Em 2021, a vitória de Álvaro Coimbra e do PSD, em Penacova, foi uma das surpresas da noite eleitoral autárquica, na Região de Coimbra. Dois anos depois, o antigo jornalista assume que ainda está a aprender mas não hesita em definir o que são prioridades para a estratégia de desenvolvimento que preconiza.

Como encontrou a câmara, no plano financeiro?
Quando entrámos em funções, em outubro de 2021, encontrámos o município numa situação financeira equilibrada. Porém, daí para a frente, exigiu alguma contenção, até por força da conjuntura internacional. A chamada economia de guerra, a subida da inflação e das taxas de juro, tudo contribuiu para que tivéssemos alguma cautela no desenho dos orçamentos seguintes. E é o que tem acontecido. 2023 tem sido um ano de rigor, do ponto de vista fianceiro e esperamos que a melhoria do quadro de contexto económico nos permita que as coisas em 2024 sejam mais animadoras.
Tem sido possível cumprir compromissos, nomeadamente, nas obras financiadas por fundos europeus?
Não há nenhum projeto que tenha ficado pelo caminho. É verdade que tínhamos algumas obras, financiadas pelo Portugal 2020, que se revelaram exigentes, em termos de comparticipações, mas levámos todas até ao fi m, cumprindo escrupulosamente tudo quanto estava estipulado. Agora, estamos na situação particular de transição entre quadros comunitários. Pela nossa parte, estamos a tentar ir ao máximo de candidaturas e de avisos do PRR.
Como está a capacidade de endividamento do município?
Estamos ainda longe de estar na linha vermelha, pelo que é um aspeto em que estamos confortáveis. Estamos, aliás, a tentar enquadrar já alguns projetos para o Portugal 2030. Por isso, com algum rigor, penso que não teremos dificuldades.
O rigor financeiro, em 2023, levou ao cancelamento das festas…
Sim, é público que não fizemos as festas do município, o que causou algum frisson nas redes sociais, mas foi uma opção que tivemos de fazer, sabendo que as decisões nem sempre satisfazem toda a gente. Mas nada que implicasse alterar alguma estratégia que tivesse sido desenhada por este executivo.
Vai haver festas concelhias, em 2024?
Vai. Nós reconhecemos que as Festas do Município são fator aglutinador da dinâmica concelhia mas, em termos de evento, resulta muito mais o que temos procurado fazer, atraindo novos públicos, sobretudo de fora do concelho. O Street Food, a Feira de Doçaria Conventual, o Trail do Carlos Sá, que este ano bateu recordes, com 1.200 participantes, o Festival da Lampreia.
Voltando ao início, que medidas, definidas em campanha, assumiram como prioridades?
As nossas prioridades foram sempre uma aposta substancial na área do turismo, porque achamos que é absolutamente fundamental e estamos a fazer caminho nesse sentido. Passaram também pelas áreas de acolhimento empresarial, pois sem criar condições para as empresas se fixarem é impossível criar emprego e atrair pessoas. Outra prioridade foi a de encontrar formas para recuperar o património, em grande parte degradado, dado o abandono que se verifica em muitas aldeias, à semelhança de grande parte do interior do país. Mas, apesar de existirem instrumentos para poder intervir, nomeadamente o pacote de medidas para a habitação, no PRR, do PNAUD e outros, esta é uma área que não está a correr à velocidade que nós pretendíamos. A câmara tem feito o seu trabalho mas há um peso burocrático muito grande e não tem sido fácil concretizar.
Em termos práticos, o que foi já feito?
O que fizemos foi definir uma lista de imóveis que nos interessa recuperar, em várias aldeias e na vila, e a aposta é justamente na reabilitação. Estamos em negociações com os proprietários privados e o objetivo é, depois, colocar os imóveis no mercado, para arrendamento. No caso concreto da sede do concelho, temos em projeto a construção de um novo bloco habitacional para arrendamento. Fica na zona da Eirinha, junto às piscinas municipais.
Definiu o turismo como prioridade. É por isso que apostaram no Lorvão?
