direção de fotografia premiada e cenografia meticulosamente coreografada.
Património recuperado com vocação contemporânea
A capela integra a antiga Casa dos Godinhos, um imóvel de valor patrimonial reconhecido, que está em processo de reconversão para alojamento turístico sob o nome “ComVento em São Miguel”. A intervenção respeita a traça original da construção oitocentista, caracterizada por linhas simples e materiais locais, como a cantaria da serra de Poiares e o reboco de cal artesanal.
Este reaproveitamento funcional do espaço insere-se numa tendência crescente em Portugal de reabilitação do património edificado com fins culturais e turísticos, promovendo um modelo de desenvolvimento sustentável assente na memória e na inovação. A ligação entre cultura e património é aqui reforçada por uma abordagem curatorial que respeita o simbolismo religioso do local, sem o descaracterizar.
Nova programação com ambição artística e social

O projeto “Capela Com Ventos de Cultura” visa transformar este espaço num polo multidisciplinar de criação, fruição e debate. A programação prevista inclui cinema, música, teatro, circo contemporâneo e artes plásticas, a par de iniciativas de cariz social e educativo, como fóruns comunitários, oficinas temáticas e tertúlias.
Com um modelo de curadoria colaborativa, os organizadores propõem-se trabalhar com artistas locais e nacionais, associações culturais, escolas e centros de investigação, promovendo uma rede de criação descentralizada que valorize os territórios do interior. O projeto segue boas práticas já testadas noutros pontos do país, como o Festival Bons Sons (Tomar) ou o Centro de Arte de Águeda, onde a integração territorial e a participação cívica têm demonstrado impacto positivo em indicadores de coesão social.
Dinâmicas culturais como motor de desenvolvimento local
A iniciativa está alinhada com as estratégias de regeneração cultural e económica promovidas por entidades locais, nomeadamente a Câmara Municipal de Vila Nova de Poiares e as associações culturais da região, como a ADIP. O investimento em cultura tem sido um dos pilares do desenvolvimento do concelho, conjugando turismo, educação e inclusão social.
Estudos da Direção-Geral das Artes e do Observatório Português das Atividades Culturais demonstram que o impacto de projetos culturais em zonas de baixa densidade populacional se reflete positivamente no aumento da autoestima comunitária, no combate ao isolamento e na dinamização do tecido económico local — dados que reforçam a relevância desta aposta.
Cultura em diálogo com a memória e o futuro

A projeção de um clássico do cinema asiático num templo cristão convertido em sala cultural é mais do que um gesto artístico: é um símbolo de encontro entre tempos, culturas e visões do mundo. Em São Miguel de Poiares, este cruzamento ganha especial significado num contexto de resistência demográfica e renovação do tecido social.
Ao lançar esta primeira pedra simbólica, os organizadores apontam para um futuro onde a arte e o pensamento crítico terão lugar garantido nas margens do mapa. “Capela Com Ventos de Cultura” surge, assim, como um sopro renovador que convida à contemplação, ao encontro e à transformação.
