Em 2024, mais de 35 mil pessoas foram apoiadas por programas sociais da CVP, que confirma no terreno a realidade retratada no estudo “Portugal, Balanço Social 2024”: pobreza estrutural, vulnerabilidade feminina e uma crise habitacional sem precedentes.

O relatório “Portugal, Balanço Social 2024” (Carvalho et al.) retrata, com rigor estatístico, uma realidade profundamente humana — uma realidade que a Cruz Vermelha Portuguesa (CVP) vive e enfrenta diariamente em 159 Estruturas Locais e 8 Organismos Autónomos espalhados pelo território nacional. Com dados que vão muito além da abstração académica, o ano de 2024 confirmou a existência de uma nova face da pobreza: feminina, envelhecida, isolada, e invisível.
A pobreza que se vê… e a que se sente
Com mais de 35.000 pessoas apoiadas através do programa de apoio alimentar, a CVP reforçou uma intervenção que, para muitas famílias, significa o único acesso regular a bens alimentares. O Cartão DÁ CVP, que substitui os cabazes tradicionais por cartões recarregáveis com autonomia de escolha, registou um aumento de 21% nos beneficiários e mais de 626 mil euros recarregados — um modelo que promove dignidade e evita a estigmatização. A maioria dos beneficiários são mulheres e famílias monoparentais, o que corrobora a vulnerabilidade de género apontada pelo relatório nacional.
Crise habitacional: números que empurram para a rua
Os apoios atribuídos pelo programa Mais Feliz — focados no pagamento de rendas e cauções — cresceram 47,6% face a 2023, reflexo direto da pressão do mercado habitacional. Contudo, o número de pessoas com acesso a alojamento caiu 31%, mostrando o desfasamento entre necessidade e oferta. A par da habitação, a pobreza energética revelou-se crítica: 20% da população vive em privação térmica durante o inverno. A resposta da CVP incluiu o lançamento de um projeto-piloto para apoiar famílias sem meios para aquecer a casa.
Violência doméstica: um fenómeno transversal
Em 2024, 740 mulheres foram acolhidas em estruturas de emergência, um aumento de 13,5%. A maioria apresenta formação superior e, em muitos casos, são cidadãs estrangeiras — o que evidencia que a violência doméstica atravessa fronteiras sociais e culturais. A procura por apoio jurídico e psicológico aumentou 40,8%, revelando uma confiança crescente nas estruturas de suporte da CVP.
A epidemia silenciosa: solidão
O serviço de Teleassistência atendeu mais de 32.000 chamadas, das quais 57% foram motivadas por solidão. Foram ainda efetuadas 145.000 chamadas proativas — uma linha de cuidado essencial, sobretudo entre os mais idosos. Este fenómeno tem ganho relevância científica, sendo apontado por estudos do National Institute on Aging e da OMS como fator de risco comparável ao tabaco e à obesidade em termos de impacto na saúde.
Pessoas em situação de sem-abrigo: o rosto mais visível da exclusão
As equipas de rua da CVP registaram um aumento de 76% no número de pessoas apoiadas e mais 34% de refeições servidas diariamente. Apesar disso, a falta de habitação acessível continua a ser uma barreira crítica à reintegração social, tornando esta população refém de soluções temporárias e sobrecarregando os recursos de emergência.
Mais do que resiliência, a urgência de meios
O Presidente Nacional da CVP, António Saraiva, sublinha que a exclusão já não está apenas nas ruas — “mas nas casas, nas mesas vazias, na solidão”. E deixa um apelo direto:
“A Cruz Vermelha está no terreno. Todos os dias. Mas não o pode fazer sozinha. Precisamos da sociedade civil, das empresas, das entidades públicas. Precisamos de meios. Só assim transformamos solidariedade em dignidade.”
A CVP reafirma o seu compromisso com respostas inovadoras e sustentáveis, apostando na capacitação técnica das suas equipas e no desenvolvimento de novas áreas de intervenção: saúde mental, integração de migrantes, combate à pobreza energética e inclusão social efetiva.
A #APortaAoLado continua aberta
Em 2024, a Cruz Vermelha Portuguesa provou que está — e continua — ao lado das pessoas. Num país onde a pobreza já não tem uma só face, a resposta tem de ser estruturada, científica e humana. A solidariedade, quando organizada e apoiada, transforma-se em política pública eficaz — e em esperança.

