Lisa Gambini

Nem só de oxigénio, água e alimento vive o ser humano. Para manter a saúde, o cérebro humano tem de receber sinais de ligação a outros. Estar só ou sentir-se só é um sentimento cada vez mais comum e é uma das grandes preocupações de saúde do século XXI. 

Definida como um sentimento subjetivo, relaciona-se com ausência de contacto, de sentimento de pertença ou com a sensação de se estar isolado e, além de afetar o bem-estar das pessoas, tem pesadas consequências para a saúde e aumenta o risco de morte prematura. 

Se por um lado o sentimento de solidão, que os cientistas referem como a discrepância entre o nível desejado de conexão social e a aquele que efetivamente se tem, pode interferir com a qualidade de vida das pessoas, também aumenta a probabilidade de desenvolvimento de doenças como a ansiedade e a depressão, entre outras. Afeta cada vez pessoas por todo o mundo e pode mesmo tornar-se numa doença incapacitante. 

Analisar a solidão é um fenómeno complexo e não deve ser confundida com viver sozinho e sem um círculo de relações, já que pode afetar também quem vive acompanhado. De facto, sabe-se que o sentimento de solidão pode coexistir com o contacto social. A distância emocional é mais insuportável que a distância geográfica. Há pessoas que têm quilómetros a separá-las e estão próximas e outras que convivem no mesmo espaço físico e tem um mundo a separá-las. 

Sentir solidão não é estar só, é estar vazio, já dizia Séneca. 

Somos seres complexos e encerramos um mundo em cada um de nós. Todos, em algum momento da vida, já nos sentimos sós, social ou emocionalmente. A sociedade tem vindo a alterar-se e, se por um lado as relações baseadas no contacto “cara-a-cara” e no interconhecimento estão a perder-se, por outro, o nosso estilo de vida é cada vez mais independente e autónomo. Nunca estivemos tão contactáveis, mas nunca nos sentimos tão sós. 

Em Portugal, de acordo com um estudo recente, a solidão afeta um em cada quatro adultos. Este sentimento, embora mais frequente nos adultos mais velhos, pode afetar qualquer um, em qualquer idade e/ou condição. Muitos já consideram a solidão como um problema de saúde pública, e não é à toa que países como o Reino Unido e o Japão, já tem um Ministério da Solidão.  

Temos cada vez mais facilidades de comunicação, mas debatemo-nos com sérias dificuldades nas ligações humanas.  

Por desânimo, incompreensão, tristeza ou medo, afastamo-nos, isolamo-nos, fechamo-nos e quebramos laços essenciais para a nossa sobrevivência enquanto pessoas. É inquestionável a importância das relações de pares para um desenvolvimento saudável e harmonioso, na infância e adolescência, e para o bem-estar e qualidade de vida nos adultos e adultos mais velhos. 

No Natal, infelizmente, os sentimentos de solidão e isolamento intensificam-se. 

Nem todos conseguem estar tranquilos e felizes nesta época do ano, apesar da pressão externa. A ideia da família feliz, reunida em torno da mesa na consoada, que nos é passada em anúncios e meios de comunicação, muitas vezes só serve para intensificar esse sentimento. Se a quadra natalícia é propícia a que se exalte, e bem, a família, a união e a amizade, também deveria colocar menos pressão social e emocional para o “perfeito”.  

Os comprimidos não resolvem tudo, cada um debate-se com as suas batalhas e as realidades individuais não são todas iguais, portanto, num mundo cada vez mais solitário, onde cada vez mais as pessoas se sentem tristes, sozinhas e vazias, fortalecer as relações, fomentar o convívio e a partilha de bons momentos – na época do Natal e durante todo o ano – cuidar de si mesmo, valorizar-se, ser proactivo e estar envolvido em atividades coletivas parece ser a melhor prescrição para aliviar o insuportável peso da solidão. 

Lisa Gambini 

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