David Gonçalves de Almeida

Como todos sabemos, um almanaque é uma publicação anual que inclui um calendário e informações variadas, com indicação de datas comemorativas e festividades, signos do zodíaco, previsões astrológicas e astronómicas, eclipses, estações do ano, fases da lua e previsões sobre o estado do tempo. Geralmente mete também adivinhas, anedotas, rimas e curiosidades. Dos muitos que se publicaram, persistem os populares Borda d’Água e Seringador, que ainda hoje se vendem por aí.
Quase todos os almanaques começavam com uma introdução intitulada “Juízo do Ano”. O texto premonitório, por vezes de carácter jocoso, terminava com a sacramental declaração “Deus Super Omnia”, não “fosse o diabo tecê-las”. Esta ressalva podia vir a ser útil como atenuante perante possíveis acusações de heresia dos responsáveis pela publicação. É que nem sempre houve liberdade de expressão, é bom não esquecer, e as previsões astrológicas, por exemplo, essa “ousadia” em adivinhar o futuro (que só a Deus pertence) nem sempre foi bem vista pela igreja nem pelos poderes instalados.
Foi no meio de muitos recortes de jornais que nos apareceu este “Juízo do Ano” para 1944, extraído do Almanaque da Juventude / Almanaque de Santa Teresinha e publicado no jornal Notícias de Penacova. Sendo que há 80 anos ainda não tinha terminado a Segunda Guerra Mundial pode ser estranho que aí nada se refira a esse respeito e, bem pelo contrário, se entre num registo humorístico, com pequenos aspectos de mau gosto, mas compreensíveis atendendo à época. Talvez para aliviar alguma tensão desses tempos de guerra, ou mesmo para evitar falar do assunto, numa época em que havia temas tabu, este Juízo do Ano acaba por ter alguma graça.
E, nestes tempos igualmente tensos que vivemos (tal como em 1944) aliviemos também um pouco a pressão que nos vai sufocando e passemos os olhos por esse texto:
“Todos os autores, antigos, modernos e futuros, concordam em afirmar que sempre é melhor ter juízo do que ser maluco, Ignora-se o grau de juízo que terá o novo ano, o que pode garantir-se é que a humanidade continuará bastante falha deste artigo, que desapareceu do mercado.
Grandes acontecimentos se desenrolarão no mundo, durante o ano de 1944.
Os ébrios andarão sempre com sede, mas só poderão beber duas vezes por dia: no Verão, é às refeições e fora das refeições; no Inverno, é quando chove e quando não chove. Os coxos mancarão e os marrecas não andarão direitos.
A neve será fria. A água quente, logo que atinja 100 graus, começará a ferver. O que admira é como ela sobe quando chega aos 100 graus… Em certos dias choverá tanto, que até os cães beberão de pé.
O sangue dará serrabulho; da farinha se farão as papas e das uvas vinho novo.
Apesar da carestia da vida, nem todos os artigos subirão; a água, por exemplo descerá. E as ladeiras também serão todas a descer.
Haverá Domingos à semana, como haverá Joaquins, Manuéis e Josés.
As noites serão amigas das pessoas feias. O dia seguinte virá sempre depois da véspera, ainda que chova. Quando, ao sábado à noite, se virem umas nuvenzinhas sobre o poente, no dia seguinte é domingo.
Um quilo de palha pesará tanto como um quilo de chumbo. Um escudo valerá 10 tostões, e meio cento de figos serão 50.
Os ociosos rezarão muito por alma de quem inventou o descanso. Os curiosos gostarão de saber tudo. Os velhos serão divididos em duas classes: calvinistas e albigenses. É o mesmo que dizer: os calvos e os dos cabelos brancos.
Haverá no mundo homens grandes e grandes homens. Os grandes homens, porém, nem sempre serão homens grandes. E todos começarão por ser pequenos! Haverá homens célebres e homens acanhados. Os primeiros são os que perdem a vergonha.
As crianças nascerão desdentadas e com cinco dedos em cada mão. Os meninos que não comerem a sopa ao almoço e ao jantar, não crescem e não serão bonitos.
Os estudantes dorminhocos aprenderão mal. As pessoas que atingirem vinte e um anos, ficarão de maioridade.
As mulheres a quem morrerem os maridos ficarão viúvas. As pessoas que falecerem, passarão a defuntas; as que dormirem, terão os olhos fechados; as que rirem, abrirão a boca; as que correrem muito, andarão depressa. Todavia, às vezes, quanto mais depressa, mais devagar. As pessoas fracas, terão pouca força; os desengraçados, não terão graça nenhuma; mas os desgraçados, às vezes, têm graça. Por isso se diz: pobrete mas alegrete!
O melhor hotel será a casa dum amigo. Se alguém nos oferecer a sua mesa, nos tempos que correm, aceita-se logo à primeira, está claro!
Continuará a moda de andar em cabelo, pela razão de que hoje em dia há pouco quem tenha cabeça – e quem não tem cabeça, não precisa de chapéu, diz a Sabedoria das Nações. As senhoras usarão na cabeça os mais variados e esquisitos objectos: caçoilas, testos, tachos de cauda, redes finas e redes de galinheiro, fitas, faixas, rodilhas, flores, penas, etc., etc., etc.
Na luta pela vida, continuarão os homens a empurrar-se uns aos outros.
Quem morrer em 1944 não chegará ao ano seguinte e cinco minutos antes de morrer ainda estará vivo. Depois de passar à eternidade, não voltará atrás. Louco é, pois, quem não se prepara para dar esse passo.
De resto, neste mundo tudo terá remédio: e o que o não tiver, remediado está, porque Deus Super Omnia. “
David Gonçalves de Almeida












