Marília Alves
O ano a terminar, o país “sem rei nem roque”, a pobreza a aumentar, e eu vou falar de quê? Dos medíocres. Do império da mediocridade que nos domina. Do que há de medíocre na vulgaridade das ações e do discurso, na ignorância por opção, na distorção da realidade, na mentira como tática, no atraso das ideias. A presunção e a vaidade são, na grande maioria das vezes, a máscara da mediocridade. E como presunção e água benta cada um toma a que quer ou de que precisa, o medíocre precisa desses dois ingredientes em quantidade elevada, pois fazer de conta é a sua principal satisfação. E o problema não são os medíocres, mas o espaço que ocupam, porque a mediocridade junta-se em bando.
Um líder medíocre premeia e valoriza um grupo de subordinados medíocres. Não é uma equipa, mas sim, uma pandilha. E a sociedade necessita de medíocres que não ponham em questão os princípios fundamentais e eles aí estão em lugares de topo: dirigem os países, os ministérios, os serviços, as grandes empresas, etc., etc… Temos belos exemplares no nosso País. As pessoas apoiam e gostam dos medíocres porque não as colocam em causa e lhes lambem as botas. Em todas as entidades/empresas existem “pessoas capazes e genuínas”, e um elevado número de medíocres. Enquanto os primeiros depositam as suas energias e esforços no trabalho, inovação e na conquista, os demais querem a monotonia das rotinas. Mesmo que isso implique boicotar o trabalho dos outros. Pessoas excecionais servem apenas para situações excecionais, pois são as únicas capazes de as resolverem. Desaparece a situação excecional e prescindem delas, voltam ao lugar fechado que não os questiona e em que não são questionados.
Antes do 25 de abril, quem tivesse escolaridade tinha lugar na organização estadual, desde que não houvesse nenhum notável/padre a mandar e que desse o contra. A mediocridade vem das capelinhas. A mediocridade em que se vivia, já era e continua a ser. Sim, porque capelinhas continuam a não faltar. A cunha, o pedido, o favor, o fazer o jeito. Numa organização que não apresenta objetivos, falida vai tudo para a rua; na função pública ninguém vai, perpetua-se a mediocridade, os poderes instalados, os compadrios, o caciquismo. Aceita-se porque se tem medo do novo, do diferente, do que incomoda o sossego, e que pode por o lugar, a promoção, etc., etc., em risco.
Para o medíocre, a mentira é um estado de espírito. Primeiro, acredita nas suas próprias mentiras, depois convence quantas pessoas encontrar. O medíocre é cobarde, e concentra os seus esforços e energias a boicotar o que o competente constrói em soluções nas mais diversas oportunidades. É um agente que impede o outro de inventar, ousar, criar e de administrar a própria vida. Acha que pode tudo e esfrega sua sacanice na cara dos outros. Não há ética que lhe assente. Mentir, enganar. Tudo bem. Detesta perder e desenvolveu habilidades de vendedor ambulante. Despreza a ciência, porque ninguém sabe mais do que ele. Recorre à religião para ser hipócrita e à brutalidade das palavras e dos atos para ser respeitado.
A mediocridade detesta a arte e a literatura, pois não entende e não quer ter que entender o que não interessa nada. Desconhecem até os nossos grandes: quem leu e gosta de Saramago, por exemplo? Quase ninguém. Paula Rego? Têm uma ideia, mas é tudo muito estranho, não é algo para se perder tempo. Contudo, em determinados círculos relacionais e sociais, fazem-se de entendidos. Não leem, mas não perdem um debate acerca de futebol. E para isso consultam quase todos os canais televisivos. Porque não é perigoso. Porque tranquiliza.
O medíocre odeia o diferente, pois não tem um traço de originalidade. Quando pode, rebaixa e humilha os outros, por não poder acompanhá-los. Boçal, fala o que pensa, principalmente quando não pensa. Fura filas, entra em esquemas fraudulentos e passa sermões. A mediocridade não tem um pingo de vergonha. O medíocre quer ser autoridade, para ter importância e mandar. Quer vencer, para ver o outro perder; pratica o “lambotismo” com o poderoso e desdenha e pisa o necessitado. Quer tirar vantagens de tudo. Unidos, os medíocres apoiam e reforçam-se, minam tudo à sua volta, e atacam como hienas. Sozinhos, fogem como ratos.
Marília Alves




