Quase um em cada cinco jovens abandona estudos sem concluir nível de ensino.

Cerca de 17% dos jovens portugueses entre os 15 e os 34 anos abandonaram pelo menos um nível de ensino sem o concluir, e metade destes jovens interrompeu estudos no ensino superior, segundo dados divulgados esta segunda-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). As conclusões integram o módulo de 2024 do Inquérito ao Emprego, dedicado ao tema “Jovens no mercado de trabalho”, que analisou trajetórias escolares interrompidas, motivos para a desistência e a relação entre formação académica e exigências profissionais.
Ensino superior regista maior taxa de abandono
Dos jovens que interromperam percursos escolares, metade fê-lo no ensino superior, refletindo um fenómeno que há muito preocupa investigadores e decisores políticos. O abandono universitário não é apenas uma realidade portuguesa: dados da Eurostat indicam que, em 2022, a taxa média de abandono no ensino superior na União Europeia rondava os 20%, variando significativamente entre países.
No caso português, o INE destaca que 30,1% dos jovens apontaram razões financeiras ou necessidade de trabalhar como principal causa para deixar os estudos, enquanto 28,2% referiram que o curso era demasiado difícil ou não correspondia às suas expectativas. Estes dados alinham-se com estudos académicos que mostram como os fatores socioeconómicos e a adequação dos cursos às motivações pessoais influenciam decisivamente a permanência no ensino superior.
Experiência profissional integrada no percurso escolar
Apesar do abandono escolar, alguns jovens conseguiram manter contacto com o mercado de trabalho através de percursos formativos profissionalizantes. No grupo dos jovens com ensino superior incompleto, 12,4% concluíram pelo menos uma qualificação vocacional ou profissionalizante ao nível do ensino secundário ou pós-secundário. Estes percursos incluem estágios ou formações práticas integradas no currículo escolar, um fator frequentemente associado a maiores taxas de empregabilidade, segundo relatórios europeus como o Education and Training Monitor da Comissão Europeia.
Competências acima das exigências profissionais
O estudo do INE revela ainda um desajuste significativo entre qualificações académicas e funções profissionais. Entre jovens empregados ou com experiência profissional, 20,8% afirmaram ter um nível de escolaridade superior às exigências do trabalho que desempenham ou desempenharam, enquanto 22,7% sentem ter mais competências do que aquelas que as suas funções exigem.
Este fenómeno, conhecido como overeducation ou sobrequalificação, é alvo de preocupação em vários países europeus, dado o desperdício de capital humano e o impacto potencial na motivação e na produtividade dos jovens trabalhadores. Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), este desajuste afeta cerca de um quarto dos jovens trabalhadores a nível mundial.
Educação ainda é aposta relevante para empregabilidade
Ainda assim, a formação continua a ser um trunfo importante para a integração profissional. Entre os jovens que concluíram o ensino secundário ou níveis superiores, 41,3% consideraram que a sua área de educação e formação corresponde total ou quase totalmente às exigências do trabalho que exercem. Este alinhamento é visto como crucial para reduzir o risco de desemprego e para aumentar a estabilidade profissional, sobretudo num contexto económico marcado por rápidas mudanças tecnológicas e exigências de novas competências.
Os dados agora divulgados pelo INE contribuem para o debate sobre políticas públicas em educação e emprego juvenil, num país onde, apesar de avanços significativos na redução do abandono escolar precoce — que passou de cerca de 30% em 2000 para 5,9% em 2023, segundo a Eurostat — persistem desafios relevantes na adequação da formação às necessidades do mercado de trabalho.
Para mais detalhes, o relatório completo do INE pode ser consultado no Portal do Instituto Nacional de Estatística.











