Obra artesanal da família Rodrigues é símbolo vivo do transporte tradicional entre a serra e a cidade.

A memória de quando o rio Mondego foi uma das principais vias de transporte de mercadorias e pessoas entre a Serra do Açor e a cidade de Coimbra ganhou novo fôlego com a inauguração hoje, no Parque Manuel Braga, da nova barca serrana, em dia de feriado municipal de Coimbra. A embarcação, construída pela família Rodrigues, presta homenagem à cultura fluvial da região e à arte tradicional dos barqueiros, que durante séculos sustentaram o comércio local e regional.

Barca serrana: da serra para a cidade

Historicamente, a barca serrana foi peça central na economia da região Centro. Entre os séculos XVII e XIX, o rio Mondego foi navegável até localidades como Penacova e, em alguns períodos, até às zonas mais altas do concelho de Arganil, funcionando como rota para o transporte de milho, lenha, vinho e outros produtos essenciais. As barcas, geralmente de fundo chato para navegar em águas pouco profundas, eram também fundamentais no transporte de pessoas, constituindo o único elo seguro e rápido entre comunidades isoladas.

Em entrevista ao Notícias de Coimbra, Paulo Rodrigues, de 53 anos, contou que a ligação da sua família às barcas serranas atravessa várias gerações:

“O meu avô já era barqueiro, fazia o transporte de milho, lenha, vinho, entre outros produtos. Era o meio de transporte da altura entre a serra e a cidade.”

Uma tradição retomada e preservada

A tradição familiar conheceu um novo impulso em 2006, quando Paulo e o seu pai, Valdemar Rodrigues, hoje com 73 anos, aceitaram o desafio de construir uma réplica funcional de uma barca serrana. Durante seis anos, essa embarcação proporcionou passeios turísticos no Açude de Coimbra, até ser vandalizada, o que levou à sua perda irreparável.

Determinados a não deixar a tradição desaparecer, pai e filho lançaram-se na construção da nova barca serrana agora exposta no Parque Manuel Braga. Embora esta seja estática, segue fielmente os métodos tradicionais de construção naval.

“É uma alegria construir isto com o meu pai. Dá muito trabalho, mas é um orgulho ver o resultado final”, afirma Paulo Rodrigues, destacando que a nova barca é, sobretudo, “para contar essa história” às gerações mais novas.

Obra artesanal com rigor técnico

A construção da barca serrana obedeceu a critérios técnicos rigorosos. Para o casco, foi escolhido pinho, madeira abundante na região, leve, mas resistente à água, enquanto a estrutura interior recorreu ao carvalho, conhecido pela elevada densidade (em média, 0,75 g/cm³) e durabilidade. As tábuas passaram por um processo de secagem prolongado para evitar deformações e prolongar a vida útil da madeira, um detalhe fundamental em construções náuticas.

Foram necessárias cerca de duas semanas de trabalho, com jornadas diárias de cerca de nove horas, para concluir a embarcação, contando com o esforço conjunto de três pessoas: Paulo, Valdemar e António Alves, colaborador habitual da família.

Apesar de a barca exposta não navegar, a tradição mantém-se viva no rio Mondego. Outra barca, construída igualmente pela família Rodrigues, continua a realizar passeios turísticos sob a operação de uma empresa de Penacova, promovendo a memória fluvial e atraindo visitantes para experiências culturais e paisagísticas.

Valdemar Rodrigues sublinha a importância desta continuidade:

 “É bom saber que ainda há barcas a andar no rio, mesmo que esta fique em terra.”

Identidade local e património cultural

Mais do que simples objeto de exposição, a barca serrana agora presente no Parque Manuel Braga constitui um testemunho físico da história económica, social e cultural de Coimbra e da região Centro. Representa gerações de homens e mulheres cuja vida esteve profundamente ligada ao rio Mondego.

Além das barcas, a família Rodrigues dedica-se a outras obras artesanais em madeira, como a construção de réplicas de moinhos de vento, perpetuando conhecimentos tradicionais e técnicas quase em risco de desaparecimento.

“A maior parte das novas gerações nem sabe o que era o trabalho da barca. Esta aqui é para contar essa história”, remata Paulo Rodrigues.

A barca serrana está agora acessível ao público no Parque Manuel Braga, convidando coimbrenses e visitantes a conhecer, de perto, um símbolo identitário da região e a memória viva de um tempo em que o rio Mondego era, verdadeiramente, a estrada entre a serra e a cidade.

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