David Gonçalves de Almeida

A história do Mosteiro de Lorvão é feita de muitos episódios áureos, mas é também sabido que momentos houve em que a negatividade da devassidão moral e da morte em massa afectaram a vida do cenóbio cisterciense. Hoje falaremos de doenças do corpo. As polémicas da corrupção moral ficarão para outro dia.

Em meados do século XIV também aqui se fez sentir o terrível efeito da Peste Negra (doença em que as extremidades do corpo, gangrenadas, ficavam “negras”)  que atingiu a Europa de 1347 a 1351, vinda da Ásia e provavelmente transportada pelas pulgas que infestavam os ratos que pululavam nos navios mercantes.

Estima-se que no século XIV a população mundial, que seria de cerca de 475 milhões, registou um decréscimo de 100 milhões. A Europa  demorou cerca de 200 anos a recuperar o nível demográfico anterior. Sabe-se hoje que a doença é provocada pela bactéria Yersinia pestis, que pode revestir a forma de peste bubónica (a de 1348), de peste septicémica e de peste pneumónica.

Escreve Gama Barros, na sua História da Administração Pública em Portugal (1896) que “das epidemias que flagelaram o reino até ao fim do século XV, a que deixou nos monumentos históricos maior número de vestígios da sua mortífera passagem foi a peste geral de 1348. Alcançando a Europa no Outono de 1347, invadiu rapidamente em 1348 todas as nações e em todas ficou assinalada por espantosa mortandade. Em Portugal o rasto que se descobre ainda da existência do flagelo indica-nos que não terá sido aqui mais benigno.”

O caso do Mosteiro de Lorvão, onde a Peste Negra vitimou, naquele ano de 1348, a maioria das monjas é referido em diversos estudos. António Baião falou dele em 1944 no artigo da revista O Instituto “As Freiras de Lorvão e a Peste de 1348”. Igualmente Tânia Sofia L. Antunes, na dissertação de mestrado Lorvão: um Mosteiro e um Lugar (2013) nos fala deste trágico momento da vida do mosteiro, salientando que “antes da peste de 1348” se contava um total de “cinquenta e quatro monjas em Lorvão, mencionadas na documentação como tendo vivido no mosteiro durante esta centúria, sendo que apenas nove são referenciadas entre 1349 e 1400.”

Assim, a comunidade monástica, que contabilizaria naquela época cerca de meia centena de religiosas, quase desapareceu, vendo-se reduzida a menos de uma dezena de monjas. A documentação da época, ao referir esses tempos  de “pestilença”, sublinha o facto de em Lorvão ter morrido “a maior parte das donas que avia no dicto moesteiro”.  Luís Miguel Rêpas na sua tese de doutoramento Esposas de Cristo: as comunidades cistercienses femininas na Idade Média atesta documentalmente a morte de duas monjas, Berengária Peres e Teresa Vasques, no contexto da Peste Negra.

Atingindo toda a população, a epidemia grassou fortemente também noutros mosteiros. Em 1348 o  Mosteiro de Seiça, no concelho da Figueira da Foz, (cujas obras de requalificação vão ser inauguradas no próximo dia 20) terá perdido, em apenas dois meses, 150 pessoas, entre monges e pessoal auxiliar. Em relação a Alcobaça, também Frei António Brandão faz referência a igual número de vítimas.

Perante tal desgraça, a abadessa de Lorvão, D. Guiomar Panha (1344-1349) remeteu uma carta ao rei onde comunicava que havia falecido a maior parte das freiras do dito mosteiro e em virtude das disposições legais haviam ido para  hasta pública “as propriedades pertencentes às finadas”. Fazia também um pedido: alargamento do prazo para fazer esses negócios em condições mais vantajosas.

Os tempos não eram propícios a compra e venda de terras. Um documento lavrado em Coimbra com data de 28 de Janeiro de 1350 virá reforçar esse ponto ao dizer que “como a terra era minguada das compainas pela Pestelença que Deus deu” as “herdades e poseções rendiam muijto menos que ante rendjam per razom da dicta Pestelença”. (Cf. M. J. Barroca, “A Peste Negra na Epigrafia Medieval”).

Refere o documento arquivado na Torre do Tombo e analisado por A. Baião que,  “por desgraça”, essas propriedades – que se dispersavam por “desvairadas terras” – tardavam a ter compradores interessados. Atendendo a isso, D. Afonso IV prolongou o prazo através de diploma de 4 de Novembro, alargando por mais cerca de meio ano o período para a respectiva venda, isto é, até à Páscoa seguinte.

Havendo necessidade de enviar a dita carta a alguns lugares e receando a irremediável perda (pela água ou pelo fogo) do documento original passado pelo rei, apresentou-se Martim Peres, procurador de D. Guiomar, em Coimbra, perante Afonso Pires Peixeiro, Alvasil, e na presença do Tabelião Afonso Vicente, requerendo uma “pública forma” do valioso documento.

Documento que, salienta António Baião, nos dá “uma notícia curiosíssima, a da morte da maioria das freiras de Lorvão, vitimadas pela terrível epidemia que devastou a Europa em 1348 e se reflectiu tragicamente em Portugal.”

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