David Gonçalves de Almeida

Conta-se que certo dia, numa terra onde Santo António andava em pregação, uma piedosa mulher, com a pressa de chegar a tempo de ouvir desde o início o ansiado sermão, deixou, inadvertidamente, o filho pequeno sozinho em casa e, ao lume, um enorme caldeirão com água. Foi ao regressar que se apercebeu da imprudência que havia cometido. O filhinho tinha caído para dentro da enorme panela onde a água fervente ainda borbulhava. Aflita, mas cheia de fé, logo invocou o Santo Milagreiro e, ao aproximar-se mais, verificou, aliviada, que ele estava são e salvo, brincando inclusivamente na água a ferver sem que apresentasse qualquer queimadura.
Esta é apenas uma das muitas histórias que se contam à volta dos milagres de Santo António.
Igualmente envolvendo uma criança, diz a tradição que em Itália uma mulher deu à luz um lindo bebé. O marido, desconfiado e ciumento que era, logo pôs em causa a paternidade, gerando assim um mau ambiente familiar. Sabendo da situação, Santo António visitou o casal e pegando no recém-nascido ao colo suplicou-lhe, invocando o nome de Jesus, que dissesse, mesmo ali, quem era o verdadeiro pai. A criança olhando para o progenitor que estava presente não hesitou um segundo e com voz decidida exclamou: – É este o meu pai!
São lendas, dirão os mais descrentes. São milagres, dirão os realmente convictos.
E que dizer da notícia que a “Gazeta de Lisboa” publicou no dia 3 de Julho de 1749?
O relato do estranho acontecimento espalhou-se por todo o Reino, tendo como fonte segura, refere a Gazeta, “uma pessoa de grande crédito moradora na mesma vila”.
A história que abaixo se transcreve, aqui publicada com grafia actual, encontra-se narrada naquele periódico, uma espécie de jornal oficial que se publicou entre 1715 e 1820 e esteve na origem do actual “Diário da República”.
“Junto ao Castelo da vila de Penacova, três léguas distante da cidade de Coimbra, andava no dia 2 de Junho, do presente ano, assoalhando uma pouca de lã, Isabel Francisca, viúva de Manuel de Brito, morador que foi da mesma vila, e tendo pouco distante de si um menino de um mês, que havia parido póstumo, chamado António, saiu das abóbadas de um magnífico templo, que naquele distrito se acha por acabar, destinado para a imagem de Nossa Senhora da Guia, uma ave de rapina de extraordinária grandeza, a que uns dão o nome de bufo, outros de guincho, e se costuma sustentar de gados e aves que apanha; e levando o menino nas garras voou para uma montanha chamada de Penedos, por passar por entre eles o rio Mondego. A lastimada mãe, vendo tão deplorável fatalidade, começou a invocar com ânsia o socorro de Santo António, de quem se venera a Imagem em uma ermida, que fica defronte daquele sítio. Passando a ave pela quinta de Bernardo Cabral de Castelo Branco, mística com a montanha para onde continuava o seu voo, pousou junto a uma fonte, em que está outra imagem do mesmo Santo: e concorrendo a gente, que andava trabalhando naquela fazenda, fugiu, deixando ao pé da mesma imagem o menino, sem mais lesão que umas leves feridas das garras, com que o apertava. Este prodígio, que admiraram muitos circunstantes, fez aumentar em todos a devoção do milagroso Santo Lisbonense; e para consolação dos seus devotos o mandou comunicar ao Reino por meio da Gazeta uma pessoa de grande crédito, moradora na mesma vila.”
Parece que estamos a visualizar a cena. Que se saiba, a notícia da Gazeta não foi desmentida. Também Manuel Bernardes Branco, no seu livro de 1887, “O Padre Sto António de Lisboa”, recorda este caso largamente publicitado na Gazeta de Lisboa.
Se na verdade assim foi, só mesmo a acção milagrosa de Santo António pode explicar o estranho comportamento daquela ave de rapina que depois de sobrevoar os céus de Penacova com o bebé preso nas suas mortíferas garras o deixou são e salvo junto a uma imagem daquele santo.
David Gonçalves de Almeida