Sim. É verdade que Lorvão é uma aposta nossa, desde o minuto zero. Conseguimos desencravar um processo que estava como que congelado, o Centro Interpretativo do Mosteiro do Lorvão. Para além disso, continua em perspetiva o surgimento de um investimento privado, através do Revive e de um promotor que tem um projeto para um hotel…
Continua de pé, esse projeto hoteleiro?
Penso que sim, tendo em conta as últimas informações que recebi. Mas, mais uma vez, “chocou de frente” com a pesada máquina burocrática do Estado. Como já referi várias vezes, o promotor esteve um ano à espera de um parecer da tutela da Cultura. Quando o Estado coloca publicamente uma bolsa de imóveis e desafia privados a investirem em equipamentos hoteleiros também deveria ter outra agilidade na análise dos projetos.
Outro projeto hoteleiro que não sai do papel é o da recuperação do Hotel de Penacova…
O hotel está fechado há 13 anos e tem sido prioridade, para nós, encontrar uma solução. É claro que não depende, exclusivamente, da câmara, pois o imóvel tem vindo a ser negociado por um banco, mas achamos que aquela zona nobre da vila, com dois edifícios devolutos, o hotel e o sanatório, merece todo o nosso esforço. E é o que temos estado a fazer. Achamos que uma solução para o hotel está cada vez mais próxima e, se vier a concretizar-se, será um dos grandes dossiês que poderemos vir a fechar, pela positiva. Penacova já tem quase cinco dezenas de alojamentos locais e de turismo rural, mas temos muitas solicitações, sobretudo de grupos, que pretendem instalar-se em hotéis. Para além disso, pensamos também que um hotel no centro da vila é também um enorme impulso ao surgimento de pequenos negócios complementares, nas áreas de bares e restauração, do artesanato e de outro pequeno comércio.
Vai haver lampreia, em 2024?
(Risos) Ora aí está uma pergunta para um milhão de euros! O que nos dizem os especialistas é que a lampreia caminha para ser espécie ameaçada. O que aconteceu no ano passado não foi só no Mondego mas em todos os rios, inclusive em França, de onde vem muita lampreia. É um problema e uma angústia para Penacova, que ficou conhecida como “Capital da Lampreia”, mas vamos ter de esperar ainda mais algumas semanas.
No plano turístico, merecem também destaque as praias fluviais…
Este ano, tivemos o grato prazer de ver o Vimieiro, no Rio Alva, ser eleita a “Praia Fluvial do Ano”. A visibilidade e notoriedade que a distinção valeu ao concelho de Penacova significa também que estamos a fazer bem o nosso trabalho, em termos de preservação do ambiente, em prol de um turismo sustentável em oposição ao turismo de massas, que não queremos. O Vimieiro, como melhor praia fluvial do país é disso exemplo, tal como o Reconquinho. São duas praias de Bandeira Azul em que estamos a investir. E, em paralelo, estamos a fazer caminho para, em breve, termos mais praias candidatas a bandeira azul.
Qual vai ser a próxima?
Vai ser o Cornicovo, também no Rio Alva, a jusante do Vimieiro [entre as aldeias de Hombres e Laborins]. Já há algum trabalho feito, sobretudo pela União de Freguesias de São Pedro de Alva e São Paio de Mondego, em concertação com o Município para, num futuro próximo, poder reunir os requisitos necessários à candidatura.
Falou nas áreas de acolhimento empresarial. Em que pé estão?
As duas áreas estão na fase de definição dos planos de pormenor. São processos muito lentos, que carecem de vários pareceres de múltiplas entidades. Quer na área do IC6, onde está já instalada uma empresa da área dos transportes, quer na da Alagoa, gostaríamos muito de, até final deste mandato ter já alguma obra em concreto, mas pela forma como demoram os processos temos dúvidas que seja viável. O loteamento da Alagoa é o mais adiantado… Eu acho que Penacova não aproveitou, em tempo certo, as potencialidades que tem, nomeadamente, as boas acessibilidades do IP3, que obrigavam a uma outra atenção dos executivos que me precederam, nos últimos 30 anos. Comparativamente com outros municípios vizinhos, tínhamos melhores condições mas não aproveitámos, nesta questão dos parques empresariais. No caso da área da Alagoa, com uma localização privilegiada, não se fez mas penso que ainda estamos a tempo, até pelos contactos que vamos tendo com empresários e investidores. Ainda assim, no espaço livre da área da Alagoa, foi possível connosco formalizar e disponibilizar mais dois lotes e estamos à espera que as empresas se interessem. Em complemento, temos também em projeto a conversão de uma antiga escola primária, em Figueira de Lorvão, para a criação de um centro de negócios que não será propriamente uma incubadora mas sim um espaço de acolhimento de empresas em início de atividade.
