David Gonçalves de Almeida

“Em Penacova, facilmente se conseguia um campo de aterrissage magnífico. Para tal lembramos o alto da serra da Atalhada onde existe um planalto magnífico e a nosso ver facilmente adaptável a este fim”- alvitrava o Jornal de Penacova de 17 de Junho de 1922.
Curiosamente, neste dia em que saía o jornal, Carlos Viegas Gago Coutinho e Artur de Sacadura Freire Cabral eram recebidos em apoteose no Rio de Janeiro, completando a Primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul, um dos feitos aeronáuticos mais importantes da História da Aviação Mundial.
Há cem anos as notícias não corriam o mundo com a louca velocidade de hoje. Não admira, pois, que aquela notícia não estivesse relacionada com o feito glorioso conseguido naquele dia. Esta sugestão de construir um aeródromo na Serra da Atalhada, tinha, isso sim, a ver com uma circunstância bem mais próxima dos penacovenses: terem um filho seu como ilustre piloto aviador, de seu nome José Barbosa dos Santos Leite, que se havia de celebrizar como tendo feito o primeiro voo militar em Portugal a 17 de Julho de 1916.
Santos Leite participou em missões durante a I Grande Guerra, que mereceram a atribuição de altas condecorações. Depois de regressar a Portugal, foi vitimado pela pneumónica (1918 /1919) e veio para a casa da família em Telhado para se restabelecer da grave doença. Em 1924 tornar-se-ia Director do Campo de Instrução e Aterragem e em 1928 Comandante do Grupo Independente de Aviação e Bombardeamento, com sede em Alverca.
Em Penacova, num período conturbado da política nacional, foi Administrador do Concelho, cargo que exerceu de 7 de Julho a Dezembro de 1926. Recorde-se que Santos Leite viria a falecer a 30 de Novembro de 1928, com a patente de Major, num acidente aéreo no Aeródromo de Alverca.
Posto isto, retomemos a história do “aeroporto” no alto da Atalhada e vejamos o teor do curioso episódio publicado no Jornal de Penacova:
“Foi a população desta vila e subúrbios agradavelmente despertada pelo barulho que muito se assemelhava ao de um camion de grande força, mas que depois se viu ser produzido pelo motor dum aeroplano pilotado pelo nosso estimado amigo e conterrâneo capitão aviador Santos Leite.
Foi a primeira vez que aqui foi visto um destes poderosos aparelhos e por isso foi também pela primeira vez que a maior parte da população desta região teve ocasião de ver o que eram os tão falados aeroplanos. À sua volta fizeram-se comentários engraçadíssimos fáceis de calcular em gente pouco acostumada a ver estas coisas.
O nosso amigo, segundo nos consta, fez óptima viagem, gastando menos de uma hora em todo o percurso desde Alverca até ao campo de aterrissage da Lousã, incluindo a visita que nos fez, e que em nosso nome e dos nossos conterrâneos muito lhe agradecemos.
No Domingo em que regressava a Alverca esperava-se que ele se nos deixasse ver novamente mas contra esta expectativa, naturalmente por falta de tempo, tal não sucedeu. Apesar disso, ainda foi visto a grande distância, seguindo em direcção a Coimbra onde fez várias evoluções sobre a cidade, regressando a Alverca sempre com felicidade, como calculamos.
O observador era o senhor Ribeiro da Fonseca. Era curioso ver os montes sobranceiros a Penacova cobertos de gente que esperava vê-lo de mais perto no referido Domingo, sendo pena que a sua curiosidade ficasse mais ou menos frustrada pois que não sendo a sua visita esperada no sábado nenhuma manifestação de apreço lhe foi prestada, projectando fazer-lha no domingo se a visita se repetisse.
Como o campo da Lousã fica perto de nós é fácil que mais bastas vezes sejamos visitados por estes aparelhos que em verdade são dignos de ver-se no seu voo sereno e rapado.
Em Penacova facilmente também se conseguia um campo de aterrissage magnífico. Para tal lembramos o alto da serra da Atalhada onde existe um planalto magnífico e a nosso ver facilmente adaptável a este fim. Aqui deixamos a lembrança.”
David Gonçalves de Almeida












