David Gonçalves de Almeida

Em 1869 realizou-se na cidade de Coimbra a designada “Exposição Distrital de Indústria Agrícola e Fabril e de Arqueologia”, promovida pela Associação dos Artistas de Coimbra, organização instituída no dia 8 de Dezembro de 1862 sob a presidência de Olympio Nicolau Rui Fernandes. A Imprensa da Universidade publicou, ainda nesse ano, um circunstanciado relatório do certame. Analisando a participação do nosso concelho vamos encontrar curiosas apreciações a respeito da actividade económica na segunda metade do século XIX.

À época era Administrador do Concelho de Penacova Joaquim Correia de Almeida (sogro do Conselheiro Alípio Leitão). Recém empossado, fez questão de o referir num ofício de 30 de Junho de 1869. “Tendo há pouco tomado conta da administração”, sublinhava que o que enviava para exposição não era “como desejava, mas como [fora] possível obter em tão curto espaço de tempo”. Realça, todavia, o envio do “foral original, dado por el-rei D. Manuel, e um exemplar do desenho das armas da Câmara.”

As mostras relativas ao concelho de Penacova estenderam-se a um vasto conjunto de géneros agro-alimentares, produtos florestais, amostras da indústria extractiva (mármore e cal) e também alguns exemplares enquadráveis na “secção especial de arqueologia e de objectos raros, naturais, artísticos e industriais”

A título individual marcaram presença: Emídio Maria da Fonseca, de Lorvão, com “amostras de palitos para os dentes”; arcipreste e prior de Lorvão, com milho, feijão, batatas, alhos e mel; administrador do concelho de Penacova (Dr. Joaquim Correia de Almeida), não só com uma “amostra de mármore da pedreira de Sazes”, mas também com amostras de cereais (trigo, cevada e milho, contempladas com menções honrosas), vinhos e aguardentes (tinto, mesa comum,1868, força alcoólica 13,1º; branco, mesa comum, 1868, f. alc. de 14,4º e uma “aguardente baixa”, gr. 16,5º. Ainda mais: azeite, feijão, tremoço, grão de bico, fava, ervilha, sementes de linho, batatas e nozes.

Não sendo do concelho, mas tendo relação com o Mosteiro de Lorvão, vamos encontrar “uma meada de linha fina, manufacturada no convento de Lorvão, cedida por Abel Augusto de Campos e Paiva, e “dois pratos do serviço de Santa Teresa, rainha de Leão e reformadora do mosteiro de Lorvão, e de Santa Sancha, fundadora do mosteiro de Celas de Coimbra, filhas de el-rei D. Sancho I, segundo rei de Portugal.” apresentados por António Maria Seabra de Albuquerque, pertencentes ao Marquês de Sousa Holstein.

No relatório da exposição aparece como tendo estado exposto, em nome da “Câmara Municipal do concelho de Penacova”, o referido “Foral da vila de Penacova”, que apresentava uma “encadernação antiquíssima.” Sobre este documento já sabemos que esteve quase perdido e mais uma vez isso se confirma aqui. A nota de rodapé pouco abona em nosso favor ao escrever-se que era de “lastimar o pouco cuidado com que este livro tem sido tratado”.

A remessa da Câmara de Penacova incluía também amostras de “palitos para os dentes” e de “cal em pedra”, de “varas de castanho”, de “pau de castanho”, de madeira de pinheiro, de cortiça e ainda “amostras com três qualidades de palha de milho: bandeira, folha e capa. Uma cesta redonda e uma “maniota de carqueija” completavam a lista.

Sobre cada um destes exemplares, o relatório regista importantes considerações que merecem uma leitura atenta.

Referindo-se aos palitos escreve-se o seguinte: “Foram premiados na exposição internacional de Paris em 1855. É uma boa indústria; e podia ser óptima, se não fosse a fraude de alguns paliteiros, que a desacreditaram no país e no estrangeiro, para onde se pediam já muitas encomendas no valor de alguns contos de réis. Hoje está em decadência. Emprega-se no fabrico a vergontea de salgueiro branco e choupo de dois anos.