Acompanha as ameaças de cortes de estrada do autarca de Coimbra a propósito do IP3?
A posição do presidente da Câmara de Penacova é de que devemos fazer pressão junto do Governo, mas medidas drásticas, como a que foi ventilada pelo presidente da Câmara de Coimbra, acho que não são via para atingirmos o objetivo… Mas temos de reconhecer que o arrastamento do problema do IP3 é um pouco o que acontece, na Região de Coimbra, em relação a outras obras. Basta olhar para o IC6, que está por concluir há uma data de anos, para a A13, que acaba num talude, para o Metro Mondego, há 30 anos por concretizar, para o Hospital Pediátrico ou a Ponte Rainha Santa/Ponte Europa que andaram também anos para serem feitos. No fundo, o problema é que há mais de 30 anos que a região precisa de uma liderança forte, em termos políticos.
Como avalia o trabalho da Comunidade Intermunicipal?
Eu sou ainda um jovem autarca, apenas com dois anos de funções. Como costumo dizer, no meu círculo próximo, estou ainda em fase de aprendizagem, até porque, como se sabe, venho de um outro setor de atividade. Mas encontrei dentro da CIM um espírito de entreajuda muito grande e sei que a atual liderança tem feito tudo ao seu alcance para reivindicar o que a nossa região necessita, por exemplo, em relação ao IP3, à futura variante à EN 17… Mas, claro, estamos numa conjuntura difícil, até a nível nacional, e nem sempre é fácil conseguir que as respostas cheguem em tempo útil. Ainda assim, acho que a Região de Coimbra, funcionando a 19, e independentemente das cores partidárias, tem feito um bom trabalho. Voltando ao IP3… O IP3 é uma obra inacabada, como todos sabemos. Têm sido sucessivamente anunciados novos prazos para a conclusão, com sucessivas derrapagens e todos nos lembramos do passado recente, com vários momentos com a presença de membros do Governo. De facto, a única parte que foi recuperada foi este troço mais complicado e sinuoso, junto a Penacova, que não obrigava a duplicação de faixas. Sabemos que a seguir vem o troço Santa Comba Dão-Viseu e só depois a ligação Coimbra-Espinheira. Agora, a nossa opinião é que a ligação entre Coimbra e Viseu por autoestrada pode, e deve, avançar mas aproveitando o traçado que há anos se designou por Via dos Duques, passando a sul do Mondego e beneficiando todos os concelhos daquela zona.
O processo APIN chegou ao fim. E agora? O futuro passa pela agregação a outros municípios?
Para nós era insustentável manter a atual situação muito mais tempo, uma vez que os custos da manutenção do serviço, de águas e saneamento, entenda-se, eram suportados por nós que sempre assegurámos a operação no terreno. O papel da APIN era faturar a água aos clientes e ficar com a receita. A decisão do Tribunal Arbitral está em linha com o que sempre defendemos, sair da APIN e passar a ter um serviço de águas e saneamento 100% municipal..
Estamos a meio do mandato. Já decidiu se vai recandidatar-se?
A vontade é recandidatar-me. Eu penso que os mandatos autárquicos são muito curtos, pois o tempo voa e não dá para fazer muita coisa em quatro anos. Aqui, em Penacova, nestes dois anos, já fizemos muito mas o trabalho fica muito marcado pela falta de tempo, pois os processos são muito morosos e o tempo de um mandato não é suficiente para implementar uma estratégia de desenvolvimento.