No que diz respeito à cal podemos ler que “há neste concelho diferentes fornos de cal, muito superiores aos de Coimbra”. Informa-se que a amostra em exposição “é do forno de Manuel dos Santos Laço,de Sernelha, freguesia de Figueira de Lorvão, que a tem vendido no forno a 2$300 réis o metro.”

Sobre a exploração da madeira de castanheiro, neste caso as “varas de castanho”, salienta-se que havia “muitos soutos nesta freguesia e concelho”, que produziam “estas varas, e se chamam de talhadia. Aplicam-se para cestas, arcos de diferentes vasilhas, para varejar azeitona, e para os carreiros. Cortam-se de 4 em 4 anos.” A madeira de “castanho” era abundante sendo “consumida em vasilhas para vinho e em construções de casas.” A madeira de castanheiro era também usada na cestaria. De Penacova estava patente uma “cesta redonda”, feita por José Joaquim Carvalho. “Pelo consumo, que se faz em Coimbra e noutras localidades, de cestas de todos os tamanhos e feitios, além das que se vendem na localidade, se pode ajuizar das muitas pessoas que se empregam nesta indústria, sendo deste concelho o maior número delas. Emprega-se no fabrico a vara de castanho dos soutos de talhadia.” – explicita-se.

No que respeita à madeira de pinheiro é referido que “foi este concelho um dos mais abundantes em madeiras deste género”. Entende-se que a sua sementeira “ainda podia dobrar muitas vezes, pelas muitas serras que contêm”. Aponta-se-se também que à época estava “quase esgotada a boa madeira”, sendo “a causa da sua diminuição”, as muitas construções novas, a construção de barcas e a exportação para Lisboa e para fora destas madeiras e lenhas”.

Quanto à cortiça: “Empregam-se neste concelho muitos indivíduos nesta indústria, tirando-a não só dentro do mesmo, mas indo-a procurar a grandes distâncias. Fazem-na conduzir para a borda do rio, onde a preparam e enviam para o Porto ou Figueira. Também se aplicam para cortiços de abelhas, em que em tempo abundou muito este concelho, mas que os ladrões quase têm acabado. Também dão bolota os sobreiros, à semelhança da dos carvalhos.”

Relativamente à amostra de três qualidades de palha de milho: bandeira, folha e capa, é curiosa a descrição feita. Considera-se que é “neste concelho onde se aproveitam melhor as palhas de milho”. Explica-se o processo: “Tira-se primeiro a bandeira, desfolha-se depois, ficando a final a espiga na capa, que na ocasião própria se conduz para a eira e se escamisa e seca, sendo a mesma capa óptimo alimento do gado e para outras aplicações.” Nas ínsuas, “nas margens do Mondego, donde é a que se expõe, se criam milheiros de 4 e 5 metros de alto”, o que revela uma excelente produtividade. Critica-se que essas potencialidades não fossem mais aproveitadas, escrevendo-se que era “muito de lastimar que as margens do rio” não se achassem “bem aproveitadas, andando perdidos grandes valores, e muito prejudicada a navegação.”

Por último, a referência, à “maniota de carqueija” em exposição. Comenta-se deste modo: “Parecerá esta amostra de pouca importância” – comenta-se no relatório – mas quem considerar que é quase este concelho que fornece a carqueija e lenha que se consome nos diferentes fornos e cozinhas da cidade de Coimbra há-de conhecer que ainda é d’alguma importância tal indústria.”

A exposição esteve organizada por secções: Indústria Extractiva, Agricultura, Arte e Arqueologia. Esteve patente em espaços pertencentes ao mosteiro de Santa Cruz de 2 a 31 de Julho e de 16 a 31 de Outubro.

David Gonçalves de Almeida 

 

A seguir, pode visualizar todo o documento.

Artigo anteriorAssociação Aldeias de Portugal e CCDRC assinam protocolo de colaboração com a Diputación de Cáceres
Próximo artigoChuva forte regressa a Coimbra a partir de domingo

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui